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Filipe Figueiredo

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Explicações para os principais acontecimentos da política internacional

O extremista que filmou a própria morte na Síria

  • PorFilipe Figueiredo
  • 08/01/2019 07:40
Vídeo de extremistas do Estado Islâmico em combate contra forças curdas. Reprodução/Youtube
Vídeo de extremistas do Estado Islâmico em combate contra forças curdas. Reprodução/Youtube| Foto:

As guerras reais passam longe de serem como os videogames. Essa mensagem parece óbvia, mas é necessário repeti-la, trazer a realidade à tona. Assistir vídeos da guerra na Síria não é uma experiência divertida, é seco, é brutal, não tem música épica, mas é algo necessário algumas vezes, pois ajuda na compreensão do conflito e do que está ocorrendo. Nos últimos anos, com a popularização de câmeras portáteis em primeira pessoa, como as usadas para filmar esportes radicais, a filmagem em zonas de conflito está mais difundida.

E mais crua. Não depende apenas de corajosos repórteres e cinegrafistas, agora os próprios combatentes divulgam essas filmagens na internet. Por dinheiro, por propaganda, por exibicionismo, pela experiência. Sem edições, sem ângulos profissionais. E uma filmagem na Síria no mês passado pode revelar um pouco do que está ocorrendo no leste do país, na luta contra o Daesh.

Imagens cruas da guerra

O vídeo tem cerca de doze minutos e foi divulgado pela coalizão das Forças Democráticas Sírias (SDF, na sigla em inglês), composta principalmente por curdos e atuante no nordeste e no leste da Síria; a SDF conta com apoio aéreo e material dos EUA. O vídeo não é extremamente violento no sentido gráfico, porém sua atmosfera é pesada, tensa, e o leitor não precisa assisti-lo para compreender este texto. A versão original não contém legendas; esse tema será abordado mais adiante.  

A filmagem foi feita à partir do capacete ou do peito de um combatente do grupo extremista Daesh, o auto-intitulado Estado Islâmico, também conhecido pela sigla em inglês ISIS. Um equivalente à líder de pelotão ou de companhia, algo similar. Ele mostra, além da troca de tiros com tropas curdas, a confusão entre os extremistas, a falta de coesão em combate e a retirada do campo de batalha. Segundo a comunicação do SDF, a filmagem foi obtida do corpo do combatente.

O nome do extremista seria Abu Ayman al-Iraqi (“Pai de Ayman, do Iraque”), um nome de guerra já usado anteriormente por líderes do Daesh e que entrega o país de origem do extremista; segundo comentaristas especializados em Oriente Médio, o sotaque de fato remonta à pronúncia iraquiana. No início do vídeo ele não pretende atender o desejo de seus homens de bater em retirada, ordenando-os que fiquem em suas posições.

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Após a interferência de dois extremistas que parecem mais experientes, ele aceita a retirada e ordena que os extremistas embarquem em um veículo blindado. Ele fica por último, para cobrir e organizar a retirada, disparando seu rifle de origem dos EUA, que trava repetidas vezes. Ao se deslocar para o veículo, ele é atingido e cai no chão. Após gritar por seus “irmãos”, termo que ele usa em árabe, o extremista provavelmente morre por sangramento.  

Repetindo o que foi dito no início deste texto, o vídeo não tem glória, não tem música épica, não sobe créditos, não se avança um nível em jogo. Toma-se um balaço, cai, grita de desespero e sangra no chão até morrer, sujo de poeira e de sangue. O curdo que deu o tiro provavelmente nem viu quem, ou se, acertou. É uma troca de tiros em anonimato, seja envolvendo um terrorista de um dos grupos mais cruéis dos tempos contemporâneos, seja com um soldado profissional e voluntário em nome de sua bandeira.

Nuvens e retirada

O vídeo provavelmente se trata de uma tentativa de ataque do Daesh contra posições curdas na cidade síria de Hajin, perto do rio Eufrates e da fronteira com o Iraque. A cidade era um dos últimos bastiões do Daesh em território sírio e a SDF anunciou sua tomada no dia 14 de Dezembro de 2018, quando o vídeo foi publicado; ele talvez seja de alguns dias antes, durante os combates antes da tomada da cidade.

Uma das primeiras coisas que salta aos olhos ao assistir o vídeo é a idade dos combatentes do Daesh. Dois deles são jovens, um deles claramente adolescente, talvez por volta dos quinze anos; seu rosto aparece bastante, está ao lado do comandante que está filmando, talvez um ajudante. Provavelmente doutrinados ou forçados a combater em nome da bandeira distorcida e violenta do suposto califado.

Junto com a questão etária está a falta de coesão dos soldados no vídeo. Eles não obedecem ao comando de avançar, ficam atrás de sua trincheira improvisada e tentam convencer seu comandante à recuar. Parte disso é explicado pelo medo, expresso pelo repetido olhar tenso do extremista adolescente em direção ao céu. Não por alguma questão divina, mas pelo comentário que ele faz: “as nuvens estão se dissipando”.

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A tentativa de ataque extremista era realizada sob céu coberto, protegendo de eventuais ataques aéreos dos EUA em apoio aos seus aliados curdos. O comandante repete para “não ligarem para as nuvens/clima”, o que não adianta. Ao ser perguntado o status material, o adolescente responde ao seu comandante que as comunicações (talvez um rádio) não estão funcionando e que o blindado está com pouco combustível.

Ou seja, um estado material deteriorado da antes temida máquina de guerra do Daesh, que controlava alguns dos principais campos de extração e refino de petróleo do mundo. É muito provável que nos anos entre 2014 e 2016 alguns Estados nacionais da região compraram petróleo do Daesh; a Rússia já ameaçou a Turquia com “provas” sobre esse comércio, e tais relações, de apoios de governos ao grupo extremista, sempre levantaram suspeitas, inclusive sobre as origens do grupo.

Cautela com propaganda

Em suma, pode-se ver claramente que o Daesh na Síria está em frangalhos como força militar, após anos de operações contra o grupo. Importante lembrar que, ao menos oficialmente, nenhum país ou força manteve relações ou “tolerou” o Daesh. Ele foi alvo de todos os atores da guerra: o exército sírio de Assad; o Exército da Síria Livre (FSA, em inglês), apoiado pelos turcos; as forças russas, incluindo ataques aéreos; curdos e a SDF, com apoio de forças especiais e ataques aéreos dos EUA e da França, etc.

Ao mesmo tempo, o conteúdo divulgado pela SDF com legendas e comentários em inglês é também, por si, uma peça de propaganda. Se as filmagens, em caso de sucesso, seriam usadas pelo Daesh para sua propaganda, elas são agora são usadas pelo fracasso da operação extremista. Dois exemplos disso são o fato de que o vídeo em inglês fala que os extremistas estão “com medo de combater o SDF”.

Ouvindo as falas em árabe fica muito claro que eles se referem aos céus e o medo de ataques aéreos dos EUA; sim, eles estão com medo, mas não do combate em si, mas de perderem a cobertura das nuvens. O outro exemplo é que os comentários em inglês falam que o comandante extremista “não sabe sequer manusear sua arma”. Prestando atenção, nota-se que sim, ele sabe usar, porém a arma trava; fuzis mais antigos dos EUA são conhecidos por não funcionarem bem em condições adversas, como o deserto.

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O próprio encerramento do vídeo é uma forma de propaganda. Os últimos dois minutos são silenciados. Não para poupar o espectador dos últimos suspiros de um homem morrendo, mas, provavelmente, pois o extremista está orando e reafirmando sua lealdade ao Daesh, por ter se martirizado. Isso certamente não pegaria bem em um vídeo da SDF, serviria até de propaganda contrária.  

E, claro, não foi bem assim, um martírio voluntário. Abu Ayman al-Iraqi desejava ter ficado vivo. O vídeo também mostra que o espírito de combate do Daesh está em baixa: ferido, o comandante clama por seus “irmãos”, que batem em retirada e o abandonam para morrer sozinho. As últimas imagens mostram a sombra da cabeça do extremista caindo sobre seu peito.  

O Daesh longe do fim

O fato do Daesh não controlar mais uma grande extensão de território diretamente na Síria não significa que ele está no fim. Significa que seu plano de criar uma emulação de Estado no Oriente Médio foi derrotado. O grupo e seus satélites, entretanto, controlam territórios ou mantém células ativas na Líbia, no Iêmen, no Afeganistão, na Somália, na Nigéria e nas Filipinas.

Principalmente, o grupo afeta e inspira milhares de pessoas pelo mundo, incentivando e fornecendo instruções de como realizar ataques terroristas. A penetração do Daesh, hoje, está no mundo virtual, de maneiras bem tênues e que precisam ser mais discutidas. Esfaquear alguém na rua e clamar “lealdade” ao Daesh é suficiente? Isso não serviria justamente para fortalecer o grupo? De qualquer maneira, o Daesh está derrotado na Síria, mas longe de seu fim.

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