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Quando o professor Olavo de Carvalho começou a ter um grande público direto, principalmente graças às redes sociais, muitas pessoas passaram a repetir um dos seus ensinamentos: que a batalha é cultural. Que o nosso dever, além de religioso e moral, era um resgate da alta cultura e um trabalho com os símbolos e a psicologia social transmitidos pela cultura de massa.
Que era preciso purificar a linguagem, buscar referências em grandes pensadores (inclusive os de esquerda e demais discordantes) para entender o que outras pessoas refletiram sobre determinado assunto antes de nós. Afinal, a política partidária, a “politização” das massas, era um reflexo imperfeito do que alguns pensadores definiram, muitas vezes a portas fechadas, e nem sempre com muita inteligência e virtude envolvidas.
Observando o que ocorreu com aquele movimento “de direita” surgido por volta de 2015 (época da Lava Jato, das tentativas de desmontar o petrolão, das denúncias de corrupção contra o PT, de fazer o povo perceber que estatais inchadas e o pagamento de propina para o centrão, em contratos forjados de consultoria com dinheiro de fundos de pensão, eram um projeto ditatorial etc. etc.), parece que o ensinamento do professor foi tomado pelo avesso.
Hoje, aquilo que é chamado de “direita” é discussão de partido, deputado, comissão, militância e agitação eleitoral 25 horas por dia. Ou melhor, isso quando o assunto é elevado. No mais das vezes, a “discussão” é apenas fofoca, tramoia, quem curtiu o quê, de que pessoa tal deputado não gosta, quem deve ficar com vaga no Senado em qual estado, quem uma vez votou em um candidato diferente, quem está em grupo de WhatsApp com conversa vazada, quem mandou mensagem privada para quem.
Fomos de uma disputa para ver quem consegue interpretar Aristóteles melhor do que a esquerda para ver quem consegue mais visualizações num vídeo sobre fofoca de grupo de Zap em questão de muitos poucos anos
O mais grave da situação é que quase tudo aquilo que vemos em discussão nas eleições – já que parece que é o único assunto que importa, como se o sentido de nossa vida fosse apertar alguns botões de 4 em 4 anos – são, justamente, questões que deveriam ser resolvidas culturalmente, e não pela militância acéfala das massas adestradas e obedientes. É bom ter uma massa adestrada e obediente que vote em nossos candidatos – é divertido e lucrativo. Mas tais massas podem se voltar contra você em segundos. Uma lição que Maquiavel ensinava há meio milênio.
Só em um exemplo, há uma polêmica gigantesca, recentemente, sobre a apreciação feminina pela direita. O famoso gender gap é um fenômeno conhecido desde o fim da Primeira Guerra Mundial, quando as suffragettes britânicas conseguiram o direito ao voto em 1918. Podemos tentar interpretar o fenômeno pela leitura da militância acéfala, adestrada e obediente: mulheres votam mal, portanto, precisam sofrer linchamento virtual e serem achincalhadas sempre que se manifestarem, restando à direita o constrangimento de defender vice-mulher, pautas feministas como o PL da Misoginia e internet gratuita para as mulheres.
Ou podemos interpretar o fenômeno por uma leitura cultural, demorada, intelectual, com conhecedores da história. As mulheres, bem ao contrário do que se pensa, sempre foram mais conservadoras do que os homens – a literatura feminista pré-1968 constantemente está reclamando de que as mulheres precisariam tomar uma “consciência de classe” (Klassenbewusstsein) antes de encostarem numa urna. É a partir de um conceito como este que podemos entender a famosa frase de Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher, torna-se mulher”; enquanto uma mulher não assumir seu papel de feminista, acabará sendo antifeminista.
Aliás, muitas mulheres foram contra o voto feminino nos estertores da Primeira Guerra: a política era assunto masculino e, naquele catastrófico contexto, significava tomar partido em questões militares. Uma mãe de família, que havia perdido marido e 3 filhos na Guerra, por acaso aceitaria que sua vizinha solteirona decidisse os rumos da Guerra por ela?
Diga-se: as mudanças culturais que herdamos da Primeira Guerra, principalmente no cenário íntimo do lar, aquilo que foi chamado de “front doméstico”, são as grandes marcas culturais até hoje: pais ausentes, famílias desestruturadas, mulheres tendo de assumir questões econômicas e profissionais enquanto ainda precisam cuidar do lar e da educação dos filhos, disputas políticas de gênero, intromissão estatal na geladeira, na carteira e até na cama, inflação para financiar gastos governamentais, vício em anestésicos, erosão de instituições naturais anteriores à politização totalitária etc.
Claro, esse tipo de leitura exige alguns anos de conhecimento. Mas era exatamente o que Olavo de Carvalho preconizava: ter intelectuais gabaritados, com estantes lidas e capacidade de análise e explicação. Alguns problemas que só se tornam ainda mais problemáticos quando trabalhados pela militância seriam resolvidos em questão de poucos minutos trabalhando-se a cultura, a inteligência e as referências elevadas.
Ou podemos acreditar que basta gritar nas redes sociais contra quem discorde uma vírgula do que queremos. Talvez seja um bom método de conquistar o tal voto feminino; talvez seja extremamente convidativo para pessoas indecisas encontrarem um lar nessa tal de direita; talvez seja o que vá convencer mulheres a se tornarem direitistas, gritando que outras mulheres têm péssimas escolhas e devam ser escorraçadas do movimento.
Acredito, ainda, que valeria mais a pena trabalhar questões culturais com pessoas que entendam de cultura. Infelizmente, falar de cultura numa guerra cultural hoje é resumido a saber se apoiaremos cegamente alguém sem cultura como indicado para o Ministério da Cultura.

Flavio Morgenstern é escritor, jornalista e roteirista. É formado em Literatura Alemã e estuda as relações entre linguagem e poder, além da decadência da modernidade, especialmente desde a Primeira Guerra Mundial. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



