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Cena do filme Avatar, de 2009.
Cena do filme Avatar, de 2009.| Foto: Mark Fellman/Divulgação/20th Century Fox

“Milhares de turistas farão uma peregrinação ali, aos domingos. Terão acesso à grandeza do nosso universo. O frontão triangular terá este mote: Os céus proclamam a glória da eternidade. Será nossa maneira de dar aos homens um espírito religioso, de ensinar-lhe a humildade – mas sem sacerdotes. Para Ptolomeu, a terra era o centro do mundo. Isso mudou com Copérnico. Hoje sabemos que nosso sistema solar é apenas um sistema solar entre outros muitos. O que poderíamos fazer melhor do que permitir ao maior número possível de pessoas ficar a par dessas maravilhas? Ponde um pequeno telescópio numa vila e destruireis um mundo de superstições” (Adolf Hitler, citado por Eric Voegelin em Hitler e os Alemães).

Além de provável lobista e preposto do Partido Comunista Chinês, o ainda não eleito presidente americano Joe Biden é representante da principal religião política de nossos dias: o ecofundamentalismo, um verdadeiro milenarismo científico ligado ao complexo mitopoético e escatológico do aquecimento global e do apocalipse ambiental previsto pela “ciência” globalista da ONU e de outras organizações supranacionais. Trata-se, ao fim e ao cabo, de uma crítica neopagã ao pretenso antropocentrismo da tradição religiosa judaico-cristã.

Sim, Biden é um produto acabado desse contexto, algo como um sacerdote da igreja de Al Gore e do ambientalismo onuseiro, e que, justamente por isso, contou com o apoio da elite globalista e do conglomerado de imprensa que lhe serve de agência de propaganda. Toda a conversa sobre “crise civilizacional”, sobre a urgência de agir em face das assim chamadas mudanças climáticas é fruto direto do vocabulário do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU e da intelligentsia que o orienta.

As raízes simbólicas e filosóficas da candidatura Biden-Harris encontram-se exemplarmente expressas, por exemplo, no livro The Sacred Depths of Nature, da bióloga norte-americana Ursula Goodenough, onde se propõe a ideia de um “naturalismo religioso”. Trata-se da promessa de uma nova teosofia planetária à la Madame Blavatsky e Alice Bailey – um velho sonho globalista acalentado, entre outros, por Robert Müller, o “filósofo da ONU”. Na obra, Goodenough procura descrever o componente sagrado da interpretação científica da natureza, interpretação que chama de “A Epopeia da Evolução”, e cuja representação iconográfica pop seria o filme Avatar, sucesso de bilheteria do diretor hollywoodiano James Cameron.

O ecofundamentalismo é um verdadeiro milenarismo científico ligado ao complexo mitopoético e escatológico do aquecimento global e do apocalipse ambiental

Como se sabe, o filme faz apologia de um imanentismo religioso de tipo Nova Era, onde os nativos humanoides Na’avi vivem em harmonia com a natureza de seu planeta, Pandora, reverenciada como a deusa Eywa (espécie de Gaia ou “Mãe-Terra” panteísta). Há, em Pandora, uma grande rede neuronal biológica que conecta todas as criaturas viventes. Os Na’avi, por exemplo, conectam-se aos seus animais de montaria pelas pontas de suas tranças, que funcionam como cabos HDMI orgânicos.

A proposta de Avatar era realizar a síntese entre duas cosmovisões tradicional e aparentemente antitéticas: o primitivismo romântico e o progressivismo tecnocientífico. Pandora é a imagem paradigmática da utopia pós-moderna: um imenso sistema tecnorgânico, com uma tecnologia de comunicação extremamente avançada, eficaz e unificadora, aliada à harmonia total com a natureza e respeito pela diversidade socioambiental. Pandora representa o ideal globalista do “desenvolvimento sustentável”.

Seu criador, James Cameron, seria como o gigante coroado no frontispício original de O Leviatã – que detinha em suas mãos os poderes espiritual e temporal, a cruz e a espada. Numa das mãos, Cameron leva a mais poderosa tecnologia de ponta. Na outra, os valores da ecologia e da sustentabilidade. Com a direita, segura o grande capital e a hegemonia americana. Com a esquerda, o comunismo primitivo e o multiculturalismo.

O filme insiste ainda num topos recorrente, sempre revisitado no cinema hollywoodiano, e que cai como uma luva para a causa do ecofundamentalismo: o simbolismo do saber versus o poder, da razão científica contra o irracionalismo estatal-militar. Um dos principais confrontos do filme é entre a visão de mundo pacifista e ecológica da doutora Grace Augustine (a experiente e sensata botânica vivida pela atriz Sigourney Weaver) e a visão bélica e colonialista do coronel Miles Quaritch (vivido por Stephen Lang).

Evidentemente, o simbolismo da ciência pura – “ciência, ciência, ciência”, para falar como um certo enganador nosso conhecido – contra os interesses dos poderosos (a doutora Grace contra o coronel Quaritch) também é reproduzido fora da ficção. É, aliás, parte inerente do discurso dos cientistas do aquecimento global contra todos os seus críticos. Estes, chamados de “céticos” ou “negacionistas” (num truque semântico concebido para associá-los aos negacionistas do Holocausto), seriam a versão real do coronel Quaritch – fundamentalistas e arredios à verdade científica; egoístas e movidos por ganância e ambições pessoais; financiados por poderosos industriais cujos interesses seriam prejudicados por uma pretensa “verdade inconveniente” (como no título do célebre documentário de Al Gore) revelada pelos aquecimentistas.

Esses últimos, por sua vez, seriam almas virtuosas, preocupadas única e exclusivamente com o destino do planeta, movidas tão somente por um amor genuíno pelos seres vivos e pela verdade científica. É claro que, nessa narrativa, não fica bem informar, por exemplo, que Al Gore fundou em 2004 a empresa Generation Investment Management, financiadora de projetos verdes como energias renováveis e mercados de carbono. Ninguém precisa saber que nem só de amor ao planeta vivem os aquecimentistas.

O simbolismo da “ciência pura” contra os interesses dos poderosos é parte inerente do discurso dos cientistas do aquecimento global contra todos os seus críticos, chamados de “céticos” ou “negacionistas”, num truque semântico concebido para associá-los aos negacionistas do Holocausto

Avatar faz caixa de ressonância a um fenômeno contemporâneo, a notável expansão de um renovado discurso neopagão. Recorde-se, a título de ilustração, da Conferência Mundial dos Povos sobre Mudanças Climáticas (em Cochabamba, na Bolívia), um evento que procurava reagir ao suposto fracasso da Cúpula Mundial do Clima, ocorrida em Copenhague (Dinamarca), em dezembro de 2009. No pretensamente alternativo encontro em Cochabamba, os participantes chegaram à formulação conclusiva da “Declaração Universal dos Direitos da Mãe Terra”, em cujo parágrafo quinto do artigo primeiro podemos ler: “La Madre Tierra y todos los seres que la componen son titulares de todos los derechos inherentes reconocidos en esta Declaración sin distinción de ningún tipo, como puede ser entre seres orgánicos e inorgánicos, especies, origen, uso para los seres humanos, o cualquier otro estatus”.

Vê-se que a utopia aqui não é mais, como na velha cantilena marxista, simplesmente a abolição da sociedade de classes, mas a superação de toda e qualquer distinção – de reino, de gênero, de espécie. Trata-se, em suma, da proposta de um imanentismo generalizado ou, como proporiam Madame Blavatsky e, mais tarde, Leonardo Boff, de uma “fraternidade universal”.

A “Epopeia da Evolução” de que fala Ursula Goodenough é como um retrato onírico em que se misturam novos hippies, ambientalistas e megaempresários ecologicamente corretos; onde comunidades tradicionais marcham de mãos dadas com o casal Clinton, o casal Obama, Al Gore, a WWF e o Greenpeace; onde George Soros, Jack Dorsey, Pierre Omidyar e Greta Thunberg passam a integrar o panteão no qual já se encontram imortalizados Chico Mendes, Sting, Raoni e Bono Vox. Nas palavras da autora:

A necessidade de uma ética planetária é tão óbvia que só preciso listar algumas palavras-chave: clima, limpeza étnica, combustíveis fósseis, preservação do habitat, direitos humanos, fome, doenças infecciosas, armas nucleares, oceanos, camada de ozônio, poluição, população. Nossa conversa global sobre esses temas são, por definição, cacofonias de interesses próprios nacionais, culturais e religiosos. Sem uma orientação religiosa comum, basicamente não sabemos por onde começar, o que dizer ou como ouvir, nem temos motivação para reagir... A minha agenda para este livro é lançar as fundações dessa ética planetária, que não pretende suplantar as tradições existentes, mas deseja coexistir com elas, lidando com nossas preocupações globais, enquanto, na vida cotidiana, continuamos a nos guiar por nossos contextos culturais e religiosos... Toda tradição global precisa partir de uma visão de mundo comum… Portanto, o objetivo desta obra é apresentar um relato acessível de nossa compreensão científica da natureza, e então sugerir meios para que esse relato possa suscitar respostas religiosas impactantes – uma abordagem que pode ser chamada de naturalismo religioso…  A história da natureza tem o potencial de servir como cosmos para o ethos global que precisamos articular.

Joe Biden é porta-voz desse “ethos global” e dessa “visão de mundo comum” – leia-se, totalitária – que se pretende instituir a fórceps via o poderoso amálgama entre ciência, política e religião que conforma a ideologia ecofundamentalista. E a “ciência” do aquecimento global é, hoje, o maior exemplo daquilo que a filósofa Mary Midgley chamou de “ciência como salvação”. Como toda religião política, essa também começou prometendo o Paraíso, mas há de terminar instaurando o inferno na Terra.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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