O presidente russo Vladimir Putin observa uma espada que ganhou de presente do ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, no primeiro encontro entre os dois. Foto: Alexey NIKOLSKY / SPUTNIK / AFP
O presidente russo Vladimir Putin observa uma espada que ganhou de presente do ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, no primeiro encontro entre os dois. Foto: Alexey NIKOLSKY / SPUTNIK / AFP| Foto:

Foi pensando em diversificar suas opções que Kim Jong-un cruzou o rio Tumen em seu trem blindado e foi se encontrar com Vladimir Putin em Vladivostok. Parece até frase saída de uma coluna de fofocas, só faltando mencionar que é pra deixar Donald Trump com ciúmes. Ainda assim, é a síntese dos objetivos de Pyongyang ao realizar a cúpula com Putin, o primeiro encontro entre o ditador norte-coreano e o presidente russo.

Esse é um detalhe interessante. Embora Kim esteja no poder desde 2011, até recentemente ele não tinha se encontrado com nenhuma liderança internacional. No último ano, entretanto, se encontrou múltiplas vezes com o chinês Xi Jinping, o sul-coreano Moon Jae-in e Donald Trump, além de encontros com lideranças vietnamitas e singapurenses por ocasião das cúpulas com Trump.

Busca por mais parceiros

Esse rompimento de isolamento é fruto de dois aspectos já anteriormente explicados aqui nesse espaço. Primeiro, a conclusão das pesquisas norte-coreanas na combinação de ogivas nucleares e um míssil balístico intercontinental, possibilitando uma maior posição de barganha. Segundo, um novo governo sul-coreano, propenso ao diálogo com o norte, tornando o contexto mais propício à busca por negociação no norte.

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Se a busca por melhores relações exteriores não foi mera consequência das bravatas e ameaças de Trump, ao contrário do que dizia a interpretação de muitos analistas ideologicamente entusiasmados, é impossível desconsiderar o papel de seu governo e de seu país nas políticas que sufocam a economia norte-coreana. Algo também já explicado por aqui, nos textos mencionados anteriormente.

No final das contas, sem a anuência de Washington, a Coreia do Norte não conseguirá ir muito longe. Por outro lado, as conversas bilaterais esfriaram desde o fiasco no Vietnã em Fevereiro. Nas últimas semanas, Pyongyang decidiu cutucar os EUA sobre o tema. Testou uma “nova arma tática”, muito provavelmente um míssil de cruzeiro de curto alcance, algo que não viola a moratória em novos testes de armas estratégicas mas dá um sinal.

Além do teste, a Coreia do Norte “solicitou” em algo mais parecido com um ultimato que o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, se retire das conversas entre os dois países. Oriundo da CIA, o comportamento de Pompeo já havia sido classificado como “mafioso” pela Coreia do Norte, talvez um infeliz gracejo com sua origem italiana. Além disso, ele e John Bolton, o principal falcão em Washington, são os mais linha-dura com Pyongyang.

Nesse contexto, Kim Jong-un deu “até o fim do ano” para que o governo dos EUA “se torne mais flexível”. O impasse é evidente. Os EUA, nomeadamente Bolton e Pompeo, querem que a Coreia do Norte entregue todas suas armas nucleares e inventarie todo seu programa de pesquisa antes de qualquer folga nas sanções; os norte-coreanos defendem uma abordagem progressiva, cada lado cedendo um pouco de cada vez.

O que querem Kim e Putin

Junto com esses “lembretes”, outra maneira da Coreia do Norte pressionar por uma retomada das conversas é sentar-se com outros parceiros. Nesse caso, a Rússia, em uma situação em que ambos ganham, especialmente em imagem. Na concretude, entretanto, os ganhos concretos serão discretos, embora alguns vejam como um fantasioso virar de costas para os EUA, uma “independência” da Rússia e a da Coreia do Norte.

Pouco está em jogo no diálogo com a Rússia, e se trata muito mais de um aceno, tanto de Kim, quanto de Putin. Assim como aqui nesse espaço frequentemente se lembra que os EUA não têm como impor uma solução para a península coreana, também não se pode pensar que exista alguma solução aplicável ali sem a colaboração e o interesse do governo de Washington.

Quais os ganhos então? A Coreia do Norte é alvo de sanções aprovadas via o Conselho de Segurança da ONU; normas vinculantes do direito internacional. A Rússia, sendo um dos países permanentes do conselho, é um país que, caso deseje, pode pressionar o tema no órgão, colocando-o na pauta e propondo outras abordagens. Mesmo que não sejam adotadas, são uma forma de orientar as conversas, especialmente seu timing.

Para Kim, cortejar a Rússia é uma maneira de atrair para seu lado um ator internacional de peso. Para Putin, possibilita recolocar seu país em um maior papel nas negociações sobre a península coreana. O uso do termo “recolocar” é devido o fato da Rússia considerar o Diálogo a Seis o “único fórum” com capacidade de soluções de longo prazo; as aspas são palavras do Ministério de Relações Exteriores russo.

O Diálogo a Seis une as duas repúblicas coreanas, os EUA, a China, a Rússia e o Japão. Iniciado em 2003, teve progressos entre 2007 e 2009, quando as conversas foram paralisadas devido ao então teste norte-coreano de lançamento de satélite. Nesse caso, importante manter em mente algo pouco difundido; o mesmo foguete que lança um satélite é o foguete que projeta ogivas no território inimigo em outro continente.

A Rússia apoia a abordagem progressiva norte-coreana, notando que tanto a Coreia do Norte paralisou seus testes quanto os EUA interrompeu seus exercícios militares na península. Ou seja, busca fazer uma ponte nas conversas, apontar que ambos os lados estão “se comportando” e que podem chegar num meio-termo. Então, a Coreia do Norte consegue se mostrar acompanhada, e a Rússia consegue retomar participação política.

Chamar Trump

Economicamente, a Coreia do Norte não é, ao menos ainda, interessante para a Rússia, mas existem questões pontuais para serem conversadas nessa colaboração. Primeiro, a grande comunidade de norte-coreanos que reside na Rússia e envia dinheiro para casa; muitos deles são trabalhadores em postos insalubres, na região da Sibéria, pouco habitada. Segundo, a cooperação tecnológica russa para modernização norte-coreana.

Muito da infraestrutura norte-coreana tem origem dos tempos soviéticos, então, a cooperação tecnológica em áreas fabris e ferroviárias é importante. Esse aspecto, porém, esbarra no terceiro ponto, o mais importante. A Rússia também é alvo de sanções dos EUA, embora fora do sistema ONU, por causa da anexação da Crimeia. Negociar o alívio de sanções ou cooperações “paralelas” é interessante para Moscou também.

Claro que não será nenhum montante que justifique, por exemplo, que a Rússia viole as sanções ou decida ser a principal aliada norte-coreana, passando por cima das relações com os EUA. O comércio entre os dois países é pequeno e a Coreia do Norte também sabe que, para seus planos de desenvolvimento econômico, a fonte de capital está nos EUA, não na Rússia, que não conseguiria disponibilizar o montante necessário.

Ao final do dia, as conversas entre Kim e Putin serão amistosas, renderão boas fotografias e declarações vistas com interesse. Na prática, poucos ganhos econômicos e boas apostas políticas. Um aceno de que as conversas continuam, um incentivo para melhoria das relações e uma tentativa de chamar Trump para a mesa novamente. Não adianta ter cartas interessantes na mão se o outro lado decidir não jogar mais.

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Como adendo, gostaria de pedir desculpas aos leitores pela ausência da coluna no início dessa semana. Tive um pequeno contratempo e estive doente. Tudo já normalizado e a coluna está de volta, trazendo o que é pouco debatido sobre política internacional.

 

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