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Flávio Gordon

Flávio Gordon

Sua arma contra a corrupção da inteligência. Coluna atualizada às quartas-feiras

Cultura e política

“Apesar de vocês” – o amanhã também chega para o petismo

lula chico buarque artistas
Lula e Chico Buarque em encontro do candidato do PT com artistas. (Foto: Ricardo Stuckert)

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Imagine-se esta cena. Domingo passado, na areia de Copacabana, durante o Ato Musical pela Democracia convocado por Caetano Veloso, uma estudante de 20 anos enxuga os olhos ao ouvir os acordes de uma canção de protesto composta quando seus pais ainda nem tinham nascido. A moça não viveu a ditadura, não conheceu a censura, nunca viu um exilado desembarcar no Galeão. Mas chora por tudo isso com a fidelidade de quem herdou uma saudade alheia. É um choro de segunda mão, transmitido em sala de aula como se transmitem as relíquias de família.

Imagine-se agora outra cena, a quase 2 mil quilômetros dali, num galpão de máquinas em algum ponto do Mato Grosso. Um rapaz da mesma idade, filho de pequeno produtor, confere no celular a cotação da soja, o preço do diesel e a previsão de chuva para o plantio. Se lhe perguntarem quem é Chico Buarque, talvez se lembre de um nome que a professora de Literatura pronunciava com voz de missa. Não o despreza. Simplesmente não sente a sua falta.

As duas cenas são imaginárias. O abismo entre elas, não.

A eleição de domingo vem sendo descrita como plebiscito sobre o lulopetismo, sobre o bolsonarismo ou ainda sobre a própria democracia – palavra que a campanha governista, e a intelligentsia de esquerda, converteu em marca registrada. Proponho outra leitura. O que está em jogo é a sobrevivência ou o fim de uma oligarquia política e cultural e, com ela, de um imaginário que governou o país por quatro décadas. Diante de novos atores, tempos e referências, essa oligarquia já não argumenta. Esperneia, vocifera e não tem vergonha de mentir descaradamente sob os comandos de um general da desinformação, um sujeito vil promovido ao posto pelo próprio presidente da República e candidato à reeleição. O que se vê em Copacabana, nos jingles e nos editoriais é, portanto, um desespero reacionário.

O que está em jogo no domingo é a sobrevivência ou o fim de uma oligarquia política e cultural e, com ela, de um imaginário que governou o país por quatro décadas

Benedict Anderson chamou as nações de comunidades imaginadas. A Nova República foi uma delas, e a sua fundação mitopoética se fez inteiramente contra o período anterior, o regime militar, convertido numa espécie de Antigo Regime de cujas trevas o país enfim emergia. Não foram os constituintes que escreveram esse mito, mas os intelectuais e artistas da geração de 1960, que o vinham fermentando desde muito antes de 1985.

A história é conhecida, embora mal contada. Os escritos de Gramsci foram traduzidos no Brasil entre 1966 e 1968 por editores e tradutores ligados ao Partidão, e o último volume saiu no ano do AI-5. Na Alemanha, Rudi Dutschke resumia a lição numa fórmula que faria fortuna: “a longa marcha sobre as instituições”. Em 1970, Roberto Schwarz registrava o paradoxo: “Apesar da ditadura da direita, há relativa hegemonia cultural da esquerda no país”.

Em A corrupção da inteligência, procurei mostrar que não houve paradoxo algum. A hegemonia não veio apesar da ditadura, mas por causa dela. Obcecados com a guerrilha, os militares subestimaram a esquerda festiva, e o general Golbery chegou a enxergar na cultura uma válvula de descompressão do regime. Nos anos 1970, os egressos do CPC e do Teatro de Arena passaram a escrever as novelas da Tupi e da Globo, as redações encheram-se de comunistas, filocomunistas e companheiros de viagem, e a universidade fez o resto. Os generais venceram na política e perderam na memória, fenômeno que o historiador Marcos Napolitano batizou de “estranha derrota”.

Em 1985, a fatura foi apresentada. Quem tinha sido preso, exilado ou censurado, ou quem apenas cantara contra os generais, recebeu uma comenda vitalícia, transmissível aos herdeiros ideológicos. Chamemo-la de “nobreza da resistência”. Na política partidária, ela se repartiu em duas casas rivais nascidas da mesma derrota, o PSDB e o PT, girondinos e jacobinos que passaram três décadas acusando um ao outro de ser “de direita”. Na cultura, reinou sem rival. Ocupou as cátedras, as redações, os conselhos de cultura e os currículos, e decidiu o que era belo, o que era justo e qual versão da história o estudante deveria decorar para o vestibular. A cultura nacional converteu-se, como escrevi no livro, no divã de um processo coletivo de ab-reação. As lágrimas de Copacabana são apenas a sessão mais recente.

Há nisso uma ironia que os sociólogos da casa nunca se deram ao trabalho de notar. A oligarquia que se apresenta como progressista tornou-se, no sentido mais rigoroso do termo, reacionária. Reage ao novo. Seu horizonte político é 1968, seu horizonte estético é a MPB dos festivais, seu horizonte moral é a anistia de 1979. Tudo o que veio depois é recebido como ameaça ou, na melhor das hipóteses, como objeto de tese de doutorado: o agronegócio de alta tecnologia, o pequeno empreendedor, o trabalhador de aplicativo, o pastor da igreja de bairro, o sertanejo que lota estádios sem pedir a bênção da crítica, os autores que circulam por editoras independentes e canais de internet sem terem passado pelo crivo da USP.

A nobreza da resistência perdeu o monopólio das referências, e já não sabe viver sem ele. Daí o pânico. Quem passou a vida definindo o que o país devia ler, ouvir e pensar descobre, já idoso, que o país passou a ler, ouvir e pensar outras coisas, e reage como reagem todas as aristocracias em declínio: chamando de barbárie tudo aquilo que não controla. Nas paredes de Paris, em maio de 1968, os estudantes picharam: “Professores, os senhores são velhos, e a sua cultura também”. O slogan envelheceu junto com os seus autores e hoje lhes serve sob medida.

Quem passou a vida definindo o que o país devia ler, ouvir e pensar descobre, já idoso, que o país passou a ler, ouvir e pensar outras coisas

O jingle Bora, Lula, gravado por Caetano, Gil e Chico com a participação de rappers, é um documento precioso desse desespero. Os velhos totens foram tirados do altar e levados de novo à praça, como as relíquias que as cidades medievais faziam desfilar em tempo de peste. Entre os versos sobre soberania nacional, há lugar para celebrar o Bolsa Família. A geração que um dia cantou contra o cálice da censura canta agora a dependência como conquista. Começou defendendo a liberdade e termina administrando a clientela.

Do outro lado está um Brasil que não pediu licença a essa aristocracia para existir. Cresceu no interior, nas cidades médias do Centro-Oeste, nas periferias onde o comércio de esquina e o aplicativo substituíram o sindicato como escola de vida. É mais conservador nos costumes, mais religioso, menos deslumbrado com o Estado. Quer abrir uma empresa sem atravessar um semestre de alvarás. Quer que o filho aprenda matemática em vez de militância. Quer voltar para casa à noite sem ter de ouvir de um professor que o assaltante é vítima do sistema, tese que desceu das canções sobre pivetes para as faculdades de Direito e delas para os tribunais. Quer entrar no capitalismo do século 21 pela porta da frente, e não pela fila do cadastro social. Não deve à oligarquia nem o voto, nem o gosto, nem a memória.

A candidatura de Flávio Bolsonaro tornou-se o veículo eleitoral desse Brasil ascendente. O senador chegou ao segundo turno à frente de Lula carregado por eleitores que nunca leram Antonio Candido e não sentem a menor culpa por isso – porque leram Olavo de Carvalho. Em 2018, esse Brasil irrompeu pela primeira vez na cena política nacional, e a oligarquia tratou o episódio como acidente, depois como caso de polícia. Oito anos mais tarde, ele volta mais maduro e menos disposto a pedir desculpas. Não se trata de um adversário dentro da mesma mitologia, como foram os tucanos para os petistas. Trata-se de gente para quem a mitologia fundadora da Nova República simplesmente não diz nada.

Vilfredo Pareto, que estudou como poucos a dinâmica das elites, deixou uma sentença que deveria estar afixada na escrivaninha de todo politólogo: “A história é um cemitério de aristocracias”. As elites raramente caem por conspiração. Caem quando deixam de circular, quando se fecham sobre os próprios ritos e passam a confundir a lembrança da virtude com a virtude mesma. O historiador Edward J. Watts descreveu um desses ocasos em The Final Pagan Generation, sobre os homens cultos nascidos por volta de 310, como Libânio, Temístio, Ausônio e Pretextato, que atravessaram a cristianização do Império Romano sem perceber que o seu mundo acabava. Não foram perseguidos. Foram tornados obsoletos. Como escrevi ao comentar o livro, nada anestesia mais do que um sistema que continua pagando bem enquanto muda de alma. A nobreza da resistência é a nossa última geração pagã. E paga, convém acrescentar. Para ela, o imaginário neorrepublicano nunca foi propriamente uma doutrina, e sim uma atmosfera, algo respirado antes de ser pensado. Por isso parecia eterno. A volta de Lula em 2022 foi o seu Juliano: não ressuscitou os deuses, apenas comprovou que já estavam mortos. Os editais, as homenagens e as liturgias continuam. Mas esses deuses já não falam ao coração dos homens.

No domingo à noite, uma das duas cenas terminará em lágrimas. A estudante de Copacabana sabe chorar há muito tempo: aprendeu com avós, pais e professores. Já o rapaz de Mato Grosso, em verdade, talvez nem comemore muito se vencer. É época de plantio, e o dia começa cedo.

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.” Por meio século, o verso de Chico serviu de grito de guerra a uma geração que nunca deixou de lançá-lo às gerações seguintes. Tinha razão o compositor petista. Só não previu que o amanhã chegaria também para ele e os seus.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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