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Dra. Nise Yamaguchi e o presidente da CPI da Covid-19, Omar Aziz
Dra. Nise Yamaguchi e o presidente da CPI da Covid-19, Omar Aziz| Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

A assim chamada “CPI da Covid” atingiu na última terça-feira (01/06/2021), com o depoimento da dra. Nise Yamaguchi, o seu ponto mais baixo e aviltante. Conduzida por sujeitos cuja má fama os precede, o que se viu ali foi a celebração da demagogia e do escárnio, uma tentativa de vingança da imoralidade contra a decência, da ignorância contra o conhecimento, da mentira ruidosa contra a placidez da verdade. Diante dessa queda no abismo da iniquidade, que termina por enlamear a já péssima reputação do parlamento brasileiro, a sociedade brasileira em geral, e a classe médica em particular – insultada como um todo na figura da dra. Yamaguchi –, precisa reagir com firmeza. É hora de dar um basta!

Chegamos mesmo ao fundo do poço. Mas, como se diz, no fundo havia um alçapão. Mesmo para os baixos padrões do nosso Congresso, não é todo dia que vemos uma inversão de valores tão diabólica a ponto de colocar indiciados por desvios de verbas na saúde e investigados por corrupção e lavagem de dinheiro na posição de dar lições de moral – e, pasmem, de medicina! – a uma médica com um currículo extenso e uma experiência de 40 anos dedicados à profissão, aliás o mesmo período de tempo em que o relator está aboletado no Estado brasileiro.

Na CPI, a dra. Yamaguchi teve de aturar, entre outras coisas, o presidente da ópera bufa – sujeito incapaz de falar um plural, e que dificilmente saberia distinguir entre um vírus e uma carambola – desautorizando (sem, evidentemente, as ter compreendido) suas afirmações técnicas sobre as vacinas. Com grosseria típica de tiranete sul-americano, o mestre-bufão alertou para o perigo (vejam vocês!) do tom de voz sereno da depoente, por ele entendido como uma armadilha para desinformar a sociedade. “A senhora falando assim pode dar a impressão que está com a razão” – disse o homem, trêmulo de um visível (e, aliás, muito justificado) complexo de inferioridade, sugerindo em seguida que o público não desse ouvidos à serenidade da médica, mas à histeria do demagogo.

A dra. Yamaguchi foi obrigada também a receber um pito médico do relator, que, após colher às pressas uma opinião pretensamente especializada na internet, afirmou categoricamente que a trombofilia da depoente não era desculpa para não se vacinar. Sim, o homenzinho não se fez de rogado diante da médica, e, decretando peremptoriamente a inexistência de risco, por pouco não lhe aplica a vacina a fórceps, em pleno parlamento. Uma cena dantesca!

A essa altura, já está muito claro que a CPI da pandemia busca inspiração nos tribunais de exceção de regimes totalitários tais como o comunista e o nazista. São notáveis, por exemplo, a similaridade de seu modus operandi com o que se passava nos célebres julgamentos de Moscou, nos quais os opositores de Stalin viravam réus em processos farsescos e previamente decididos, cujo único objetivo era subjugá-los e humilhá-los, não somente por vingança, mas, sobretudo, para deixar um recado: não ousem criticar ou contradizer o Secretário Geral do Partido. Como mostra o historiador Robert Conquest em The Great Terror: A Reassessment, uma característica distintiva dos tribunais stalinistas era que as sentenças estavam todas prontas de antemão, redigidas por autoridades não-judiciais, e não raro com a participação direta do próprio Stalin.

No caso da CPI, o recado também é claro: qualquer associação real ou imaginária com o governo Bolsonaro está previamente criminalizada. Para atingir o seu inimigo político, os artífices da CPI não hesitam em desrespeitar, intimidar e humilhar os depoentes, que devem confessar delitos inexistentes, curvar-se à autoridade ilegítima de oportunistas ignorantes, e responder exatamente aquilo de que as hostes antibolsonaristas precisam para arquitetar um pedido de impeachment ou reunir material para a próxima campanha eleitoral. Tal como as sentenças de Stalin, o relatório está concluído desde o início, e a pretensa investigação de responsabilidades pelos rumos da pandemia não passa de um teatro para tentar legitimar a conspiração.

Em Viagens aos Confins do Comunismo, escreve Theodore Dalrymple: “Cheguei à conclusão de que o objetivo da propaganda nos países comunistas não era persuadir, e muito menos informar, mas humilhar e emascular. Nesse sentido, quanto menos ela fosse verdadeira, quanto menos correspondesse à realidade, melhor; quanto mais contradissesse a experiência das pessoas às quais se dirigia, mais dóceis e mais impotentes elas ficavam, desprezando-se mais e mais por não protestar”. É essa também a função da mentira na CPI da pandemia: humilhar e emascular o governo. Daí que, quanto mais ignorantes, pérfidas e mentirosas forem as perguntas feitas aos depoentes, mais o tribunal paralelo de Brasília terá cumprido o seu propósito.

A situação bizarra de ontem recordou-me também as descrições de Eric Voegelin sobre o estado de degradação cultural que permitiu a ascensão do nazismo na Alemanha. Em Hitler e os Alemães, obra cujo objetivo era explicar aos jovens estudantes alemães como fora possível a chegada de Hitler ao poder, o filósofo explica: “Não temos de lidar com o nacional-socialismo e seus crimes hediondos, nem com as atrocidades, nem com a exumação do passado, nem com a justa indignação das vítimas – esses são todos fenômenos situados na continuidade e causalidade da História; nosso problema, porém, é a condição espiritual de uma sociedade em que o nacional-socialismo pôde chegar ao poder. Então, o problema não são os nacional-socialistas, mas os alemães, entre os quais personalidades do tipo nacional-socialista podem tornar-se socialmente representativas e podem funcionar como representantes, como políticos, como chanceleres do Reich etc.”

Voegelin descreve como o grande problema na sociedade proto-nazista foi a ascensão de uma “ralé” – e ele usa a palavra como termo técnico, com sentido específico – às posições sociais mais elevadas na Alemanha. Em suas palavras: “Há homens que são ralé no sentido em que eles nem têm autori­dade de espírito ou de razão, nem são capazes de responder à razão ou ao espírito, se aparecem, aconselhando-os ou relem­brando-os… É extremamente difícil entender que a elite de uma sociedade possa consistir numa ralé. Mas ela realmente consiste numa ralé”.

Como exemplo dramático da invasão cultural da ralé nacional-socialista – uma “invasão vertical dos bárbaros”, para usar a expressão do filósofo Mário Ferreira dos Santos –, Voegelin menciona algumas observações que o grande romancista Thomas Mann deixou em seu diário sobre os anos de 1933 e seguintes, um testemunho pessoal da infeção nazista. Mann menciona um encontro do grande cientista Max Planck com Hitler para tratar das demissões de professores judeus. Segundo o romancista, por quase uma hora Planck teve de ouvir o monólogo do ditador, que o deixou arrasado e sem ânimo: “Era como a fofoca de uma velha camponesa acerca de matemática – no nível de uma pessoa semianalfabeta com ideias fixas, como nada que o famoso cientista jamais ouvira em sua vida. Dois mundos entraram em contato em razão dessa ascensão estúpida e demagógica desse indivíduo ao poder: o conhecimento, a grande erudição, o pensamento rigoroso ouve a insolência de expectorações professorais, e se curva, afastando-se”.

A observação de Voegelin sobre o episódio resume o espírito da situação brasileira diante do circo dos horrores montado no Senado Federal: “Aí tendes a tragédia do caráter alemão. Quando essa ralé abjeta chega ao poder, terminou a cultura. Aí só se pode cur­var-se e ir embora”. Curvar-se, ir embora ou retirar a ralé de suas posições de poder e influência. Eis o desafio brasileiro contemporâneo.

P. S. Enquanto terminava esse artigo, tive conhecimento da nota de repúdio publicada pelo Conselho Federal de Medicina sobre o tratamento aviltante dado aos médicos que foram depor na CPI. Já é um começo de reação, que espero se multiplique.

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