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O que pode ser discutido é se Bolsonaro foi isolado pelos outros, ou se isolou por si. A resposta, infelizmente, é que provavelmente ambas as coisas ocorreram, levando o Brasil junto consigo.
O que pode ser discutido é se Bolsonaro foi isolado pelos outros, ou se isolou por si. A resposta, infelizmente, é que provavelmente ambas as coisas ocorreram, levando o Brasil junto consigo.| Foto: Alan Santos/PR

Jair Bolsonaro, chefe de Estado representando o Brasil, ficou isolado na última cúpula do G20, na Itália. Não adianta pensar em rótulos ou “atirar no mensageiro”, como se diz em inglês. Isso pode ser atestado nas imagens e na comparação com outras agendas de lideranças internacionais presentes. O que pode ser discutido é se Bolsonaro foi isolado pelos outros, ou se isolou por si. A resposta, infelizmente, é que provavelmente ambas as coisas ocorreram, levando o Brasil junto consigo. 

Algumas pessoas podem questionar a importância de um evento como esses. E é um questionamento justo, que merece resposta. A cúpula do G20 importa em duas esferas. A primeira é a formal. É um fórum internacional de altíssimo nível, com as vinte maiores economias do mundo, mais convidados representando a União Africana e a Associação de Nações do Sudeste Asiático, entre outros. Questões de interesse global, como a recuperação econômica pós-pandemia, são debatidos e, em boa parte, decididos ali.

A segunda importância é a da ocasião. É bastante conveniente ter tantas lideranças de peso no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Além de discussões multilaterais, como as citadas, também permite uma farta agenda de encontros bilaterais. Isso foi debatido cerca de um ano atrás, na coluna “A perda de uma Assembleia Geral da ONU que não terá assembleia”. Na ocasião, o prejuízo de uma assembleia feita apenas virtualmente, assim como foi a cúpula do G20 em 2020, cuja sede foi Riade.

Agendas e encontros

Em 2021, a cúpula voltou a ser presencial. Uma circunstância excepcional para uma extensa agenda diplomática. Por exemplo, Joe Biden, presidente dos EUA, chegou em Roma na noite do dia 28 de outubro. Entre os dias 29 e 31 de outubro, além dos compromissos multilaterais, ele teve reuniões bilaterais com o presidente francês Emmanuel Macron, o premiê italiano Mario Draghi, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Além das quatro reuniões, Biden teve também um encontro com lideranças europeias para discutir o programa nuclear iraniano e até uma audiência com o papa Francisco. O premiê indiano Narendra Modi, nacionalista e conservador, teve reuniões com Mario Draghi, Macron, a alemã Angela Merkel, o premiê de Singapura Lee Hsien Loong, o presidente indonésio Joko Widodo, o premiê espanhol Pedro Sanchez e também o papa Francisco. Mais um exemplo? Que tal Boris Johnson?

O conservador premiê britânico, em paralelo ao G20, se encontrou com o premiê australiano Scott Morrison, o canadense Justin Trudeau, Mario Draghi, Ursula von der Leyen e Macron. Ou seja, todos esses citados se encontraram com cinco ou seis lideranças internacionais. E Bolsonaro? Apenas uma, com Mathias Cormann, o secretário-geral da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, a OCDE, uma pessoa sem poder decisório.

Bolsonaro também teve uma recepção formal por Draghi, que não é a mesma coisa que as reuniões citadas. Mesmo na recepção, inclusive, o tom foi frio, e o italiano não cedeu um aperto de mão. Provavelmente uma reprimenda simbólica pelo fato de Bolsonaro dizer que não se vacinou contra a covid. No geral, é difícil de acreditar que, com mais de 90% do PIB mundial e 80% de todo o comércio internacional reunidos em apenas um lugar, não houvesse prioridades ou oportunidades a serem exploradas ou criadas.

Conversas de salão

Novamente, isso que foi apontado aqui é um fato. Inquestionável. A agenda internacional de Bolsonaro é ínfima. Pior, o presidente de uma das maiores economias e maiores mercados do mundo não atrai muito mais atenção do que algumas palavras de salão, sem pautas ambiciosas. Na antessala do G20, Bolsonaro foi pouco procurado. E, quando foi, tais palavras de salão são pouco aproveitadas. Enquanto conversava com Erdogan, Bolsonaro parecia mais preocupado em fazer vídeos em tom de campanha para seus eleitores.

Em outra breve conversa, num sofá, Bolsonaro trocou algumas palavras com o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Ghebreyesus, se queixando do tratamento recebido pela oposição e do fato de ser chamado de genocida. Tedros também não é uma figura com poder decisório, muito menos sobre os termos utilizados por opositores ou críticos do atual governo. E, se for para se encontrar com uma figura simbólica, o papa recebeu um líder hindu, mas não um católico de um país de dezenas de milhões de fiéis. 

Novamente, não adiantam vídeos enviesados nas redes sociais, paixão ideológica ou cobertura favorável por alguns jornalistas. O fato cristalino é que o presidente do Brasil, um país presidencialista, foi à uma cúpula recheada de pesos pesados internacionais e não discutiu nada, com ninguém. Nenhum avanço, nenhuma abertura de mercado, nenhum acordo de nada. Nem um agendamento de alguma visita futura, para maior aprofundamento em alguma relação que fosse.

Isso é ainda mais chocante quando se pensa que Bolsonaro é presidente há três anos, período partilhado com outras lideranças. E ninguém, nunca, ao ver o presidente brasileiro, age como alguém que encontra um velho conhecido, um aliado, um parceiro. Ao contrário, o constrangimento é visível em algumas ocasiões, para perda de todo o Brasil. A política externa é uma ferramenta de políticas públicas. Serve para expandir negócios para os brasileiros, melhorar o bem-estar da população e o desenvolvimento do país.

Pária

E o Brasil tem, ou teria, muito a oferecer e a receber. Se um país como esse ficou isolado, é necessário se perguntar o motivo. E o motivo é o seu governo atual, e seu governante atual. Bolsonaro está colhendo os frutos que ele mesmo plantou. “Que sejamos um pária”, já disse seu ex-chanceler, em tom quase premonitório. Não é uma “conspiração da esquerda mundial” para isolá-lo. Modi, Johnson, Widodo, Morrison, dentre outros, não dariam a mínima para isso, por exemplo. 

Dão bola, entretanto, para a postura do governo perante a pandemia, um dos dez países com mais mortes por milhão de habitantes do mundo, mais de quatro vezes a média mundial. Para a presepada com o avião que buscaria vacinas na Índia, além da investigação sobre uma suposta compra da indiana Covaxin. Dão bola também para o fato de que o governo Boris Johnson teve que contradizer publicamente o governo brasileiro sobre o teor das conversas entre os dois líderes em Nova Iorque, em setembro. 

São apenas alguns exemplos recentes. Deixando de lado os rótulos, seja de “mito”, seja de “extrema imprensa”, essa é a substância. Tampouco é “torcer contra”, é atestar a realidade de um governo isolado em um período crucial da comunidade internacional, que começa a sair do sufoco da pandemia. As agendas não mentem e os vídeos postados podem até alegrar o eleitorado, mas o mundo é maior que o cercadinho de Brasília. Resta o turismo com os recursos do erário para disfarçar o vexame que foi o G-20 para o governo brasileiro.

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