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China apresenta míssil DF-41
China apresenta míssil DF-41| Foto: Reprodução/Xinhua

Alguns alertas foram ligados no Pentágono nos últimos dias. Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar do mundo, capaz de projetar força em qualquer teatro de operação do globo em questão de horas. Possuem o segundo maior arsenal nuclear do mundo e é um dos poucos países dotados da chamada tríade nuclear, com a capacidade de realizar ataques nucleares por mísseis balísticos baseados em terra, via submarinos e com ogivas disparadas por bombardeios estratégicos de longo alcance. Ainda assim, o nível de ameaças que Washington poderá enfrentar no Oceano Pacífico acabou de subir.

Na terça-feira (1º) a China realizou uma grande parada militar celebrando os setenta anos da fundação do atual Estado por Mao Tse-tung, em 1949. Esse tipo de evento sempre foi usado como uma forma de demonstração de força, de prestígio nacional e de exibição de novos equipamentos militares. O exemplo usado sempre costuma ser a União Soviética, que usava a parada em celebração da revolução de 1917 para exibir novos armamentos para o Ocidente, mas desde o século XIX o Kaiser alemão Guilherme II já elaborava grandiosas demonstrações de força.

Novo míssil

A principal novidade foi um novo míssil balístico intercontinental móvel, o Dongfeng-41, chamado de DF-41. O nome original, entretanto, é interessante, já que significa “vento oriental”; desnecessário frisar onde esse vento vindo do Oriente “bateria”. Sem entrar em minúcias técnicas, cobertos parcialmente em um texto do Washington Post publicado na Gazeta, o míssil é um problema para os EUA por dois motivos. Primeiro, por ser lançado de uma plataforma móvel, torna-se mais difícil de ser monitorado e de ser antecipado, ao contrário de mísseis balísticos lançados de silos fixos. 

Aqui entra o segundo problema. Mísseis de plataformas móveis costumam ter um alcance mais reduzido; mobilidade e imprevisibilidade balanceados com menos combustível e motores de capacidade descontada. Não é o caso do DF-41, que consegue atingir qualquer alvo dentro do território dos EUA, mesmo na costa leste. Com essa novidade, a China alcança um patamar de desenvolvimento tecnológico em que apenas a Rússia estava. Hoje, os EUA não possuem nenhum míssil balístico móvel em seu arsenal. Esse é outro ponto de preocupação: em armas estratégicas, os EUA ficaram para trás. 

Esse é um dos motivos da retirada do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário pelo governo Trump. Armas estratégicas entraram em declínio na doutrina militar do Pentágono pós-Guerra Fria, hoje focado em guerras assimétricas, como no Afeganistão e no Iraque. A economia dos EUA pode manter onze porta-aviões nucleares e lutar uma guerra em qualquer lugar; as outras economias não aguentam esse fardo. Precisam, então, de algo que dê um golpe decisivo em um hipotético conflito mundial. Um nocaute rápido.

Ficção científica

No tema da superioridade naval, esse é outro “filão” explorado pela China, com o desenvolvimento e testes ostensivos de novos mísseis antinavio, incluindo capacidade nuclear e longo alcance; segundo a National Interest, revista de relações internacionais de perfil editorial da escola Realista presidida por Henry Kissinger, alcance mais longo do que as contramedidas disponíveis para a marinha estadunidense. A outra novidade foi uma combinação de lançador e planador ultrasônico (HGV na sigla em inglês). O termo que parece de um filme de ficção científica é um dos novos campos em tecnologia militar.

Em suma, o conceito é o de um míssil balístico “conduzido” por uma pequena aeronave que voa em velocidades de mais de dez vezes a do som. Enquanto um míssil balístico contém ogivas em veículos de reentrada atmosférica que seguem uma trajetória, bem, balística, calculada previamente, o planador ultrasônico pode mudar a direção e a velocidade das ogivas na reentrada. Parece confuso, mas é simples: é uma maneira de fazer ogivas mudarem sua trajetória e serem mais difíceis de serem interceptadas. Além disso, o planador também aumenta o alcance da ogiva pós-lançamento.

O conceito tornou-se popular ano passado, quando o presidente russo, Vladimir Putin, apresentou uma “arma nuclear hipersônica” que não poderia ser interceptada. Era uma referência ao sistema Avangard, que já foi testado pela Rússia; a China, entretanto, parece ser o primeiro país que colocou um HGV em serviço. Mesmo com as forças armadas dos EUA posicionando sistemas antimísseis nucleares perto da China, como no Japão ou na península coreana, em teoria um HGV não pode ser interceptado. Ao menos não com o que existe atualmente.

Coreia do Norte

Foto tirada em 2 de Outubro mostra o teste de míssil submarino da Coreia do Norte | Foto: KCNA VIA KNS/AFP
Foto tirada em 2 de Outubro mostra o teste de míssil submarino da Coreia do Norte | Foto: KCNA VIA KNS/AFP| AFP

Se isso não fosse o suficiente, ontem, dia Três de Outubro, a Coreia do Norte testou um novo míssil balístico. Agora com uma novidade. Pela primeira vez o país testou um míssil disparado de forma submarina. Analistas desconfiam que esse primeiro lançamento não tenha sido realizado de um submarino propriamente dito, mas a partir de uma plataforma submersa, como teste. A Coreia do Norte ainda não possui submarinos capazes de lançamento de mísseis, já que, supostamente, o navio Sinpo ainda está em construção. Dificilmente a república coreana conseguiria manter esse segredo por tanto tempo.

E qual o problema, então? Numa lógica parecida da descrita sobre mísseis balísticos lançados de plataformas móveis, mísseis balísticos lançados de submarinos são mais imprevisíveis do que os lançados de terra. Um submarino não é detectado visualmente ou por satélites, necessitando sonoboias ou monitoramento por navios adversários. Um submarino norte-coreano no meio do Oceano Pacífico, equipado com mísseis balísticos, representaria mais uma ameaça. E também significa um avanço tecnológico, entrada em um seleto clube de sete países dotados dessa tecnologia.

O impacto mais visível das novidades será nos investimentos militares dos EUA. Ninguém deve ter dúvidas, ou ingenuidade, de que a próxima década será de uma corrida tecnológica armamentista entre Washington e Pequim, principalmente. No caso coreano será interessante notar se, e como, o novo teste influenciará nas conversas sobre um acordo nuclear com o governo Trump. Finalmente, como outras potências vão reagir às novidades, especialmente a Índia. Tal como nas décadas da Guerra Fria, esses mísseis dificilmente serão usados. Só que ninguém quer ficar para trás.

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