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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern

A tentação eterna

A Odisseia acontece neste momento, em nossas vidas

Um dos erros mais comuns da crítica literária é tratar os clássicos como histórias separadas da nossa vida. " "Ulisses e as Sereias" (1891), de John William Waterhouse. (Foto: National Gallery of Victoria/Wikimedia Commons)

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Para meus alunos no meu Clube de Leitura, sempre alerto que literatura não é nem fantasia inconsequente nem historicismo realista. É algo muito superior: é a grande imaginação humana lidando com os limites da existência, a grandiosidade da vida que nem sempre percebemos em nosso cotidiano, nas conversas comezinhas e na banalidade de nossas preocupações apressadas. É exatamente por isso que A Odisseia é tão importante – e, com seus ciclopes, bruxas e sereias, é capaz de nos falar muito mais sobre nossas vidas em 2026 do que as notícias de hoje.

Podemos fazer um breve exercício. Um dos problemas fundamentais do mundo atual circunda os jovens – principalmente os do sexo masculino. São eles que parecem perdidos, sem rumo, torrando seu tempo em passatempos sem futuro. Mesmo quando são talentosos, sentimos neles apenas um infinito desperdício de suas faculdades.

Observando a mesma ferida aberta pelo prisma da revolução sexual, os jovens do sexo masculino demoram cada vez mais a assumir seus papéis sociais de homens – provedores, protetores, capazes de compreender a alma e o corpo femininos. É exatamente essa adolescência tardia, sem um código de conduta como o da cavalaria medieval, que é o combustível de ideologias ruins, como o feminismo.

Os jovens hoje demoram a trabalhar, estão dispersos para o estudo; até sua diversão é infrutífera – dos joguinhos e redes sociais às bets, nada do que fazem tem um caráter formativo – no máximo informativo, geralmente performativo. Muitos, inclusive, vivem de bens que não são seus, desperdiçando não apenas o dinheiro de seus pais, mas, não raro, o de pessoas alheias – ou vivendo aboletados em programas estatais, sem nenhum compromisso com a própria civilização da qual são dependentes.

O que lemos logo nas primeiras páginas da Odisseia? Os ditos “pretendentes” – ao contrário do que o filme de Christopher Nolan retrata, a maior parte deles tão jovem quanto Telêmaco – estão todos esbulhando os bens do palácio de Ítaca. Tratam Telêmaco com desprezo e consideram-se os verdadeiros “donos”, ou portadores do direito ao usufruto, de todos os bens do rei Odisseu. Estão todos, inclusive, exigindo que Penélope, que ainda não tem certeza se é viúva, escolha um deles para casamento, ansiando por sua cama. O que fazem o tempo todo é viver em banquetes que tomam como obrigação da família real lhes prover (banquetes devem existir para os deuses, revelando um sacrilégio, além do esbulho e da tentativa de tomar o corpo da rainha).

Nenhum oferece a mais remota vocação para ser rei, gastando seu tempo com o jogo de dados (só faltou o patrocínio de uma Bet) – nem ao menos se ocupam com uma diversão mais importante para uma sociedade guerreira, como a luta ou a caça. Comem da comida da casa real, apenas exigindo ainda mais a cada dia. Pelo que observamos na assembleia convocada por Telêmaco no canto II (cena só aludida no filme), são, em sua maioria, jovens cujos pais pereceram na Guerra de Troia. O exato clichê de uma geração de pais ausentes, sem figuras masculinas adultas para conduzir seus passos. Há um parentesco perigosamente próximo entre a geração nem-nem e os “pretendentes” de Penélope.

Devemos ainda lembrar que esses “pretendentes” estão sendo aceitos em um palácio (um Estado) que não tinha nenhuma obrigação moral de atendê-los. Observando a Europa hoje e seus “refugiados”, que, em questão de menos de duas décadas, estão querendo trocar as leis civis europeias pela sharia, podemos observar a diferença entre Penélope, sabendo que está a um passo de ser estuprada, e a ideologia moderna, com seus cartazes “Refugees welcome!”, sem ter consciência do que está fazendo com o futuro das mulheres.

Telêmaco precisa aprender a ser um homem (com ajuda divina), e Odisseu precisa aprender a ser um pai (com a mesma ajuda divina). A geração de pais ausentes, no século XXI, multiplica os “pretendentes” sem nunca voltar à ordem e também comete a mesma hybris, a arrogância trágica que cega a tantos: negar seu papel de criaturas necessitadas da divindade.

Este mundo em desordem gera uma constante sensação de nostalgia – mesmo de um passado desconhecido. Nostos é justamente o tema da Odisseia: o retorno. Mas Odisseu volta como o mesmo homem? Ítaca é a mesma ilha? Sua esposa ainda é a mesma (ainda mais depois de ouvir o que ouviu sobre Clitemnestra)? Odisseu tem uma escolha, no limite máximo da existência, em suas mãos. Pode viver com Calipso, uma ninfa com volúpia infinita, eternamente jovem, que o alimenta indefinidamente e ainda lhe dá imortalidade – ou pode voltar para seu lar e sua esposa (já nessa época, ao menos uma quarentona) – e seu filho, que nem conhece.

Escolha difícil? Calipso não pode oferecer a Odisseu exatamente a única coisa de que realmente sentimos falta em nosso mundo moderno, em que a escassez é tão disfarçada artificialmente: sermos nós mesmos. Chamarmos nossa casa de lar. Termos uma história. Deixarmos um legado. Viver uma missão e chegarmos ao fim de nossas vidas cheios de feridas – mas tendo vencido a nós mesmos, ou morrer tentando. Uma escolha que o mundo moderno pode disfarçar tão bem quanto Calipso – mas cujo significado nenhum encanto pode esconder.

E quantos cantos de sereias ouvimos todos os dias? Quantas promessas de um futuro glorioso e fácil, quantas glórias externas e inorgânicas, que sabemos serem mentiras, mas continuamos ouvindo mesmo assim? Mesmo da perspectiva cristã, é difícil imaginar cena mais forte sobre tentação – e sempre sabemos que a tentação é errada.

Novamente, o canto das sereias sempre nos promete fugir de nós mesmos

Devemos pensar ainda que Odisseu encontra os lotófagos (no filme, infelizmente, Hollywood preferiu misturar a cena dos comedores de lótus com a de Calipso, com o próprio Odisseu querendo “se esquecer”, criando uma mensagem bagunçada e completamente alheia ao poema).

Talvez seja a lótus uma das marcas modernas mais reconhecíveis. A tentação de esquecer. Pode parecer poético, mas é muito social e factual: as redes sociais e seus algoritmos infinitos, sem um ontem (quem hoje lê um livro, se é tão urgente “ler” o Instagram e o X?), as diversões frívolas, os ansiolíticos, a fuga ideológica e química da ansiedade da vida, as drogas, o celular na mão o dia inteiro, os relacionamentos descartáveis, a realidade filtrada por um algoritmo. Quantas lótus nós temos ao nosso redor – e das quais nunca nos livramos?

Existe um ensinamento em literatura que sempre friso aos meus alunos para nunca, ora, se esquecerem: a grande literatura não é apenas sobre histórias de grandes homens em um passado fantasioso, do qual não temos nada a aprender. A história de Odisseu, afinal, é a nossa história. Por isso é tão grandiosa – e tão dolorosa. E nenhuma lótus e nenhuma ninfa podem nos permitir esquecer de que Ítaca é uma missão nossa.

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