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A família imperial russa em foto de 1913, com o czar Nicolau II Romanov ao centro.
A família imperial russa em foto de 1913, com o czar Nicolau II Romanov ao centro.| Foto: Wikimedia Commons/Domínio público

Por volta de meia-noite de 17 de julho de 1918, Yakov Yurovsky, comandante bolchevique do pelotão de fuzilamento, entrou de supetão nos aposentos dos Romanov, que dormiam. Ali, o chefe dos assassinos ordenou que se vestissem depressa, informando ao czar Nicolau II que ele e sua família seriam conduzidos para o andar térreo da Casa Ipatiev, em Ekaterimburgo (Sibéria). Com o possível avanço do Exército Branco sobre a cidade, os cômodos localizados nos andares superiores ficariam expostos a eventuais disparos, disse Yurovsky, justificando a mudança, portanto, como medida de segurança dos prisioneiros. Em coisa de 40 minutos, o czar, sua esposa, seus cinco filhos, mais o médico da família e três serviçais estavam prontos. Àquela altura, ainda não tinham ideia de seu real destino.

Para descer as escadas, Nicolau II teve de levar Alexei no colo, pois a hemofilia aleijara o ex-herdeiro do trono, então com 13 anos, tornando-o incapaz de andar. A czarina Alexandra veio logo em seguida, caminhando com dificuldade por conta de dores ciáticas crônicas. Atrás desceram as filhas, segurando pequenos travesseiros (onde se haviam escondido joias da família), e a mais nova delas, Anastácia, também o cachorrinho da família, um King Charles Spaniel chamado Jemmy. Na sequência, vinham o médico e os serviçais. “Não havia sinais de hesitação ou suspeitas” – disse Yurovsky mais tarde. “Sem lágrimas, soluços ou questionamentos.”

Ninguém pode fingir que a execução sumária de uma família indefesa dentro de um porão escuro poderia ter sido algo menos que brutal – ninguém, a não ser uma certa colunista de um certo jornal brasileiro

Finda a descida, foram imediatamente conduzidos para um quarto subterrâneo e – eis, decerto, o primeiro sinal de que algo não ia bem – desmobiliado. A pedido da czarina, duas cadeiras foram trazidas (“decerto quer morrer sentada”, comentou à socapa um dos soldados bolcheviques). Alexandra acomodou-se numa; Alexei, noutra. Ato contínuo, Yurovsky começou a dar instruções, organizando os prisioneiros em fila contra a parede, a pretexto de tirar uma fotografia, a título de prova de que não haviam escapado.

Formaram-se duas fileiras. Na dianteira, Nicolau ocupou a posição central, tendo à sua direita a cadeira de Alexei, e, à sua esquerda, a de Alexandra. Na fileira de trás, restaram as filhas, o médico e os serviçais. Satisfeito com a distribuição dos condenados, Yurovsky deu ordem para a entrada de 11 guardas armados, que se posicionaram atrás dele. Face a face com o czar, o chefe dos assassinos apanhou um pedaço de papel e leu o seguinte comunicado: “Tendo em vista que você e seus parentes continuam a atacar a Rússia soviética, o Comitê Executivo de Ural decidiu executá-los”. Diante do espanto de Nicolau, o comandante repetiu os dizeres de modo apressado e, em seguida, disparou à queima-roupa contra o czar.

A senha foi dada para que os demais guardas disparassem suas armas, cada qual num alvo predeterminado, para agilizar o processo. A czarina e a filha mais velha, Olga, chegaram a tentar fazer o sinal da cruz, mas não tiveram tempo. Ambas morreram rapidamente, bem como o médico e dois dos serviçais. Alexis, as outras três meninas e a senhora Demidova, criada pessoal de Alexandra, continuavam vivos, situação de frenesi e assombro para os assassinos, que ora disparavam como loucos.

Quase invisíveis pela fumaça, Marie e Anastácia encolheram-se contra a parede, cobrindo o rosto com as mãos, até que as balas as estraçalhassem. Agonizando no chão, Alexei tentava se proteger com o braço, e em seguida agarrou a manga da camisa do pai morto. Um dos assassinos chutou-lhe o rosto com o pesado coturno. Alexei gemeu. Aproximando-se, Yurovsky disparou duas vezes sua Mauser contra o ouvido do rapaz.

Tendo sobrevivido à primeira carga, e demonstrando uma resistência física quase sobrenatural, a criada Demidova foi triturada por baionetas. Tingido de sangue, o aposento silenciou por um instante. Ao transportar os cadáveres envoltos em lençóis para um caminhão estacionado em frente ao portão de Ipatiev, Yurovsky notou o gemido ainda agonizante de uma das filhas. Ato contínuo, desabou sobre a moribunda uma chuva de baionetas e coronhadas, consagrando, enfim, o silêncio da morte. Com a família inteira no caminhão, alguém avistou ainda o cadáver do pequeno cachorro de Anastácia, Jemmy, cujo crânio fora esmigalhado por golpes de coronha. Seu pequeno corpo inerte foi lançado junto aos dos Romanov.

Conforme o relato detalhado de Robert Massie em The Romanovs: The Final Chapter, assim foi a execução do último czar russo e de sua família, mortos pelos bolcheviques no rescaldo da revolução de outubro de 1917, por ordem direta de Vladimir Lenin. Se você é uma pessoa normal, decerto está horrorizado com tamanha covardia, e pode optar por não pensar muito no assunto. Se você é um revolucionário comunista, pode até se regozijar com a violência “redentora” (não houve, em plena Câmera dos Deputados, uma sessão solene celebrando o centenário da Revolução que instituiu o regime mais genocida da história humana?). O que ninguém pode fazer, contudo, é fingir que o ocorrido não foi assim, e que a execução sumária de uma família indefesa dentro de um porão escuro poderia ter sido algo menos que brutal.

Para a redenção de Gancia, pouco mais de 25 palavras. Vapt, vupt. Agora a reaça estava aqui. Agora, não está mais

Digo “ninguém pode fazer” e já me arrependo. Porque, sim, uma jornalista brasileira – sintomaticamente, colunista do jornal que publica apologias abertas à morte do presidente da República – foi capaz de fazê-lo, transformando, com um abracadabra retórico, a violência brutal em chiste, brincadeirinha, quem sabe até inspiração para a ação política (sugerida mui graciosa e metaforicamente, é claro). Em artigo condenando o que chamou de “ócio improdutivo” do casal príncipe Harry e Meghan Markle, Barbara Gancia escreveu: “Bem fizeram os bolcheviques que liquidaram a família inteira do czar Nicolas de forma profissional e incontroversa diante de um pelotão de fuzilamento. Vapt, vupt. Agora estão aqui. Agora não estão mais”.

É preciso compreender a ânsia de Gancia, e de onde vem, por assim dizer, esse seu bolchevismo cultural. Certa vez, em agosto de 2008, a pobre coitada cometeu o deslize de publicar o texto “Olavo viu o ovo”, em que elogiava a presciência de Olavo de Carvalho sobre o Foro de São Paulo e o projeto socialista latino-americano, do qual o PT fazia parte. Escreveu ela na ocasião: “Há anos, Olavo de Carvalho vem batendo na tecla do Foro de São Paulo e, há anos, eu venho dizendo que ele não passa de um alarmista... Todas as vezes em que vi Olavo de Carvalho alertar sobre o Foro de São Paulo e dizer que a turma que lá se reúne tinha segundas intenções, e que eles mentiam deslavadamente quando negavam a que vinham, eu achava que fosse alguma forma de senilidade precoce sua, um cacoete de quem está fora do país há tempo demais e não percebe que, aqui na terrinha, a democracia prevaleceu e se consolidou. Pois, a julgar pela extensa reportagem publicada na revista colombiana Cambio, sobre o envolvimento de autoridades petistas com as Farc, Olavo de Carvalho esteve certo todos esses anos”.

O radicalismo de pantufas e o bolchevismo prêt-à-porter traduzem uma busca desesperada da aprovação do “coletivo” das redações e estúdios

Não sei detalhes do que a infeliz experimentou a partir de então em seu meio profissional, mas decerto foi tão excluída e marginalizada por ter falado bem de Olavo que não aguentou o tranco e pediu penico. Desde então, suplica para que a aceitem de volta no clubinho “progressista”, de onde foi expulsa à base de olhares tortos e risadinhas pelas costas (“Ih, a Barbara enlouqueceu. Virou reaça. Agora deu até para citar Olavo de Carvalho”). Daí a ostentação constante de seu radicalismo de pantufas, de seu bolchevismo prêt-à-porter, que traduzem uma busca desesperada da aprovação do “coletivo” das redações e estúdios.

Talvez agora, com esse elogio à execução revolucionária de membros da monarquia, Barbara Gancia tenha, enfim, sido redimida. A filha pródiga retorna ao aconchego da patota lacradora e prafrentex. De acordo com o comandante Yurovsky, bastaram pouco mais de 25 minutos para a execução e remoção dos corpos dos Romanov. Para a redenção de Gancia, pouco mais de 25 palavras. Vapt, vupt. Agora a reaça estava aqui. Agora, não está mais. É já a revolucionária quem sobe aos céus, onde está sentada à direita de Astrid Fontenelle no programa Saia Justa, que é o seu paraíso.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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