i

O Sua Leitura indica o quanto você está informado sobre um determinado assunto de acordo com a profundidade e contextualização dos conteúdos que você lê. Nosso time de editores credita 20, 40, 60, 80 ou 100 pontos a cada conteúdo – aqueles que mais ajudam na compreensão do momento do país recebem mais pontos. Ao longo do tempo, essa pontuação vai sendo reduzida, já que conteúdos mais novos tendem a ser também mais relevantes na compreensão do noticiário. Assim, a sua pontuação nesse sistema é dinâmica: aumenta quando você lê e diminui quando você deixa de se informar. Neste momento a pontuação está sendo feita somente em conteúdos relacionados ao governo federal.

Fechar
A matéria que você está lendo agora+0
Informação faz parte do exercício da cidadania. Aqui você vê quanto está bem informado sobre o que acontece no governo federal.
Que tal saber mais sobre esse assunto?

Filipe Figueiredo

Foto de perfil de Filipe Figueiredo
Ver perfil

Explicações para os principais acontecimentos da política internacional

Chile e Nova Zelândia

O que significam as surras eleitorais no oceano Pacífico

  • Filipe FigueiredoPor Filipe Figueiredo
  • 27/10/2020 10:14
plebiscito chile
Um funcionário eleitoral conta votos após o fechamento das urnas no colégio Amunategui, em Santiago, em 25 de outubro de 2020, durante a votação do plebiscito constitucional, em Santiago, 25 de outubro de 2020| Foto: CLAUDIO REYES/AFP

Dois dos diversos pleitos dos mais recentes finais de semana foram na Nova Zelândia e no Chile. Ambos completamente diferentes em tom e em motivos, mas ambos terminaram de maneiras semelhantes, com vitórias avassaladoras de acordo com suas regras. Enquanto os próximos dias serão marcados por outras eleições, especialmente a dos EUA, é interessante dar uma olhada mais aprofundada no que podem significar os dois resultados eleitorais recentes.

Na Nova Zelândia

No dia 17, os neozelandeses votaram para o parlamento do país e em quem seria a primeira-ministra. O uso do feminino é justificado pelo fato de que, dos quatro principais partidos, três são dirigidos por mulheres. Uma delas a premiê Jacinda Ardern, que ocupa o cargo desde 2017, quando foi escolhida líder do partido trabalhista. O sistema partidário neozelandês é similar ao britânico, a antiga metrópole colonial. Um partido trabalhista, um conservador, chamado de Nacional, e partidos menores, como o verde e o maori.

Jacinda era a favorita de acordo com as pesquisas, especialmente pela maneira com que seu governo lidou com a pandemia do novo coronavírus. O país sofreu apenas 25 mortes e 1585 casos, uma taxa de fatalidade de apenas 1.3%. Em mortes por milhão de habitantes, a Nova Zelândia está apenas na 174ª posição mundial. Diversos países insulares estão dentre os cinquenta países no topo do ranking, um lembrete interessante, já que muitos ligam o sucesso neozelandês apenas às suas características geográficas.

A Nova Zelândia, inclusive, passou um mês em total confinamento, entre 25 de março e 27 de abril, tema recentemente debatido aqui por causa da discussão sobre a vizinha Argentina. Em contraste com a Austrália, então, os neozelandeses estavam no paraíso. Tais méritos são indissociáveis das atitudes tomadas pelo governo, uma realidade que pode desagradar algumas pessoas, mas nem por isso deixa de ser fato. E esse sucesso do governo em lidar com a pandemia foi refletido nas urnas.

Jacinda Ardern conseguiu a maior vitória eleitoral da Nova Zelândia desde o estabelecimento das atuais regras, em 1996. Além disso, foi o melhor resultado trabalhista desde a década de 1960, vencendo em 68 dos 72 distritos eleitorais, com 49% dos votos totais. O voto trabalhista cresceu 12% em relação ao pleito anterior e, como consequência, terão 64 assentos no parlamento, casa com 120 representantes. Ou seja, maioria garantida sem a necessidade de coalizão ou de apoio de outros partidos.

Por outro lado, os conservadores tiveram seu pior resultado desde 1996, perdendo 21 cadeiras e tendo que se contentar com apenas 35. Em terceiro lugar ficaram os liberais do ACT e os verdes, cada um com dez cadeiras. Uma cadeira foi para os maori e o partido NZ First (“Nova Zelândia Primeiro”), construído em bases sobre imigração, foi varrido, perdendo as nove cadeiras que possuía. Existe um problema, entretanto, em uma vitória eleitoral desse tamanho. Um problema “bom”, claro, mas ainda um problema.

O sarrafo estará mais alto. Jacinda terá que cumprir expectativas maiores e não terá a complacência, ou os subterfúgios, derivada de coalizões partidárias. “Estamos negociando com aliados”, “a culpa é do outro partido”, etc. Não. Será tudo nas costas dos trabalhistas, como nunca aconteceu antes no país. Novamente, é um problema “bom”, derivado de expressiva vitória que mostra confiança popular, mas também sinal de trabalho duro.

Os neozelandeses também votaram em dois referendos. Um deles é vinculante, sobre a eutanásia. Ano passado o parlamento aprovou o End of Life Choice Act, que autoriza o suicídio assistido para pessoas com doenças terminais, prazo reduzido de previsão de vida e autorizado por ao menos dois médicos. Caso o voto popular aprove, a lei entra em vigor daqui doze meses, e todas as pesquisas indicam aprovação da lei. O outro referendo era consultivo, sobre a legalização do uso, posse e venda de cannabis. O uso da maconha para finalidades medicinais já é autorizado, o referendo trata do uso recreativo.

Ele não implicará em lei entrando em vigor, mas na entrada da pauta no parlamento, que formularia uma lei sobre o tema. Ambos os referendos terão seus resultados publicados apenas no dia seis de novembro, junto da recontagem obrigatória dos resultados eleitorais. Embora com duas pautas importantes, esse não foi o referendo mais importante dos últimos dias, já que os chilenos também foram às urnas. Juridicamente, o que ocorreu no Chile foi um plebiscito, não um referendo, deve-se deixar claro.

No Chile

Os chilenos responderam duas perguntas. A primeira era “Você quer uma nova constituição?”, com as opções sim ou não, enquanto a segunda foi “Que tipo de órgão deve redigir uma nova constituição?”, com as opções convenção constituinte, eleita com esse propósito expresso, ou convenção mista, composta por metade de constituintes e metade de atuais congressistas. O plebiscito foi uma proposta do congresso em novembro de 2019, como parte das medidas para aplacar os protestos generalizados no país.

A constituição chilena data de 1980, outorgada pela ditadura Pinochet e submetida a um plebiscito bonapartista marcado por fraudes. Ou seja, além de eventuais críticas e problemas decorrentes das visões políticas de cada indivíduo, a constituição do país possui, de forma inegável, um vício de origem. Ela não é um produto com legitimidade democrática, não é um documento representativo. Ao contrário da brasileira que, também além de eventuais críticas, não possui esse vício de origem.

A constituição acabava sendo o mais longevo legado da violenta, corrupta e incompetente ditadura de Augusto Pinochet. E os chilenos aprovaram seu fim, com 78% dos eleitores votando por uma nova constituição, com porcentagem similar de defensores de uma nova constituinte. A constituinte será eleita em abril de 2021, junto com as eleições municipais, e apresentará a nova carta magna chilena até outubro de 2022, quando ela será submetida a um referendo para sua aprovação ou recusa. Entre um voto e outro, em novembro de 2021, os chilenos escolherão um novo chefe de governo.

O presidente Sebastian Piñera, de direita, apoiou o plebiscito e seu resultado. Isso é importante de ser mencionado pois, mesmo sendo um político conservador, ele, repetidas vezes em seus dois mandatos, repudiou a herança de Pinochet e não tolerou a apologia ao ditador dentro dos quadros governamentais. O comparecimento eleitoral no plebiscito foi de pouco mais de 50%, número que parece baixo e que, para alguns, compromete a legitimidade do pleito.

Uma visão que talvez esteja errada, inserida no contexto chileno, onde a média de comparecimento eleitoral costuma ser, infelizmente, baixa. O último pleito nacional com comparecimento eleitoral acima dos 60% foi em 1993, logo após o fim da ditadura. A mais recente eleição presidencial teve comparecimento de 46% dos eleitores. Essa discussão sobre o comparecimento no pleito será um dos vários pontos discutidos no Chile pelos próximos anos.

Outra questão interessante é que, ao contrário do que muitos acreditam, a constituição chilena já foi bastante emendada (42 vezes, para ser mais preciso) desde sua elaboração em 1980. Um dos propósitos da constituinte seria justamente consolidar todo o texto, enquanto se livra de um documento fruto de era autoritária e aborda problemas novos. De qualquer maneira, em lados diferentes do maior oceano da Terra, duas populações votaram e se fizeram ouvir, e ambos os recados foram bastante claros.

10 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]

Receba Nossas Notícias

Receba nossas newsletters

Ao se cadastrar em nossas newsletters, você concorda com os nossos Termos de Uso.

Receba nossas notícias no celular

WhatsApp: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Comentários [ 10 ]

Máximo 700 caracteres [0]

O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Consulte a nossa página de Dúvidas Frequentes e Termos de Uso.

  • P

    pAuLo Roberto HEINe na

    ± 0 minutos

    Chama atenção a afirmação mentirosa que o regime militar no Chile foi corrupto e muito, não foi isso que ouvi várias vezes quando estive naquele país. Violenta sim, mas muito corrupta?

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • E

    Eduardo Fernandes Quadra

    ± 1 horas

    PARA PROMOVER O PROGRESSO DA NAÇÃO É NECESSÁRIO MAIS QUE UMA CARTA MAGNA MODERNA, ENXUTA E PRAGMÁTICA. É FUNDAMENTAL GARANTIR A LISURA E A IDONEIDADE DOS QUE VÃO DIRIMIR LITÍGIOS AO INTERPRETAR A LEGISLAÇÃO! BASTA VERIFICARMOS COMO ATUA O NOSSO STF!

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • E

    Eduardo Fernandes Quadra

    ± 1 horas

    PARA PROMOVER O PROGRESSO DA NAÇÃO É NECESSÁRIO MAIS QUE UMA CARTA MAGNA MODERNA, ENXUTA E PRAGMÁTICA. É FUNDAMENTAL GARANTIR A LISURA E A IDONEIDADE DOS QUE VÃO DIRIMIR LITÍGIOS AO INTERPRETAR A LEGISLAÇÃO! BASTA VERIFICARMOS COMO ATUA O NOSSO STF!

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • L

    Leandro Fluzão

    ± 1 dias

    Fiquei com a impressão de que o articulista quis louvar o loquidaum fake science, comparando a adoção da medida na Nova Zelândia com o que foi imposto à população da Argentina.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • A

    ALVARO JOSE JUNQUEIRA NUNES

    ± 2 dias

    Ninguém lembra do Chile no tempo do Salvador Allende?

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • H

    Hugo Dalla Zanna

    ± 2 dias

    No caso da Nova Zelândia, eles tem a grande oportunidade de acertar, como foi o caso de Lula no Brasil e que deu no que deu. Se eles não acertarem a montanha russa política vai correr. No Chile, é uma incógnita. Se as forças obscuras suplantarem o bom senso, será o início da derrocada.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • C

    Carmo Augusto Vicentini

    ± 2 dias

    Algumas de suas premissas são bem desonestas. Só pra citar uma: a afirmação de que a ditadura foi incompetente rompendo qualquer elo de consequência com o fato do Chile ser atualmente o país de maior sucesso na AL . Vai deixar de ser em breve quando abraçar o seu amado socialismo.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • L

    LSB

    ± 2 dias

    Pinochet pode ter comandado uma ditadura violenta e corrupta, mas incompetente eu não tenho certeza. O país estava tinha virado “pó” com Allende e Pinochet deixou uma estrutura q levou o Chile ao maior desenvolvimento da AL. Enfim, precisamos discutir o q seria competência e quais seus critérios de aferição!

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    1 Respostas
    • E

      eneida

      ± 2 dias

      Com certeza, incompetente o governo Pinochet não foi. Allende arrasou o Chile.

      Denunciar abuso

      A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

      Qual é o problema nesse comentário?

      Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

      Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • N

    Nico Gavelick

    ± 2 dias

    Mesmo com a vitória expressiva dos trabalhistas (muito mais moderados que os nossos, por sinal), não creio que haja grandes mudanças em um país tão politicamente estável com a Nova Zelândia. Agora, no Chile, dá até medo do que pode sair dessa Constituinte.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

Fim dos comentários.