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O que raios é a direita brasileira na década de 2020? Consultando-se a Wikipedia (como aproximadamente 200% dos estudantes o farão nos próximos anos), aprenderemos que o “bolsonarismo é um fenômeno político de extrema-direita e cariz fascista que eclodiu no Brasil com a ascensão da popularidade de Jair Bolsonaro” (sic).
Acha pouco? Consultemos o segundo parágrafo:
“O bolsonarismo foi a ideologia predominante do governo Bolsonaro e é associado à retórica de defesa da família, do patriotismo, do conservadorismo, do autoritarismo, de elementos neofascistas, do anticomunismo, do negacionismo científico, do porte de armas, da rejeição aos direitos humanos e da aversão à esquerda política, bem como ao culto à figura de Bolsonaro, frequentemente chamado de ‘mito’. O escritor Olavo de Carvalho é frequentemente citado como tendo sido o guru da ideologia bolsonarista.”
Autoritarismo. Elementos neofascistas. Negacionismo científico. Rejeição aos direitos humanos. Olavo de Carvalho é um “guru” da “ideologia bolsonarista”.
Embora Bolsonaro não tenha uma ideologia criada por ele próprio, “seus seguidores — chamados pejorativamente de bolsominions — divergem entre os que concordam com Bolsonaro e os que ostentam o termo para expressar sua posição política”.
Deve ser uma das frases mais mal escritas de toda a Wikipedia. Acha que está muito ruim? Calma, tudo foi light até agora. Ainda no início do artigo, um parágrafo ominoso encerra a introdução: “O bolsonarismo tem atraído diversos seguidores e fanáticos, que, em nome de Jair Bolsonaro ou com base em suas ideias, realizaram diversos ataques extremistas e/ou atos terroristas, como os ataques de 8 de janeiro em Brasília e o atentado em Brasília em 2024. Na política, figuras do bolsonarismo, como Eduardo Bolsonaro, têm buscado angariar punições e sanções internacionais para o Brasil, de modo a livrar Jair Bolsonaro de ser legalmente julgado de acordo com as leis brasileiras, o que desencadeou um tarifaço norte-americano contra o país. Do mesmo modo, deputados bolsonaristas, com apoio de partidos como União Brasil, PP e Novo, têm tentado interditar, intimidar, desestabilizar e causar impedimento do funcionamento dos órgãos legais do Legislativo (Senado e Congresso) como forma de chantagem para seus objetivos, como dificultar a votação de projetos do governo em benefício do trabalhador (tais quais a isenção do Imposto de Renda) e tentar livrar Jair Bolsonaro e envolvidos na tentativa de golpe e extremistas dos ataques de 8 de Janeiro. Os apoiadores de Bolsonaro também ameaçaram repetidamente matar autoridades e políticos brasileiros.”
O bolsonarismo tem atraído “fanáticos” (nem é preciso um substantivo, apenas um adjetivo valorativo e pejorativo, além de impreciso). Houve ataques “extremistas e/ou terroristas” (lembrando que dizer que Lula tem ligações com o Hamas rende cadeia). As sanções são para “livrar Bolsonaro de ser legalmente julgado de acordo com as leis brasileiras”, como se os processos do 8 de janeiro seguissem uma única lei brasileira — nem mesmo o princípio constitucional de um juiz diferente do acusador e que não seja a suposta vítima do processo houve. Os deputados “bolsonaristas” — até do Novo — têm “impedido o Legislativo de funcionar” como “chantagem”, para dificultar “projetos do governo em benefício ao trabalhador” (estamos lendo a Wikipedia ou o site do PT?), como se o projeto de suposta isenção de Imposto de Renda do PT (compensado com aumento de imposto sobre consumo — a ideia que mais vai manter os trabalhadores sem poder de compra do Universo) tivesse alguma coisa a ser comentada no verbete “bolsonarismo” de uma enciclopédia. E, claro, os apoiadores de Bolsonaro (cerca de metade de quem está lendo o verbete) “também ameaçaram repetidamente matar autoridades e políticos”.
Isto tudo só na introdução do artigo. O bolsonarismo é descrito como sendo uma ideologia com elementos, entre outros, de “neoliberalismo” (o bolsonarismo agora é tucano?), militarismo, messianismo (esse povo leva a sério os xingamentos que proferem!), negacionismo, neofascismo, olavismo e mais um monte de substantivações de xingamentos. Tem até “fundação ideológica” (!) em 2018.
Existe algo no jornalismo chamado linguagem marcada. É quando um texto, sutil e disfarçadamente, direciona o sentimento do leitor
Existe uma diferença entre escrever que “jurista aponta elemento de nulidade em processo” e “jurista bolsonarista diz ver nulidade em processo”. 99% do jornalismo da grande e velha mídia, hoje, é calcado nessa repetição de marcas sentimentais. É um jornalismo histérico.
A Wikipedia, que afirma ser uma “enciclopédia”, tem verbetes escritos da mesma maneira histriônica, teatral e barraqueira. Tudo parece um grito, um xingamento, um bate-boca, uma valoração subjetiva, um manifesto panfletário da ala radical do Psol. A Wikipedia será fonte de praticamente todos os trabalhos estudantis do país nos próximos anos, quando professores mandarem fazer pesquisas sobre o que é a tal direita. Ela também é fonte prioritária do ChatGPT e de outras inteligências artificiais.
Por outro lado, o lulismo é descrito como um “fenômeno político de esquerda ocorrido no Brasil em torno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Criado durante a campanha presidencial de 2002, representando um novo plano em relação aos ideais de esquerda adotados pelo Partido dos Trabalhadores até o final de 2001, buscando transformações sem confrontar o capital”. Que fofura.
É descrito como progressista, social-democrata, centro-esquerda e keynesiano. Nada sobre mensalão, nada sobre petrolão. Nenhum muxoxo sobre Odebrecht, o triplex da OAS, a Andrade Gutierrez, o sítio em Atibaia, os irmãos Batista, a compra de votos, o maior escândalo de corrupção do Ocidente, a economia dirigida pelo favorecimento dos grandes monopólios, que respondem com apoio em dinheiro, midiático e de lobby ao PT.
O que há sobre apoio ao Irã, Hamas, chavismo, ditaduras da Rússia e da China? E operações com doleiros, roubos de fundos de pensão, financiamento de ditaduras, “polêmicas” em eleições? Que tal sobre os juízes lulistas que mandam no Brasil segundo sua própria cabeça, transformando o país em um novo totalitarismo burocrático? Nada. Basicamente, há elogios. Quando se lê mais um parágrafo, até um cheiro de maçã verde domina o ambiente.
E que tal o artigo sobre as eleições de 2022? Será que começa com a festa que aconteceu no TSE quando Alexandre de Moraes assumiu a presidência, no primeiro caso de partida com comemoração de quando o juiz entra em campo?
Será que, na introdução, leremos que foi a primeira eleição do Brasil sob censura confessada por Cármen Lúcia, que censurou até um documentário que não havia sido finalizado para não prejudicar o candidato dos próprios juízes?
Logo após, deve haver um panorama sobre tudo o que o TSE proibiu que Bolsonaro dissesse, tendo como contrapartida apenas que não deixou André Janones chamar Bolsonaro de “canibal” (sic). Depois, devem estar elencadas a quantidade de fake news do PT para se eleger […], culminando em todas as polêmicas por trás do 8 de janeiro […].
Bem, o que lemos é que “Bolsonaro espalhou constantemente desinformação sobre as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral”. Já temos o nosso novo bezerro de ouro a ser idolatrado, e sobre o qual não se pode nem olhar torto. Logo a seguir, trocando-se o sujeito da sentença sem aviso, o artigo afirma que “outra preocupação [do STF] são as redes sociais e aplicativos de mensagem. Dentre estas, estava o Telegram, que ignorava ordens jurídicas do Brasil”. Dá até a impressão de que as “ordens judiciais” seguiam a lei — e não que eram ordens surtadas, que iam contra a lei e apenas demandavam censura, só que vindas de pessoas ocupando cargos judiciais. Nenhum esgar de reprovação à clara censura partidária durante uma eleição.
Vamos a mais substantivos e adjetivos imprecisos, de caráter desequilibrado e sensacionalista, sem uma única substância por baixo? O trecho a seguir é uma aula de como causar histeria coletiva sem nada substancial:
“As decisões do TSE apontam reiterada prática de abrir espaço ‘para especulações, sem nenhum fundamento em evidência fática, sobre conchavos políticos e sobre imaginária manipulação de pesquisas e mesmo dos resultados das eleições’ e a exploração ‘de forma recorrente e calcada apenas na percepção subjetiva dos diversos comentaristas, do sentimento de medo, procurando-se incutir nos ouvintes que riscos como um ‘golpe de esquerda’, fechamento de igrejas e domínio do crime organizado rondam o cenário eleitoral’.”
Cale a boca e obedeça. É assim na democracia. Do contrário, é “especulação sem nenhum fundamento em evidência fática sobre conchavos políticos e imaginária manipulação de pesquisas e resultado eleitoral”.
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É possível descrever o bicho-papão com mais frieza científica do que a Wikipedia citando o TSE para justificar censura pura e simples de pessoas com dúvidas sobre a semiabsoluta ausência de auditoria do sistema
Alguém vai contar essa história para nossas crianças, e certamente serão professores formados em trotskysmo, com depilação atrasada e ausência de leituras fora do dogmatismo acadêmico, escudados, amparados e guiados pela Wikipedia.
Se a direita tomasse conta do passado (ainda mais quem se julga “conservador”), ganharia muito do futuro. É preciso ter um movimento amplo para cuidar do imaginário, dos valores e da transmissão de uma herança cultural, intelectual, moral e religiosa para as próximas gerações, e a parte externa desse movimento está totalmente entregue à esquerda: uma aparente bobagem (e só aparente) como a Wikipedia.
Mais do que uma disputa por cargos, a disputa pela história se reflete em gerações. A esquerda tem ONGs, associações, muito dinheiro investido em órgãos que, além de nos censurar, ainda contam a história, como vencedores, de que estão censurando pela democracia. Alguém está contando essa história. E infelizmente não somos nós.




