Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern

A realidade vence o discurso ideológico

Crime e economia: onde a esquerda não controla o imaginário

Lula
A direita costuma dominar áreas técnicas, enquanto a esquerda domina a linguagem. Quando se trata de perder dinheiro, por crime ou inflação, a esquerda sempre perde. (Foto: André Borges/EFE)

Ouça este conteúdo

Lula voltou de um encontro com Trump – o primeiro, em décadas, de um país importante como o Brasil que prescindiu da tradicional entrevista coletiva posterior – apresentando dois planos na mesma semana (a primeira vez em que parece ter lembrado que é presidente nos últimos 3 anos). O primeiro envolveu o cancelamento da taxa das blusinhas, que ele próprio criou, e um plano de combate à criminalidade, que parece ter virado uma pauta bem quando precisa se reeleger.

As duas pautas – economia e criminalidade – estão intrinsecamente ligadas e apartadas do discurso médio da esquerda. O domínio quase hegemônico da esquerda dá-se em áreas ligadas principalmente ao imaginário coletivo. Os marxistas são presença obrigatória na crítica literária e social, nas artes, no jornalismo, na história – mesmo em áreas como a análise de religiões ou a psicologia. Os direitistas, quando tinham alguma presença, eram em áreas técnicas, como o direito, a economia ou as disciplinas mais científicas.

Porém, a perda do dinheiro – seja em um assalto, seja evaporado por políticas econômicas desastrosas – é algo sentido mais imediatamente, sem a mediação da imaginação, da ideologia, da afetividade artificial a um político longínquo, do qual só se conhece recortes pré-selecionados. Por isto, justamente as duas áreas são mais “sentidas” em épocas eleitorais – mais até do que a educação, sempre desprezada por ter seus efeitos sentidos apenas em uma geração, ou mesmo a saúde, que depende de uma complexa trama de políticas, nem sempre facilmente associadas a uma ideologia, ou mesmo a um nome.

Já a perda de patrimônio é sentida pelo órgão mais sensível do corpo humano: o bolso. Logo, o tema é bem mais doloroso para a esquerda do que para a direita.

O pensamento revolucionário/reformista mede qualquer ação presente pelos delírios de grandeza de uma sociedade futura perfeita, acreditando que abolir a desigualdade social resolva todos os problemas do Cosmo

VEJA TAMBÉM:

Como a desigualdade social anda fora de moda na era da tecnologia (quem é tonto de propor estatizar a Apple?), resta trocar para outras desigualdades, principalmente a do tripé raça-gênero-sexualidade (além de imigração em países ricos e aquecimento global para transferir mais poder para gente que não sabe a diferença da emissão de oxigênio entre um bambu e um cacto).

Mas, enquanto a esquerda trabalha por uma futura sociedade vegan, transmuçulmana, ciclista, pansexual, crossfiteira e mãe de pet, a realidade continua batendo na porta. E, às vezes, no vidro do carro, exigindo celular, aliança, senha do banco e talvez fazendo um sequestro-relâmpago, com alta possibilidade de violência sexual.

Em épocas eleitorais, a esquerda tende a esconder ou maquiar números de homicídios, roubos ou mesmo os mais lights, inflação e poder de compra, assim como tenta escantear seus discursos mais atrevidos – todo debate com um político esquerdista gera uma mentira quando a pergunta envolve aborto, como Lula, que já defendeu como direito da mulher e como algo que ele nunca defenderia, com a diferença de poucos dias, em 2022. E como não lembrar do mesmo Lula criticando “essa coisa demoníaca” de achar que homem pode virar mulher no mesmo ano eleitoral – o que não foi explorado nem colocado em debate em momento algum?

Os dois temas têm ainda algo de extremo interesse para a direita: além de se desejar viver em uma sociedade de segurança, em que a renda aumente de geração para geração, quer-se deixar um legado. Uma herança (embora não seja uma boa estratégia proferir tal palavra em volume alto, senão o Haddad pode colocar um imposto). Foi o tema de músicas e livros que falam de famílias por todo o Ocidente: o bisavô analfabeto que cuidou da terra, o avô que veio para a cidade, trabalhou igual um camelo e deixou uma casinha para o pai, que comprou um carrinho no fim da vida, até que o filho foi fazer faculdade.

Se isto parece uma ascensão, como lidar agora com os preços do governo Janja-STF? Se um bisavô analfabeto alimentava uma família de 7 filhos há 3 gerações, como alguém sai da faculdade hoje e não consegue pagar o aluguel de uma kitnet sem fazer dívida com o banco, e correndo o risco eterno de tomar um tiro no rosto em troca de um celular a cada quarteirão?

É um tema que poderia ser explorado em canções, filmes, livros – principalmente a ficção, onde as ideias mais maduras vivem, ao contrário da não-ficção. Como deixar algo para o futuro, se todos, principalmente os jovens, perderemos tudo para agentes que ignoram nossas vidas enquanto imprimem dinheiro, pagam passagens para a Janja e comitiva e nos deixam com medo de cada esquina e moto que passa? Não à toa, em uma sociedade sem amanhã, os jovens são imediatistas, a favor do aborto e sem esperança em uma vida metafísica além da própria autoconsumação em prazeres anestésicos.

A verdade é que o pensamento progressista, que aponta tanto para um futuro utópico, nos rouba morbidamente justamente qualquer possibilidade de um amanhã.

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.