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As notícias da ditadura já começaram cedo neste ano: Filipe Martins, o homem mais perseguido pelo arbítrio desmedido e sem lei do STF, foi preso no segundo dia de 2026 pelo violentíssimo, perigosíssimo, terrivelzíssimo e monstruosíssimo crime de (tirem as crianças da sala)… supostamente ter feito uma busca na rede social LinkedIn.
Uma. Busca. No. LinkedIn.
A acusação, que também é quem julga, que também é a suposta vítima, que também foi a condutora de oitivas no processo, que também foi o júri e que também deu entrevistas declarando seu óbvio lado parcial e seu interesse, já antevendo seu voto antes mesmo de ler a defesa, declarou que isso foi total desrespeito pelas instituições democráticas.
Total. Desrespeito. Pelas. Instituições. Democráticas.
Não, é sério: isso está na alegação da acusação, digo, da vítima, digo, do júri, digo, do delegado condutor de oitivas, digo, do juiz que julgou o caso com toda a imparcialidade necessária.
Após ter sido denunciado pelo uso do LinkedIn (denunciado. pelo. uso. do. LinkedIn.) no penúltimo dia do ano, seus advogados explicaram que Filipe não fizera uso algum: suas redes sociais estavam sob custódia dos advogados de defesa, para produção de provas. Nada foi postado, não houve comunicação alguma; Filipe Martins nem havia encostado no tal LinkedIn (e por que o faria?).
A acusação, digo, o juiz, digo, a suposta vítima, digo, o delegado, digo, o júri, digo, a própria Democracia Feita Carne, Sua Excelência (todos de pé, por favor) Alexandre de Moraes, respondeu que (todos voltem a ficar de pé):
“Efetivamente, não há dúvidas de que houve descumprimento da medida cautelar imposta, uma vez que a própria defesa reconhece a utilização da rede social, não havendo qualquer pertinência da alegação defensiva no sentido de que as redes sociais foram utilizadas para ‘preservar, organizar e auditar elementos informativos pretéritos relevantes ao exercício da ampla defesa’ (edoc 1719). O acusado demonstra total desrespeito pelas normas impostas e pelas instituições constitucionalmente democráticas, em virtude de que, ao fazer uso das redes sociais, ofende as medidas cautelares aplicadas, assim como todo o ordenamento jurídico.”
(podem se sentar.)
Ou seja, basta escrever “não há qualquer pertinência” e pronto: pode-se mandar prender um inocente sem explicação nenhuma, ignorando todo o devido processo legal, a defesa e a lógica.
Ah, não, como estávamos dizendo, houve uma explicação: seu advogado fazer uma busca no LinkedIn, como lemos acima, “demonstra total desrespeito pelas normas impostas e pelas instituições constitucionalmente democráticas”, porque “ofende as medidas” (tadinhas das medidas! estão tristes e precisando de psicólogo!) e “todo o ordenamento jurídico”.
Como todo o ordenamento jurídico pode estar “ofendido” por uma busca no LinkedIn?
Claro, estamos falando do mesmo “ordenamento jurídico” que agora permite que a mesma pessoa seja juiz, acusador, delegado, júri, testemunha e suposta vítima, e que ainda diga que faz tudo isso em nome da democracia (o termo que permite qualquer coisa hoje em dia).
E da mesma pessoa que é juiz-acusador-delegado-júri-testemunha-suposta-vítima, que também tem uma esposa que advoga para o Banco Master por R$ 129 milhões por quatro anos, que liga e se encontra com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e que ligou seis vezes, tendo interesses no próprio processo que julga e no qual sua esposa é advogada. Só falta ser testemunha, advogado e, logo, suposta vítima também.
É óbvio que, para a população, o bolso importa mais (ou é mais sentido) do que a própria ditadura. Estamos falando da mesma pessoa que, em nome da democracia, sendo sempre juiz-acusador-delegado-júri-testemunha-suposta-vítima, proibiu o uso da rede social X no Brasil por 39 dias, exigindo que todo brasileiro cumprisse as consequências de um processo no qual não foi citado, apenas porque o sr. Democracia-Juiz-Acusador-Vítima teve um chilique com Elon Musk — e ainda o “notificou” via… resposta de tweet. Em português.
Filipe Martins foi condenado a 21 anos por uma suposta minuta que ninguém viu e cuja relação com Filipe foi negada por todas as testemunhas
A única “acusação” veio de Mauro Cid, que foi flagrado confessando que “não adianta falar a verdade” para o STF, porque eles só querem a versão deles, “já têm a narrativa pronta” e fazem “o que querem”. Para efeito de comparação, Guilherme de Pádua, assassino confesso, foi condenado a apenas 19 anos de prisão.
Filipe Martins tem um histórico de acusações que seria engraçado, não fosse levado a sério por togados: citou um poema de Dylan Thomas (o mesmo que Anthony Hopkins citou no mesmo ano, quando não pôde receber o Oscar).
Guga Chacra, que não parece entender muito de literatura, afirmou que o poema era o mesmo citado por um terrorista (também é um dos poemas mais famosos e citados da literatura inglesa, mas o que isso importa para jornalistas que não sabem nada de literatura?). Depois, ajeitou a lapela com cara de sono.
Depois, foi acusado de ter viajado para os EUA, quando não viajou (e não seria crime), para “fugir às consequências” de algo que ocorreu depois da suposta viagem. Depois, a Polícia Federal mudou a versão, alegando que Filipe fingiu ter viajado para não viajar, para enganar a Polícia Federal (!!).
Ou seja, segundo Alexandre de Moraes e Paulo Gonet, Filipe Martins teria fingido que viajaria em 30 de dezembro, enganando a Polícia Federal, que acreditaria que Filipe estaria fugindo às consequências do 8 de janeiro, já que sabia, em dezembro, que o 8 de janeiro seria um “golpe de Estado” que não daria certo. Também teria presumido, em 30 de dezembro, que a Polícia Federal o prenderia em Ponta Grossa meses depois, por acreditar que ele teria ido aos EUA e “desaparecido”. E então, foi preso em Ponta Grossa. Que não fica nos EUA.
Não é brincadeira. Tudo isso está alegado, escrito e denunciado seriamente em documentos com linguagem jurídica parnasiana nas acusações contra Filipe Martins.
E agora, coroando o perigo às instituições que é Filipe Martins, ele foi preso por uma… busca no LinkedIn.
Sabe o que não “ofende” a democracia, segundo a nova terminologia ditatorial vigente? Uns R$ 129 milhões do Banco Master. Se a democracia agora é juiz-acusador-vítima, qual é o problema com a advogada-esposa-do-juiz? Pelo menos ela não ofende as instituições democráticas fingindo que viajaria para não viajar e confundir a Polícia.




