
Ouça este conteúdo
A reportagem “The end of reading is here”, de Rose Horowitch, na revista The Atlantic, varreu o mundo das letras nesta semana. A autora revela que a quantidade de pessoas que leem por prazer na América diminuiu em 43% entre 2004 e 2023. Americanos podem até devorar sentenças, mas não conseguem mais pensar profundamente sobre um texto que seja mais longo do que um post de Instagram. Cerca de 30% dos adultos americanos são incapazes de fazer uma paráfrase ou extrair inferências de um texto com mais de uma página. Em 2017, esse número permanecia abaixo dos 20%.
Os dados são ainda mais alarmantes entre os jovens. No equivalente ao nosso colegial, os jovens que leem foram minguando nas últimas décadas. Entre 1984 e 2025, a quantidade de jovens de 13 anos que alegaram raramente ou nunca ler por diversão passou de 8% para 29%. Quanto menor a idade do jovem, mais ele tende a encarar a leitura como algo ultrapassado e supérfluo – muitas vezes sem nem entender como a prática da leitura pode ser associada a alguma forma de lazer.
Se os americanos precisam enfrentar o vício em celular, os brasileiros precisam enfrentar o vício em celular, o paulofreirismo e um sistema educacional inspirado no fascismo italiano que valoriza qualquer forma de pensamento, exceto o abstrato, lento e profundo. É preciso olhar com cobrança para o Vale do Silício (provavelmente pesquisando pelo… celular) no caso de um país razoavelmente livre como os Estados Unidos, mas também é preciso notar outros fenômenos mais descarados no caso de um país autoritário como o Brasil.
A despeito da briga da ditadura brasileira atual com o Vale do Silício, em um aspecto ambos estão de mãos dadas: no quanto preferem uma população que não lê. Regimes ditatoriais, principalmente as ditaduras contemporâneas, amam que as pessoas estejam entretidas, sem nunca se formarem.
Antigamente, ditadores queimavam bibliotecas. Hoje, precisam apenas de pessoas com o celular na mão, passando na frente de bibliotecas todos os dias como passam por uma lixeira
Há um paradoxo comentado por muitos: nunca se leu tanto, mas não se lê literatura, filosofia ou qualquer obra que forme, e não só informe. O paradoxo é apenas aparente: no mundo tecnológico, as pessoas “leem” apenas redes sociais, cujos conteúdos reproduzem a rapidez simplificante do marketing, e o WhatsApp. O que é uma conversa constante, apenas por escrito. Ou seja, nunca passamos tanto tempo hipnotizados por anúncios e jogando conversa fora. Basicamente, uma continuidade mais lucrativa da televisão.
A “economia da atenção” é a dinâmica em que donos de algoritmos lucram muito com o vício das pessoas em redes sociais, quanto mais viciadas e menos conscientes elas estiverem. As vítimas acreditam mesmo que estão “informadas” ao passar o dia lendo redes sociais, com conteúdos determinados por algoritmos.
Nunca pensam que não conseguem mais permanecer cinco minutos diante de um texto sem figuras, anúncios, interações simplificadas (como arrastar para o lado) e alguma forma de vídeo. É o mesmo efeito que criticavam na MTV nos anos 90: imagens passando rapidamente, sem tempo para a reflexão. Algo mais próximo da hipnose do que da meditação.
Um fenômeno curioso se somou a esse comportamento coletivo, que já foi chamado de “McDonaldização da Sociedade” por George Ritzer ainda em 1993. Trata-se da extrema politização da vida.
No Brasil e no mundo, principalmente de 2013 para cá, todas as relações humanas passaram a ser mediadas pela política – quando a política é que deveria ser avaliada pelo quanto possibilita ou atrapalha o nosso convívio. Antes de 2013, era normal termos amigos de esquerda e de direita, e nossas conversas envolverem mais brigas por conta de futebol ou de gosto musical do que por partidos políticos. O comum era termos diversos assuntos.
Depois do impeachment e da prisão de Lula, da eleição de Trump e da de Bolsonaro, a convivência tornou-se quase impossível. Não há outro assunto além da política – e não estamos falando da grande ciência política ou de uma filosofia social, e sim da política partidária mais rasteira e mesquinha.
Os donos do poder tiveram como resposta a esses movimentos medidas cada vez mais autoritárias, mas envernizadas pela palavra “democracia”. A contrarreação das pessoas foi… falar mais de política em redes sociais. Mas falar muito de política em redes sociais, passar a vida falando de política em redes sociais, conversar em bares tendo como assunto o que se falou de política em redes sociais. Há youtubers e instagramers especializados no que as pessoas falam de política em redes sociais, e programas de rádio e TV comentam o que pessoas falaram de política em redes sociais.
Muitos comemoram a dita “politização”, ou seja, as pessoas supostamente teriam “consciência” política hoje por repetirem discursos e comentarem o que outras pessoas falaram sobre deputados e jornalistas. No entanto, a politização é um fenômeno rasteiro que também flerta com a alienação. Passar a vida monotematicamente já não é uma garantia de um futuro louvável. Pior ainda quando essa conversa constante, afastada de livros, não é nada mais do que uma… conversa. Algo muito mais próximo de uma velha fofoqueira do que de um Klemens von Metternich.
Com celulares e sem livros, as pessoas, na prática, estão apenas entretidas. Novamente, a dinâmica panem et circenses. Quanto mais creem que se tornaram perigosas ao poder por falarem de política partidária, mais as pessoas estão voltando à alienação da novela, do futebol e dos programas de besteiras no domingo (todos estão no X e no Instagram 25 horas por dia, com comerciais ainda mais constantes).
Ditadores sempre gostaram de pessoas sem leitura. Claro, sempre se vai citar o caso do Terceiro Reich como uma contraprova, já que aquele austríaco de bigodinho esquisito foi alçado ao poder pelo povo mais culto do globo. Não é bem verdade: apesar de um apoio massivo de professores, as ditaduras da década de 1930 ficaram marcadas pelo uso extensivo do rádio, com intelectuais daqueles idos já reclamando do abandono dos livros pelas pessoas.
O rádio – e, hoje, a internet – permite um discurso robótico, massificado e simplificado. Só vence na era do algoritmo quem sabe repetir tudo de maneira marqueteira, para outras pessoas repetirem ainda mais. As tais “palavras-chave”. Reveja seu youtuber preferido e veja quantas frases de efeito ele vive repetindo. Entre no perfil das pessoas que discutem com você sem que você nunca as tenha visto na vida e note os mesmos discursos, que não preenchem uma linha, xerocados ali. Perceba que, até chegar a esta parte do artigo, você já se viu tentado a largá-lo para checar as redes sociais umas três vezes.
Falar o dia inteiro de notícias e repetir nomes de políticos não é uma ameaça aos políticos e burocratas do outro lado. É o que os ditadores mais querem. É até um afago no ego. Ainda mais com linguagem reducionista e uma massa repetindo roboticamente algo sem consciência. Quem ganha com isso são poucos.
Ditadores têm medo de livros e de pessoas com pensamentos profundos, articulados e criativos. Basta pensar: se você fosse um ditador, teria medo de “pessoas politizadas” repetindo platitudes o dia inteiro em redes, ou de pessoas que estudam quietas livros complexos e sabem articular ideias? Infelizmente, temos apostado no pior para a nossa liberdade.

Flavio Morgenstern é escritor, jornalista e roteirista. É formado em Literatura Alemã e estuda as relações entre linguagem e poder, além da decadência da modernidade, especialmente desde a Primeira Guerra Mundial. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



