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Cartazes eleitorais dos candidatos Benny Gantz (E) e Benjamin Netanyahu| Foto: JACK GUEZ/AFP

Israel vai para as urnas novamente, terceira vez em um ano. Talvez alguns leitores estivessem com saudade do assunto, outros talvez já tenham tido uma overdose. O fato é que, segunda-feira, dia Dois de Março, cerca de seis milhões de cidadãos israelenses votarão novamente para a formação do Knesset, o parlamento nacional. Das 120 cadeiras, a coalizão que conseguir 61 governará Israel e, novamente, a briga está entre a coalizão de direita de Benjamin Netanyahu e a coalizão de centro de Benny Gantz.

O tema já foi bastante abordado aqui nesse espaço diversas vezes. Em suma, o governo israelense colapsou em Novembro de 2018, por dois motivos. O primeiro foi a lei que obrigaria o serviço militar para os jovens ortodoxos, hoje dispensados. Em Israel o serviço militar dura três anos, é acompanhado de treinamentos por boa parte da vida e é parte central de formação da identidade da sociedade. O segundo foi o cessar-fogo com o Hamas em Gaza, condenado por setores do governo.

Pendências

Posteriormente, duas eleições não conseguiram destravar o parlamento, com cada coalizão ficando algumas cadeiras aquém da maioria necessária. Mesmo tentativas de um governo de união nacional falharam, apesar de apelos do presidente. Um dos motivos do apelo é que realizar eleições é algo bastante caro, ainda mais com o aparato de segurança israelense. E quais as pendências, cenários possíveis e o que é essencial para que o leitor consiga compreender as eleições israelenses?

O primeiro, imprevisível, é: como o eleitor vai se comportar em uma inédita terceira eleição no período de um ano? O desgaste e a morosidade vão fazer com que os eleitores fiquem em casa? Ou uma mobilização enorme, dos eleitores querendo resolver a questão? Ou, ainda, apenas os mais extremados vão comparecer? O ineditismo da situação cria essa incógnita. Outra incógnita é como a política dos EUA vai afetar a corrida em Israel. Trump e Netanyahu são próximos, enquanto Bernie Sanders e outros democratas boicotaram a conferência anual da American Israel Public Affairs Committee.

A AIPAC é o principal fórum de lobby pró-Israel nos EUA, palco onde Trump teve bastante destaque nos últimos anos. As palavras de Sanders foram: “o povo israelense tem o direito de viver em paz e segurança. O mesmo vale para o povo palestino. Continuo preocupado com a plataforma que a AIPAC oferece aos líderes que expressam fanatismo e se opõem aos direitos básicos da Palestina. Por esse motivo, não participarei da conferência”. Habitualmente, todos os principais candidatos presidenciais estão presentes. Além disso, Bernie Sanders é judeu.

Cadeiras

Outro problema é que as pesquisas estão apontando um resultado bastante similar ao Knesset já existente. Ou seja, sem uma maioria definida. Cada voto pode contar mas, no final das contas, pode-se ter a mera repetição, o que implica a continuidade do impasse. Para compreender essa dança das cadeiras, primeiro olhe-se quais são os seus participantes.

O atual premiê Benjamin Netanyahu, do Likud, conta atualmente com 32 cadeiras. As pesquisas de opinião para as próximas eleições apontam que eles devem conquistar entre 34 ou 35 cadeiras. Essa coalizão de direita é formada com o Shas, o Judaísmo Unido da Torá e o Yamina; todos eles são partidos religiosos ortodoxos. No caso do Yamina, trata-se da junção de três partidos de direita, um secular e dois religiosos. Hoje, a frente religiosa que apoia Bibi possui 23 assentos; as pesquisas preveem 23 ou 24 assentos.

Outro partido de direita, secular, é o Yisrael Beiteinu, de Avigdor Lieberman; então ministro da Defesa, ele que rompeu com Bibi em 2018. O ex-ministro da Defesa conta com oito cadeiras, e as pesquisas apontam seis ou sete assentos na eleição.

No bloco do centro, o principal partido é o Azul e Branco, de Benny Gantz, que conta com 33 cadeiras e as pesquisas apontam algo entre 32 e 35 cadeiras como resultado. Ele é apoiado pelo bloco trabalhista de centro-esquerda, que hoje tem dez cadeiras e as pesquisas apontam a manutenção desse número. Finalmente, ele recebeu apoio tácito da Lista Conjunta, um bloco de partidos árabes e de partidos socialistas que hoje tem treze assentos e as pesquisas indicam que devem conseguir catorze assentos nas novas eleições.

Quadrilha

Já os cálculos para formar uma coalizão parecem algo como o poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade. O Azul e Branco aceita uma coalizão com o Likud. Segundo Benny Gantz, ela seria formalizada “em minutos”. Com um detalhe: sem Netanyahu, ao menos enquanto ele responde aos processos sobre tráfico de influência e corrupção. Já o Likud não vai descartar seu líder, que venceu recente eleição interna.

Netanyahu quer levar consigo os partidos religiosos, que são rejeitados por todos os outros partidos, especialmente o Yisrael Beiteinu, que poderia dar maioria ao Likud; o próprio slogan do partido é “Sim ao Estado judeu, Não ao Estado da Halakha”, as leis religiosas judaicas. Por sua vez, o Yisrael Beiteinu também não quer se sentar com a Lista Conjunta, de partidos árabes “traidores” segundo Lieberman. E a Lista Conjunta, obviamente, não faria uma coalizão com o Likud ou com os partidos religiosos. Além disso, a Lista Conjunta sofre a maior rejeição popular, com mais da metade do eleitorado dizendo que se opõe a um governo que contenha o grupo.

Nos números de hoje, o bloco de direita possui 55 cadeiras. O bloco de centro possui 43. E as treze da Lista Conjunta e as oito do Yisrael Beiteinu ficam no meio.Tudo indica que a conclusão será parecida com essa. Com um novo detalhe, esse sim o que pode decidir a questão. No dia 17 de Março começa o julgamento de Netanyahu.

Durante o período de noventa dias em que as negociações para coalizões estarão em andamento. Seu julgamento pode enfraquecer sua posição ou consagrar e inocentar Netanyahu. No final das contas, novamente, se trata do futuro de Netanyahu, emaranhado com o futuro de Israel. Se ele for inocentado, continuará premiê. Se for condenado ou enfraquecido, terá que sair da política, abrindo caminho para uma renovação do Likud. Até lá, ele tentará alguma coalizão que o preserve, embora os números não apoiem essa conclusão, ao menos por enquanto.

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