Publicidade
Flávio Gordon

Flávio Gordon

Sua arma contra a corrupção da inteligência. Coluna atualizada às quartas-feiras

Comunistas na América Latina

O espião que veio do frio (e ninguém quis ver): mais uma historieta da Guerra Fria

espião tchecoslováquia
Ao longo de 1958, um espião tcheco tentou arrancar informações de oficial da Marinha brasileira presenteando filhos com brinquedos e oferecendo conhaque. (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

Há poucos dias, a BBC Brasil publicou mais uma daquelas recorrentes matérias sobre a atuação da CIA na América Latina durante a Guerra Fria. O espionado da vez era ninguém menos que Juscelino Kubitschek. O texto segue a fórmula de sempre: documentos desclassificados, adjetivos graves, e a sugestão implícita de que os Estados Unidos vigiavam com lupa cada gesto de um presidente latino-americano supostamente independente demais para o gosto de Washington.

Não duvido da autenticidade dos arquivos, nem pretendo, por óbvio, passar pano para a CIA. O que me interessa é outra coisa: o fato notável de que, 60 e tantos anos depois, ainda existe uma indústria editorial inteira dedicada a vasculhar, arquivo por arquivo, cada suspiro da inteligência americana na América Latina – e um silêncio de cemitério sobre o que a inteligência do bloco soviético fazia por aqui, ao mesmo tempo, com métodos similares, maior frequência e, não raro, com objetivos bem menos ambíguos.

Já tratei desse desequilíbrio nesta coluna, ao comentar a proximidade entre a Tchecoslováquia comunista e o governo João Goulart durante a Guerra Fria – um episódio que, apesar de fartamente documentado, jamais recebeu da nossa historiografia oficial o mesmo escrutínio dedicado a qualquer telegrama trocado entre o Itamaraty e a embaixada americana. O presente texto é, em certo sentido, uma continuação daquele: mais uma peça do mesmo quebra-cabeça que a memória brasileira insiste em deixar incompleto.

Ainda existe uma indústria editorial inteira dedicada a vasculhar cada suspiro da inteligência americana na América Latina, e um silêncio de cemitério sobre o que a inteligência do bloco soviético fazia por aqui, ao mesmo tempo

Tenho em mãos, enquanto escrevo, mais um caso extraído do arquivo da StB (a polícia secreta da Tchecoslováquia comunista), recentemente desclassificado e digitalizado pelo Archiv Bezpečnostních Složek, em Praga. Trata-se de um dossiê pequeno, quase provinciano, se comparado às tramas grandiloquentes que costumamos associar à Guerra Fria. Não há golpes de Estado, não há assassinatos, não há sequer um bom enredo de espionagem industrial. Há apenas um agente tcheco, de codinome JEZERSKÝ, tentando pacientemente recrutar um vizinho de prédio no Rio de Janeiro: um oficial da Marinha brasileira, funcionário do Ministério da Guerra, de nome Nelson de Albuquerque Wanderley, batizado pela polícia de Praga com o codinome NOMÁD.

A operação começou em janeiro de 1958 – em plena era JK – e se arrastou, com a burocracia melancólica típica dos regimes comunistas, até ser formalmente encerrada em janeiro de 1959, revisada em 1968 e definitivamente arquivada em 1981. O método foi o clássico manual leninista de aproximação: presentear as crianças do vizinho, oferecer geladeira quando a dele quebrou, mandar cartão de visita, convidar para jantares regados a champanhe e conhaque Napoleão, tudo cuidadosamente registrado em relatórios de despesas enviados a Praga com a mesma frieza contábil de quem presta contas de um cafezinho de escritório. Num desses relatórios, datado de 13 de abril de 1958, JEZERSKÝ discrimina, entre as despesas do mês, 1,4 mil coroas gastas com um jantar para quatro pessoas e mais 260 coroas em dois coelhinhos de pelúcia, comprados para os filhos de NOMÁD por ocasião da Páscoa – um pequeno gesto doméstico, cuidadosamente contabilizado, que resume bem o método miúdo e paciente da sedução totalitária.

espião tchecoslováquia rio de janeiroTrecho do relatório de despesas de JEZERSKÝ, 13 de abril de 1958, arquivo StB n.º 10207/300. Tradução: “Despesas com o jantar (para 4 pessoas) 1.400 Cruzeiros. 260 Cruzeiros por dois coelhinhos para as crianças dele na Páscoa. Total: 1.660 Cruzeiros. Rio de Janeiro, 13 de abril de 1958". (Foto: Arquivo pessoal Flavio Gordon)

A sede, do outro lado do Atlântico, respondia com instruções precisas: reforcem o vínculo “sem pressa”, descubram para que serve o Ministério da Guerra, verifiquem se ele não seria “um oficial de inteligência”, aproveitem a fraqueza dele por bebida, tentem obter acesso ao Clube Militar. O alvo, por sua vez, revelou-se um osso duro: cordial, mas hermético; nunca mencionava política, nunca perguntava sobre a Tchecoslováquia, e por fim mudou de apartamento, encerrando sem alarde uma tentativa de aliciamento que a própria StB reconheceu, em 1959, como fracassada.

É mais uma historieta. Mas é exatamente esse caráter modesto, quase inocente, que a torna reveladora. O temos aqui não é uma anomalia, mas um padrão – o mesmo padrão por mim apontado em relação à abordagem tcheca de Jango e seu entorno: enquanto Moscou, Praga, Berlim Oriental e Havana mantinham, durante décadas, redes de residências, agentes sob disfarce diplomático e operações de aliciamento espalhadas por toda a América Latina – dos quartéis brasileiros aos sindicatos chilenos, das universidades mexicanas às redações de meio mundo –, o imaginário público brasileiro sobre a Guerra Fria seguiu obstinadamente monotemático. Nele só existe um vilão. Um vilão que fala inglês.

Trata-se de uma espantosa seletividade ideológica, cultivada com esmero há décadas por uma intelectualidade que jamais superou o vício de tratar o comunismo como sujeito histórico isento, quase um espectador inocente arrastado para o tabuleiro da Guerra Fria pela agressividade americana. A CIA vira personagem recorrente de documentário, de livro-reportagem, de matéria de aniversário; a StB, a Stasi, o KGB, a Securitate – que praticaram exatamente os mesmos métodos, com a agravante de servirem a regimes que mataram dezenas de milhões dos seus próprios cidadãos – permanecem confinados a rodapés acadêmicos e a arquivos que ninguém, ou quase ninguém, se dá ao trabalho de consultar. Quantos jornalistas brasileiros já vasculharam o Archiv Bezpečnostních Složek, disponível on-line, em busca de histórias como a de NOMÁD? Quantas teses de mestrado foram dedicadas à presença soviética, cubana ou tcheca nos ministérios brasileiros, em contraste com a bibliografia oceânica sobre a “ingerência americana”?

O resultado dessa assimetria não é apenas historiográfico, mas também político, e segue moldando o presente. Uma geração inteira cresceu convencida de que a Guerra Fria foi, essencialmente, uma agressão unilateral do imperialismo ianque contra povos latino-americanos que, deixados em paz, teriam seguido seu curso natural rumo a um socialismo pacífico e autóctone. Nessa narrativa conveniente, não há espaço para o fato incômodo de que o “outro lado” também jogava o jogo – e jogava para valer, com a vantagem adicional de contar com a cumplicidade silenciosa de setores da própria imprensa e da própria academia que hoje se erguem como guardiões da memória histórica. O dossiê de NOMÁD não é uma trama de filme, mas é prova documental de que Praga tinha residência ativa no Rio de Janeiro desde os anos 1950, tentando recrutar oficiais do governo JK – o mesmo JK cuja relação com a CIA ainda hoje rende manchetes indignadas.

Vale insistir: não se trata de branquear a CIA, nem de sugerir equivalência moral entre uma democracia imperfeita e as ditaduras totalitárias que produziram a StB. Trata-se de exigir simetria de curiosidade. Se a espionagem americana em Brasília merece reportagem, tradução, thread no Twitter e indignação de gabinete, a tentativa tcheca de aliciar um oficial brasileiro – com direito a coelhinhos de pelúcia comprados para os filhos do alvo pela Páscoa e conhaque oferecido como isca – merece, no mínimo, o mesmo interesse. Não porque um seja pior que o outro em abstrato, mas porque a história completa da Guerra Fria na América Latina não cabe numa narrativa de mão única, e porque o esquecimento seletivo tem sido, há décadas, a arma mais eficaz do totalitarismo supostamente derrotado: fazer-se esquecer enquanto o adversário histórico segue eternamente em julgamento.

NOMÁD – presume-se – morreu sem jamais saber que fora, por um ano inteiro, alvo de uma operação de inteligência estrangeira dentro do próprio prédio onde morava, executada por um vizinho que lhe oferecia conhaque e coelhinhos de pelúcia enquanto prestava contas, em coroas checas, a Praga. JEZERSKÝ voltou para casa, seu relatório foi engavetado, depois microfilmado em 1981 sob o título burocrático de “Fim” – konec –, e só reaberto ao público décadas mais tarde, por força de uma lei tcheca de acesso aos arquivos. Sobrou-nos, do episódio, apenas o rastro em papel carbono de uma sedução fracassada – e a pergunta que a nossa historiografia oficial prefere não fazer: se um dossiê como esse existe para um oficial de segundo escalão do Ministério da Guerra, quantos outros NOMÁDs ainda dormem, não catalogados, em arquivos de Moscou, Havana ou Berlim Oriental, à espera de que alguém, um dia, se interesse por eles tanto quanto se interessa pela CIA?

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.