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Russos seguram retratos de seus parentes que lutaram na Segunda Guerra Mundial, durante o memorial do Regimento Imortal, em Moscou, nesta segunda-feira
Russos seguram retratos de seus parentes que lutaram na Segunda Guerra Mundial, durante o memorial do Regimento Imortal, em Moscou, nesta segunda-feira| Foto: EFE/MAXIM SHIPENKOV

O Dia da Vitória, celebrado na Rússia no dia nove de maio, é um dos feriados mais importantes do país. Além da conotação cívica, nas últimas décadas a data ganhou mais pompa e caráter nacionalista sob Vladimir Putin, com grandes desfiles militares nas principais cidades russas, além de homenagens aos minguantes veteranos da Segunda Guerra Mundial, chamada de Grande Guerra Patriótica na Rússia. Por várias razões, o desfile desse ano era bastante esperado, especialmente para saber-se o teor do discurso de Putin em relação à guerra na Ucrânia.

Um dos motivos da expectativa era a incógnita de quantas, e quais, lideranças estrangeiras estariam presentes. O desfile de 2020, que celebraria os setenta e cinco anos do fim da guerra, foi afetado pela pandemia de COVID-19, primeiro adiado e depois reduzido. Na programação original de 2020, estavam previstos 29 chefes de governo ou de Estado estrangeiros. Dessa vez, apenas Alexander Lukashenko, presidente de Belarus, esteve presente, além de representantes diplomáticos de outros oito países, todos ex-soviéticos.

Outra expectativa era se a Rússia aproveitaria a ocasião para exibir algum novo armamento, como fez em desfiles anteriores. O desfile militar contou com exemplares do que a Rússia possui de melhor, mas nenhuma novidade. Além disso, razões meteorológicas foram apontadas para o cancelamento do componente aéreo do desfile, que também incluiria o que a Rússia possui de melhor. Finalmente, Putin poderia aproveitar a ocasião para um discurso que expandisse, ou ameaçasse a expansão, do conflito.

Paralelos históricos 

Por exemplo, poderia sinalizar com uma mobilização geral ou, então, fazer alguma ameaça direta aos países da OTAN, pelo seu fornecimento de armamento aos ucranianos. Não foi o que se viu. Putin falou por cerca de onze minutos. Parece pouco, mas é mais do que em anos anteriores, quando ocorria um discurso mais protocolar e de caráter histórico. Foi justamente um resgate histórico que abriu o pronunciamento de Putin.

“A defesa de nossa Pátria quando seu destino estava em jogo sempre foi sagrada”, seguidos de exemplos do século XVII, das Guerras Napoleônicas e da Segunda Guerra Mundial, citando explicitamente Kiev e Kharkov, duas cidades ucranianas, e Sevastopol, na Crimeia. Putin emendou essa fala e esses exemplos com a conclusão de que “hoje, como no passado, estamos lutando por nosso povo em Donbass, pela segurança de nossa pátria, pela Rússia”. Uma conexão quase sagrada entre esses vários conflitos e o atual.

Afirmou que nenhuma família russa passou ilesa pela Grande Guerra Patriótica, homenageou os veteranos e os milhões de mortos da guerra e, novamente, tentou criar uma ponte direta entre o maior conflito da humanidade e a atual guerra na Ucrânia. “É nosso dever preservar a memória daqueles que derrotaram o nazismo e nos confiaram em sermos vigilantes e fazermos tudo para evitar o horror de outra guerra mundial.”

Segundo Putin, “apesar de todas as controvérsias nas relações internacionais, a Rússia sempre defendeu o estabelecimento de um sistema de segurança igual e indivisível que é extremamente necessário para toda a comunidade internacional”, e esse esforço russo foi minado pela OTAN, que estaria usando a Ucrânia para atacar “terras históricas russas”, em referência ao Donbass e à Crimeia. Segundo Putin, a Ucrânia declarou que poderia desenvolver armas nucleares.

“Uma ameaça absolutamente inaceitável para nós estava sendo constantemente criada em nossas fronteiras. Havia todas as indicações de que um confronto com neonazistas e Banderistas apoiados pelos Estados Unidos e seus asseclas era inevitável. Deixe-me repetir, vimos a infraestrutura militar sendo construída, centenas de conselheiros estrangeiros começando a trabalhar e suprimentos regulares de armamento de ponta sendo entregues pelos países da OTAN. A ameaça crescia a cada dia.” No caso, Banderistas são os ucranianos apoiadores do líder nacionalista ucraniano, e colaborador com os nazistas, Stepan Bandera.

Neonazistas e guerra preemptiva 

Putin afirma que o ataque contra a Ucrânia foi um “ataque preemptivo”, a mesma desculpa utilizada pelos EUA em 2003 para atacar o Iraque. Cinismo em ambas as ocasiões. Para ele, o excepcionalismo dos EUA mina a comunidade internacional, mas a Rússia “tem um caráter diferente. Jamais abriremos mão de nosso amor pela pátria, nossa fé e valores tradicionais, costumes de nossos ancestrais e respeito por todos os povos e culturas. Enquanto isso, o Ocidente parece estar pronto para cancelar esses valores milenares”.

Referências à “guerra cultural” advogada por Putin e à “cultura do cancelamento”. Em outro trecho, Putin evocou diversas figuras históricas russas que combateram no leste da atual Ucrânia, conectando o Donbass como uma terra historicamente da Rússia. “Estou me dirigindo às nossas Forças Armadas e às milícias no Donbass. Vocês estão lutando por nossa Pátria, seu futuro, para que ninguém esqueça as lições da Segunda Guerra Mundial, para que não haja lugar no mundo para torturadores, esquadrões da morte e nazistas.”

Novamente, uma conexão do atual conflito com uma suposta luta contra o nazismo, o discurso oficial russo desde o início da guerra com a invasão da Ucrânia. Ao pedir por um minuto de silêncio, Putin fez uma conexão direta entre as vítimas da Segunda Guerra Mundial e os russos mortos na Ucrânia desde 2014, citando inclusive os mortos em Odessa, em maio de 2014, queimados na sede sindical da cidade, atacada por um bando neonazista.

Após o minuto de silêncio, Putin também homenageou os mortos e os feridos da atual guerra, anunciando uma nova lei de assistência para as famílias de militares mortos e feridos. Também agradeceu aos profissionais de saúde militares. Finalmente, Putin afirmou que uma das forças da Rússia está no vasto caráter multi-étnico do país, uma possível referência ao temor russo de que os EUA e outros países ocidentais desejam promover a “balcanização” da Rússia, com a fragmentação em vários Estados menores.

Em um balanço geral, o discurso foi, de certa forma, tranquilo. Apenas repetiu o habitual discurso oficial russo sobre a guerra na Ucrânia. Claro, com todos os exageros e falsidades dessa retórica, mas não tivemos uma escalada do conflito ou algum anúncio de novas e drásticas medidas. Sinal de que, talvez, Putin tenha se conformado que a guerra na Ucrânia será mais longa e arrastada do que o planejado.

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