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Um homem palestino confronta um soldado israelense durante um protesto contra o estabelecimento de postos avançados israelenses em terras palestinas, em 26 de março de 2021 em Beit Dajan.
Um homem palestino confronta um soldado israelense durante um protesto contra o estabelecimento de postos avançados israelenses em terras palestinas, em 26 de março de 2021 em Beit Dajan.| Foto: Jaafar Ashtiyeh/AFP

Era uma vez um paraíso encantado sobre a Terra onde os vinhedos eram abundantes e as flores brotavam por todos os lados. O solo era fértil; a água, fresca e potável. Lá não havia sinal de penúria, fome ou injustiça. O povo que ali habitava vivia feliz e saudável, e a harmonia reinava entre os seres. O paraíso chamava-se “Palestina” e os seus bem-aventurados habitantes, “palestinos”. Eis que um belo dia chegam os cruéis sionistas, que, apoiados pelos imperialistas britânicos (e, depois, “estadunidenses”), roubam a terra, exilam o seu povo e instauram um reino de opressão que perdura até hoje.

Pode parecer exagero, mas é essa visão mitopoética a principal inspiração para a cobertura jornalística nacional dos conflitos no Oriente Médio. Mais ainda, a adoção daquele mito como padrão de credibilidade jornalística tem sido praticamente unânime. Se, tempos atrás, a diversidade de linhas editoriais e de opiniões era o que definia uma imprensa livre e democrática, hoje é o contrário: para se apresentarem como democráticos, a maioria dos veículos de comunicação insiste em reverberar, em uníssono, a mesma cantilena: os conflitos no Oriente Médio são responsabilidade exclusiva de Israel e do assim chamado imperialismo americano.

A mitologia descrita acima subjaz a uma avaliação curiosamente positiva, por parte de nossa imprensa, de organizações islâmicas. Recordo-me, por exemplo, que, no tempo da assim chamada “Primavera Árabe”, a crença naquele mito fez com que nossos jornalistas e “especialistas” midiáticos (ou espsolistas, como prefiro chamar) ridicularizassem as preocupações de Israel quanto ao substituto de Hosni Mubarak no poder no Egito. A princípio silenciosos sobre a Irmandade Muçulmana, os formadores de opinião logo foram forçados a mencioná-la, depois que autoridades israelenses relembraram o caso do Irã, quando, no fim da década de 70, após a queda do xá Reza Pahlavi, o país passou a ser governado por uma teocracia islâmica totalitária, muito mais repressiva do que fora o governo anterior, além de fortemente antiamericana e antissemita.

Para se apresentarem como democráticos, a maioria dos veículos de comunicação insiste em reverberar a mesma cantilena: os conflitos no Oriente Médio são responsabilidade exclusiva de Israel e do “imperialismo americano”

Diante da mera possibilidade de tomada do poder por radicais islâmicos – fato que não representava um risco apenas para Israel, mas para todas as democracias ocidentais –, o que fez a imprensa brasileira com a arrogância e a ignorância habituais (as mesmas com que agora decretam, por exemplo, a cientificidade inquestionável do lockdown e a anticientificidade do tratamento precoce para a Covid)? Acusou os israelenses de paranoicos e tratou de dourar a pílula da Irmandade Muçulmana, recorrendo a toda sorte de eufemismos e mistificações. Recordemos alguns exemplos.

Na edição da Folha de S.Paulo de 7 de fevereiro de 2011, por exemplo, o colunista Fernando de Barros e Silva escreveu um texto intitulado “Terceira via árabe?”, no qual se lia: “A questão é saber se há espaço para uma terceira via no Egito (e no mundo árabe) – um regime que não seja nem uma ‘ditadura amiga’ dos EUA nem uma teocracia mais ou menos fundamentalista. O primeiro passo para construir esse caminho é não satanizar a Irmandade Muçulmana, principal organização religiosa do país, de maioria moderada, na ilegalidade desde os anos 50. Confundi-la com o extremismo, como querem Israel e a direita em geral, é uma tolice”.

Nota-se, antes de tudo, o ato falho do colunista, que revelava o seu próprio viés ao caracterizar Israel como uma espécie de caso particular de uma direita em geral. No seu texto, “Israel” já não era o nome de uma entidade complexa como uma nação, mas um símbolo estereotipado, utilizado como arma psicológica para provocar a antipatia dos leitores (assim como “negacionista”, “bolsonarista”, “imperialismo estadunidense”, “Donald Trump” etc.). Não deixa de ser irônico que o colunista criasse um monstrengo a quem satanizar – “Israel e a direita em geral” – no instante mesmo em que condenava uma pretensa satanização da Irmandade Muçulmana.

Vejamos mais um exemplo, tirado agora não de uma coluna de opinião, mas de uma reportagem de O Globo, publicada na mesma data. Intitulada “Saiba mais sobre a Irmandade Muçulmana”, a matéria informava (ou, se preferirem, desinformava): “FIM DA VIOLÊNCIA. No passado, o movimento teve uma divisão paramilitar, mas renunciou à violência nos anos 1950, comprometendo-se a promover política através da democracia... Diferente dos grupos de oposição a Hosni Mubarak da década de 90, a Irmandade tem uma liderança em grande maioria laica, formada por profissionais liberais modernos, como médicos, advogados e professores... Hostil a Israel e à política dos Estados Unidos na região, o grupo tem como seu maior aliado estrangeiro o movimento islâmico palestino Hamas, com quem compartilha a posição de uma luta armada contra israelenses”.

Na mesma linha do artigo de Barros e Silva, os redatores pretendiam retratar a Irmandade Muçulmana como um grupo moderado e pacífico, formado não por extremistas religiosos, mas por profissionais liberais e laicos. O estranho é não terem notado contradição alguma entre afirmar que a organização renunciara à violência nos anos 1950 e, ato contínuo, que tinha como maior aliado o Hamas, com quem compartilhava a proposta de uma luta armada contra israelenses. Ou bem se apoia um grupo terrorista ou bem se renuncia à violência. Não é possível fazer ambas as coisas ao mesmo tempo.

Ainda naquele mesmo 7 de fevereiro de 2011 – porque o coletivo das redações costuma agir de maneira concertada em torno de certas pautas e agendas políticas –, o colunista Clóvis Rossi alertou para o risco de se fazer com o islamismo no século 21 o mesmo que se fizera com os judeus no século 20. Sem oferecer ao leitor qualquer evidência de que os muçulmanos estivessem passando por algo semelhante ao que sofreram os judeus durante o Holocausto, Rossi fez uma estranha reclamação: “Cada vez há mais análises dizendo que ‘essa gente’ (i. e. os muçulmanos) não tem direito a querer a democracia porque basta que a tenham para que votem, por exemplo, no Hamas”.

Gostaria de saber onde Rossi encontrou análises que tratassem os muçulmanos por “essa gente”. Ele poderia ter citado ao menos uma. Porque, dando uma olhada nos principais veículos de comunicação brasileiros, as únicas análises e opiniões que encontrei eram exatamente como as de Rossi, sugerindo igualmente que os muçulmanos eram vítimas de preconceito e demonização. O colunista nem se deu conta de que, no mesmo jornal e na mesma data em que reclamava das supostas análises “islamofóbicas”, seu colega Fernando de Barros e Silva fazia um alerta equivalente em relação à Irmandade Muçulmana. Rossi jamais admitiria – pois admiti-lo seria perder uma vantagem estratégica –, mas a sua própria posição sempre foi majoritária, se não mesmo hegemônica, dentro dos estúdios e redações.

Mas, como jornalista não tem ideia própria, havia decerto algum “especialista” companheiro fornecendo os subsídios teóricos para a pauta. Especialistas como Arlene Clemesha, então diretora do Centro de Estudos Árabes da USP, e figurinha carimbada nos telejornais e mesas-redondas das grandes emissoras. No programa Entre Aspas da Globo News, por exemplo, que foi ao ar em 1.º de fevereiro de 2011, ela opinava com pose de expert: “O que chama atenção é o medo de que isso tudo possa levar a Irmandade Muçulmana ao poder... O problema não é o fato em si. O que causa espanto é o medo que o mundo tem disso. Por que é que têm tanto medo de um governo islâmico?... Eu acho que é infundado esse medo, porque os islâmicos estão ali prontos para dialogar como qualquer outra força política dentro do país. Eles não são seitas, não são grupos terroristas, são partidos políticos”.

O comentário surgiu no contexto de uma questão sobre a transição política no Egito. Atropelando a pergunta do entrevistador e o “fato em si”, Clemesha parecia ansiosa para enfatizar um outro ponto: o medo que Israel e o resto do mundo tinham de um governo islâmico era pura paranoia, fruto de preconceito e orientalismo (para falar como Edward Said, guia espiritual de Clemesha e demais analistas brasileiros). Segundo a especialista, a Irmandade Muçulmana era um partido político como qualquer outro, um grupo pacífico e aberto ao diálogo.

Diante da mera possibilidade de tomada do poder por radicais islâmicos no Egito, a imprensa brasileira, com a arrogância e a ignorância habituais, acusou os israelenses de paranoicos e tratou de dourar a pílula da Irmandade Muçulmana

Arlene Clemesha já havia utilizado o mesmo argumento em relação ao Hamas e ao Fatah. Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, em fevereiro de 2009, disse que era preciso reconhecer o Hamas e o Fatah como partidos políticos legítimos. Em suas palavras: “Em 2006, quando o Hamas venceu as eleições, aconteceu essa situação inaceitável, ou seja, o Estado de Israel, junto com os Estados Unidos e a Europa, não reconheceu a vitória do Hamas. Então, o povo palestino elegeu, democraticamente, um governo e o mundo não reconheceu esse governo e o derrubou. Isso, sim, é um exercício do autoritarismo e da ingerência. É assim que colocam o Hamas como um grupo terrorista, e não um partido político legítimo”.

Notem bem: são os EUA e Israel que “colocam o Hamas como um grupo terrorista”. Só no período de 1989 a 2008, pouco antes daquela entrevista edificante, foram mortos mais de 800 civis israelenses (incluindo muitas mulheres e crianças) em atentados terroristas com autoria assumida e celebrada pelo Hamas. Ademais, o “partido político legítimo” de Arlene Clemesha é dono da tevê Al-Aqsa, que costumava exibir o programa infantil Pioneiros do Amanhã, no qual uma menina dialogava com um rato de nome Farfur (“borboleta”, em árabe), uma cópia grosseira do Mickey Mouse, que instruía as crianças a odiar os judeus e tornar-se um mártir.

Mas a especialista midiática não se deixava intimidar pela realidade. Na mesma entrevista, justificava a eventual violência de grupos como o Hamas afirmando que a razão para o conflito no Oriente Médio teria sido a “imigração dos sionistas para a Palestina”. O problema teria se agravado em 1948, com a criação do Estado de Israel: “Precisamos levantar a questão: que legitimidade existe nessa partilha da Palestina? Como a ONU entrega a um movimento sionista uma terra que tem dono, que tem população, que tem cultura, que tem passado, enfim?... Será que não é mesmo hora de nós questionarmos a validade da resolução que criou essa partilha da Palestina? Agora, veja, eu não estou dizendo que vamos eliminar o Estado de Israel e jogar os judeus no mar”.

Só no período de 1989 a 2008, foram mortos mais de 800 civis israelenses (incluindo muitas mulheres e crianças) em atentados terroristas com autoria assumida e celebrada pelo Hamas

Felizmente, Clemesha não pensava em jogar os judeus no mar, como alguém poderia estar pensando. E essa demonstração inequívoca de tolerância bastou para fazer dela uma especialista autorizada da nossa grande imprensa. Quando nossos jornalistas invocam cientistas e especialistas para afirmar alguma coisa, é frequentemente de tipos como Arlene Clemesha que colhem a autoridade. Não sejamos negacionistas! Está provado, é científico: Israel é um enclave de crueldade e opressão num oásis de paz e harmonia.

Como se vê, aquela mitologia de origem do conflito no Oriente Médio é praticamente a única versão conhecida na imprensa. Só isso poderia explicar o fato de que, numa mesma semana, como se atendendo a comando superior, diversos veículos de comunicação tivessem batido unanimemente na mesma tecla: afirmando, por um lado, a natureza pacífica das organizações islâmicas – e da Irmandade Muçulmana em particular – e, por outro, o caráter suspeito dos alertas feitos por Israel.

Conhece-se uma das frases mais famosas de Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra. A unanimidade da imprensa brasileira nesse caso parece-o ainda mais. Mas, coitada, talvez não seja justo culpá-la integralmente. Sem autoconfiança e independência analítica, os nossos formadores de opinião reproduzem, inseguros, tudo o que leem na grande imprensa internacional. E esta, por sua vez, é pautada por facções intelectuais que convém conhecer melhor. Voltarei ao tema na semana que vem.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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