
Ouça este conteúdo
Como informa o repórter John Lucas para esta Gazeta do Povo, uma juíza federal norte-americana suspendeu as sanções impostas pelo governo Trump contra Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os territórios palestinos. Albanese comemorou a decisão nas redes sociais com o entusiasmo de quem acabou de ganhar uma batalha em campo inimigo – e, de certa forma, é exatamente isso. O embaixador israelense Danny Danon não tardou a responder: a relatora, afirmou ele, usa seu cargo para travar uma campanha de incitação política contra Israel e os Estados Unidos, espalha mentiras e calúnias de sangue, e presta apoio consistente aos terroristas do Hamas, mesmo após o massacre de 7 de outubro.
São palavras duras. O que surpreende no caso não é propriamente a acusação de Danon, mas o fato de que ela seja necessária em pleno ano de 2026, como se a ONU e o antissemitismo fossem uma novidade. Não são. A relação entre as Nações Unidas e o ódio aos judeus é tão velha quanto as próprias Nações Unidas. E, para compreendê-la em profundidade, é preciso começar não em Nova York ou em Durban, mas em Moscou.
A URSS e a invenção do antissionismo moderno
A União Soviética foi a grande fábrica ideológica do antissemitismo moderno disfarçado de antissionismo. Após uma lua de mel inicial – a URSS foi um dos primeiros países a reconhecer Israel, em 1948 –, Moscou virou rapidamente o tabuleiro. Já sob Stalin, os judeus soviéticos eram perseguidos como cosmopolitas sem raízes; com a Guerra Fria em pleno vigor, o regime encontrou na causa palestina um instrumento perfeito para desestabilizar o Ocidente e conquistar aliados no Terceiro Mundo.
Moscou financiou, treinou e orquestrou grupos terroristas palestinos, ao mesmo tempo em que produzia e exportava propaganda que redefinia o sionismo como imperialismo, colonialismo e, finalmente, racismo
A KGB foi central nesse processo. O general Ion Mihai Pacepa, chefe da inteligência romena que desertou para o Ocidente em 1978, deixou testemunho detalhado de como Moscou financiou, treinou e orquestrou grupos terroristas palestinos, ao mesmo tempo em que produzia e exportava propaganda que redefinia o sionismo – o movimento de autodeterminação nacional dos judeus – como imperialismo, colonialismo e, finalmente, racismo. Não era uma metáfora política gratuita, mas uma campanha deliberada de engenharia semântica.
O passo mais ousado dessa campanha foi equiparar o sionismo ao nazismo. Em 1965, o Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética aprovou um documento interno que instruía os aparatos de propaganda a tratar Israel como um Estado fascista e a traçar paralelos explícitos entre a estrela de Davi e a suástica. A perversidade da manobra era diabólica: usar o Holocausto – o maior crime cometido contra o povo judeu – como arma contra os próprios judeus, invertendo vítimas e algozes. O sionismo, que nasceu precisamente da necessidade de os judeus terem um lugar seguro após séculos de perseguições e depois do extermínio nazista, era agora apresentado como a reencarnação do próprio nazismo.
Essa narrativa chegou às Nações Unidas por dois canais: os países do bloco soviético, que votavam em bloco, e os países árabes e africanos que Moscou cortejava com armas, dinheiro e discurso anticolonial. A ONU, nesse contexto, não era um fórum neutro. Era um campo de batalha da Guerra Fria, e os soviéticos jogavam para valer.
1975: a resolução que envergonhou o mundo
Em 10 de novembro de 1975 – data que o governo israelense escolheria para marcar o Dia Internacional contra o Fascismo e o Antissemitismo –, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 72 votos a 35, com 32 abstenções, a infame Resolução 3379. O texto era simples e devastador: o sionismo é uma forma de racismo e discriminação racial. Com essa frase, a ONU não apenas atacava o Estado de Israel, como também colocava o projeto nacional de autodeterminação do povo judeu no mesmo nível moral do apartheid sul-africano – a grande causa da época. A manobra era, em sua essência, uma tentativa de privar Israel de legitimidade moral perante o mundo.
VEJA TAMBÉM:
A resolução era o fruto maduro de décadas de propaganda soviética. Seu patrocínio formal revelava a coalizão que Moscou havia pacientemente construído: 25 Estados cossignatários, entre eles Cuba, Egito, Síria, Iraque, Argélia e uma série de países árabes e africanos alinhados à URSS. O vocabulário do texto – sionismo como racismo, Israel como herdeiro do apartheid, autodeterminação judaica como projeto colonial – saíra diretamente dos manuais ideológicos soviéticos. A resolução era, em suma, produto de anos de trabalho metódico de Moscou junto ao Movimento dos Não Alinhados e à Liga Árabe.
O embaixador israelense Chaim Herzog rasgou a resolução no plenário das Nações Unidas. Mais que um gesto teatral, tratava-se da única resposta honesta possível a um documento desonesto. Herzog, ele próprio filho de um rabino-chefe da Irlanda e oficial que combatera na Segunda Guerra Mundial, entendeu imediatamente o que estava em jogo: a resolução não era apenas uma afronta política, mas a continuação, por outros meios, do projeto de destruição moral do povo judeu. A Resolução 3379 seria revogada em 1991, após a Guerra do Golfo, quando os EUA fizeram de sua revogação condição para o ingresso de vários países no processo de paz de Madri. Mas o dano estava feito.
2001: o circo de Durban
Vinte e seis anos depois, em setembro de 2001, o mundo deveria ter aprendido a lição. Mas não aprendeu.
A III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância Correlata foi realizada em Durban, na África do Sul, entre 31 de agosto e 8 de setembro daquele ano – encerrando-se dois dias antes do 11 de setembro. O relato mais perturbador do que aconteceu ali vem do congressista americano Tom Lantos, sobrevivente do Holocausto e delegado oficial dos Estados Unidos na conferência. Seu artigo The Durban Debacle, publicado no Fletcher Forum of World Affairs em 2002, é um documento que todo defensor do multilateralismo deveria ser obrigado a ler.
Um cargo criado para promover direitos humanos se tornou, mais uma vez, um instrumento de perseguição ao único Estado predominantemente judeu do mundo
Lantos descreve como a conferência, concebida com o nobre propósito de enfrentar o racismo contemporâneo em todas as suas formas, foi sistematicamente sequestrada por um bloco de países islâmicos, liderados na prática pelo Irã e pelo Egito, com o objetivo declarado de transformar Israel em um pária internacional. O plano era reproduzir o que acontecera com a África do Sul nos anos do apartheid: se Israel pudesse ser equiparado àquele regime, a comunidade internacional poderia ser mobilizada para isolá-lo, sancioná-lo e deslegitimá-lo. Era, em essência, o mesmo roteiro soviético – desta vez sem Moscou para assinar embaixo.
A reunião preparatória realizada em Teerã, em fevereiro de 2001, já deu o tom. Israel foi excluído. Representantes de ONGs judaicas foram impedidos de participar. Os documentos produzidos ali falavam em limpeza étnica da população árabe da Palestina histórica, em novo tipo de apartheid praticado por Israel e em aumento das práticas racistas do sionismo. No plenário de Genebra, quando a palavra “Holocausto” aparecia no texto, delegados egípcios intervinham para substituí-la por “holocaustos”, no plural – e então inseriam a seguir a expressão e a limpeza étnica da população árabe da Palestina histórica. A manobra era explícita: equiparar o Holocausto ao conflito árabe-israelense era a velha tática soviética reencarnada, desta vez em árabe.
No fórum de ONGs, paralelo à conferência oficial, a degradação foi ainda mais explícita. Panfletos chegaram a ser distribuídos com a foto de Hitler e a pergunta: “E se eu tivesse vencido?” A resposta impressa: Não haveria Israel. A União de Advogados Árabes distribuiu um livreto repleto de caricaturas antissemitas que, segundo Lantos, eram assustadoramente semelhantes à literatura nazista dos anos 1930. Lantos, que sobrevivera pessoalmente ao Holocausto, escreveu que foi a exposição mais nauseante e desavergonhada de ódio aos judeus que presenciara desde o período nazista. O documento oficial aprovado pela maioria das 3 mil ONGs presentes classificava Israel como um Estado de apartheid racista culpado de genocídio.
Os Estados Unidos retiraram sua delegação em 3 de setembro. A conferência prosseguiu.
VEJA TAMBÉM:
O sistema que funciona como projetado
O que liga a propaganda soviética, a Resolução 3379 de 1975, a Conferência de Durban de 2001 e a relatora Francesca Albanese em 2026? A continuidade de um projeto. Não se trata de episódios isolados de má gestão institucional ou de decisões equivocadas tomadas sob pressão política. Trata-se de um fio condutor: a instrumentalização das estruturas multilaterais – primeiro pela URSS, depois por regimes que herdaram seu vocabulário e seus métodos – para conferir verniz de legitimidade internacional ao antissemitismo.
Albanese não caiu do céu. Ela é o produto de uma instituição que nunca processou adequadamente o que foi Durban, que nunca expulsou de seus mecanismos de direitos humanos os agentes que os corrompem, que mantém no Conselho de Direitos Humanos países como Cuba, China e Venezuela enquanto professa falar em nome da dignidade humana. Ela usa o mesmo repertório semântico – genocídio, apartheid, regime colonial racista – que Moscou pôs em circulação há mais de meio século e que foi depois exportado para as ruas de Durban. Ela faz exatamente o que o sistema foi construído para deixá-la fazer.
A questão não é se suas afirmações sobre Israel são verdadeiras ou falsas – embora sejam, em grande medida, falsas e inflamatórias. A questão é que um cargo criado para promover direitos humanos se tornou, mais uma vez, um instrumento de perseguição ao único Estado predominantemente judeu do mundo. Isso tem nome. E chamar as coisas pelo nome não é provocação, mas um dever moral e intelectual.
Francesca Albanese comemorou sua vitória judicial. Tem razão em comemorar: o sistema que a abriga está funcionando exatamente como sempre funcionou. O pós-7 de outubro de 2023 só o tornou mais descarado.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








