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Os aspectos positivos de Eduardo Bolsonaro em Washington compensam a decisão?
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Já faz alguns dias que se comenta a ideia de Eduardo Bolsonaro ser indicado embaixador do Brasil em Washington. Um tema que pode soar batido ou desgastado mas, por ser totalmente pertinente à alçada dessa coluna, precisa estar aqui no espaço. Antes de tudo é bom lembrar que a indicação ainda não é um fato político consumado. Pode ser sondagem do presidente, testar onde se pode pisar no terreno ou até mesmo uma cortina de fumaça em meio aos temas mais delicados da política interna brasileira no momento. Feito esse lembrete de que não é fato consumado, tratemos de ir direto à análise.

Prós

Sim, existem dois lados positivos nessa possível indicação, apesar de todo o debate girar em torno dos aspectos que mais lembram um esquete de humor. Primeiro, Eduardo Bolsonaro tem proximidade ideológica com Donald Trump e sua família, como o genro Jared Kushner. Isso foi visto publicamente quando Trump elogiou o deputado federal publicamente, na visita de Bolsonaro à Casa Branca.

Na mesma ocasião, convidou Eduardo para a conversa dentro do Salão Oval, para aborrecimento e reclamações do chanceler Ernesto Araújo, que ficou do lado de fora. O segundo é que, por motivos óbvios, Eduardo Bolsonaro possui um canal de comunicação rápido e direto com o presidente brasileiro. Sendo assim, o embaixador Bolsonaro poderia triangular de forma mais dinâmica e informal conversas entre as duas presidências, ou, ao menos, entre os dois gabinetes executivos. E é isso, os pontos positivos param por aqui.

Contras

Dois aspectos negativos já colocam os aspectos positivos numa balança delicada. Se Eduardo Bolsonaro possui proximidade ideológica com a família Trump, ele também a possui com Steve Bannon, ex-conselheiro do presidente dos EUA. Bannon havia “nomeado”, em fevereiro, Eduardo Bolsonaro como líder sul-americano de seu The Movement, agrupamento de movimentos nacionalistas e populistas globais. No anúncio da possível indicação, Bannon celebrou a ideia do embaixador Eduardo Bolsonaro.

Existe uma pessoa que não quer mais saber de Bannon. Donald Trump, que considera seu ex-estrategista como um traidor, que teria vazado informações de bastidores e criado intrigas internas da Casa Branca. Como usar o argumento de “Eduardo Bolsonaro se dá bem com Trump” se o próprio Trump pode ver Eduardo como um associado de Bannon, alguém que não pode contar com sua total discrição?

Apenas para contextualizar, o uso do primeiro nome não é desrespeito ao deputado, meramente para diferenciar do presidente e seu pai, Jair Bolsonaro. Pois bem, o segundo aspecto positivo também possui um freio. Esse “canal rápido” de comunicação pode significar também um enfraquecimento dos meios institucionais e republicanos, a geração de confusão e “ruído na comunicação” entre partes envolvidas e a tomada de decisões menos elaboradas e debatidas pelo governo.

Estabelecido que mesmos os “prós” possuem “contras” na mesma moeda, restam outras questões e incógnitas. A primeira, de hierarquia e instituição. Eduardo Bolsonaro, como embaixador em Washington, seria subordinado de Ernesto Araújo. Seria? Eduardo Bolsonaro, como deputado federal e presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, tem sido mais presente nas relações externas brasileiras, ao ponto de ser chamado de “chanceler das sombras” e coisas do tipo em círculos de Brasília.

De maneira passiva, Ernesto Araújo é um dos mais vocais defensores da ideia de colocar o filho presidencial no segundo posto mais importante da diplomacia brasileira. Tudo em nome da afinidade ideológica? A próxima questão é a Venezuela. Eduardo, assim como Ernesto e outros integrantes do governo, favorecem uma intervenção no país vizinho, contando com participação brasileira. Alas mais realistas defendem que, no longo prazo, isso é um desastre e são contra; incluindo aí os militares, os principais envolvidos.

Como ficará essa questão? É uma “derrota” para os militares do governo? Significa um maior alinhamento aos interesses dos EUA na Venezuela, que se resumem à tirar a China da exploração de recursos naturais venezuelanos, como já explicado aqui? Uma guerra deflagrada na Venezuela terá um impacto enorme no Brasil e pouquíssimas possibilidades de ganhos, tanto internos quanto externos.

Finalmente, falando em influência e ideologia, Eduardo Bolsonaro é, da família presidencial, o mais próximo, em todos os sentidos, de Olavo de Carvalho, que reside na Virgínia, nos EUA, e, por quaisquer motivos, não transita entre Brasil e sua residência. Quando perguntado sobre especulações de cargo no governo Bolsonaro, Olavo disse, no dia 5 de novembro de 2018, que aceitaria ser embaixador nos EUA, pois “entende de comércio internacional” pelo seu tempo de residência na Romênia. Qual seria o papel de Olavo de Carvalho, alguém sem papel institucional, numa embaixada de Eduardo Bolsonaro?

Mais profundo

As questões apontadas anteriormente são, ao menos em algum grau, discutíveis e subjetivas. Alguém pode considerar a influência de Olavo de Carvalho como um aspecto positivo ou desejável que o Brasil realize uma intervenção na Venezuela, por exemplo. Algumas questões, entretanto, independem de posições políticas ou ideológicas. São preocupantes para qualquer pessoa, seja de esquerda, de direita, de frente, de cima. As questões políticas e de amadorismo.

O primeiro amadorismo se trata do fato óbvio de que Eduardo Bolsonaro, por uma série de questões, seria um agente de governo, não de Estado. Um deputado de início de carreira, cuja imagem é diretamente vinculada ao pai e questões ideológicas específicas. Alguém que usou um boné de campanha do presidente que receberia a embaixada, que repetidas vezes endossou questões que podem adicionar dores de cabeça em sua embaixada. Um embaixador não é alguém que vai falar apenas com o presidente.

No cenário dos EUA, então, o trabalho é muito mais pulverizado. Lobbies, políticos diversos, comunidades locais de brasileiros. Uma Câmara hoje controlada pelos democratas, eleições no ano que vem, interesses brasileiros que contradizem interesses de Trump, lobbies pressionando por questões sensíveis, governadores de estados que não são alinhados à Trump, de ambos os partidos. Todos esses atores vão reagir como ao embaixador que usou boné de campanha? Mais do que isso, como ficará o embaixador Bolsonaro?

Não é um pensamento “anti-EUA” ou “anti-Trump”, longe disso. A questão é que o embaixador está ali para atender e agradar ao Brasil, não para ser amigo da família Trump ou por receber elogios públicos do presidente do país. “Os líderes dos países sempre, e sempre devem, colocar seus países em primeiro lugar”. Essa frase é do mesmo Donald Trump, perante a Assembleia Geral da ONU, em 19 de Setembro de 2017. E nada pode sustentar a ideia de que Bolsonaro seria um agente de Estado perante a realidade recente.

Entra aí outro sinal preocupante para qualquer pessoa: é a intimidade de Trump que define o embaixador do Brasil em Washington? O que separa admiração e boa relação da mera subserviência, de pedir a benção? É a retomada da política de “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil", do governo Castelo Branco, com o chanceler Juracy Magalhães? Tudo isso poderia ser evitado junto com esse amadorismo.

Amadorismo que também é expresso na abordagem da diplomacia familiar. Se Eduardo Bolsonaro não fosse filho do presidente da República ele seria cogitado para esse cargo? Todos os leitores sabem a resposta, no fundo. A diplomacia familiar é o que fazia os elos da Europa dos séculos XVI ao XIX, a Europa dinástica, com laços de sangue confundidos com laços de Estado. E os problemas dessa diplomacia familiar que motivaram o início, no século XIX, da diplomacia profissional.

Um corpo diplomático permanente, profissional e bem formado seria um bem extremamente valioso em um mundo com relações internacionais cada vez mais profundas e importantes. Nesse sentido, o Brasil foi exemplar, criando e institucionalizando o Itamaraty no século XX, que cada vez mais aperfeiçoou sua abordagem; em tempos que se fala tanto em meritocracia, é imperativo lembrar que trata-se da prova mais difícil do Brasil, do que qualquer outra carreira, ainda mais depois da abolição da subjetiva prova oral.

Trata-se de um golpe na imagem do Itamaraty, como instituição de Estado brasileiro. Não estamos falando de um renomado professor ou pesquisador de Direito Internacional ou de História dos EUA, de um político de peso com longa trajetória, de especialista em comércio exterior com gabarito. Trata-se de um currículo digno de recém-formados no Instituto Rio Branco; e isso não é hipérbole. Não há necessidade ou justificativa plausível para tamanho amadorismo com assuntos do Estado nacional.

Conveniência

Nesse sentido, cabe notar o fato de que Eduardo Bolsonaro apenas recentemente atingiu a idade mínima para o cargo. O mais jovem embaixador nos EUA após a redemocratização foi Antônio Patriota, aos 53 anos de idade, com três décadas de Itamaraty, quase o tempo de vida de Eduardo Bolsonaro. Quando olha-se para o currículo de outros ocupantes do cargo, como Rubens Barbosa, a distância fica até constrangedora. Se alguém quiser “apelar”, ainda pode-se sacar Joaquim Nabuco na conversa.

Qual o motivo da espera? Qual o motivo de deixar um cargo tão importante vago por meses? Apenas esperando o filho fazer aniversário? É de uma conveniência notável. Soma-se ao projeto de lei que foi desengavetado para que parlamentares possam assumir cargos diplomáticos sem precisar renunciar ao mandato, outra crítica sofrida pelo deputado, a de “jogar fora” seus quase dois milhões de votos. Isso sem nem tocar na discussão jurídica sobre nepotismo, quando a questão é óbvia: se você precisa discutir um eventual nepotismo de antemão, começou mal. Não basta ser, precisa parecer, já diziam os romanos.

O presidente têm se defendido perguntando se “você se lembra dos embaixadores em Washington” e dizendo que “se estão criticando é sinal de que foi uma boa decisão”. Oras, se o critério for notoriedade, nomeie-se o Pelé, se for volume de críticas, nomeie-se a Gretchen; certamente ela seria bem criticada como candidata ao cargo. Falácias e chicanas para fugir dos fatos: trata-se de uma hipótese amadora, que confunde governo com Estado, família com instituição, sem justificativa, com potencial subserviente.

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