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Flavio Morgenstern

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Privilégios do sistema

Por que Vorcaro merece um tratamento melhor do que o de Filipe Martins?

O banqueiro Daniel Vorcaro, do liquidado Banco Master. (Foto: Márcio Gustavo Vasconcelos/Wikimedia Commons)

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Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pegou fundos de pensão de, pelo menos, três estados e mais de 15 cidades e os “investiu” em papéis podres de empresas de amigos (o mesmíssimo esquema de Sérgio Cabral com o lobista do MDB Milton Lyra, no Rio de Janeiro). Vendendo tais operações mais barato do que o mercado, conseguiu uma fortuna no curto prazo – e um rombo a ser pago pelo Fundo Garantidor de Crédito (ou seja, o nosso dinheiro) no longo prazo.

Para conseguir meter as mãos nos fundos de pensão, aproximou-se de governadores, políticos, lobistas (só faltaram os doleiros) e, claro, juízes. Fundos de pensão, sabemos desde o mensalão até o Master (não nos esquecendo de Cabral, das operações Greenfield, Cui Bono?, Rizoma, Sépsis etc.), são alvos fáceis de corruptos, geralmente liberados mediante propina via doleiros.

Vorcaro, seguindo o script pari passu, fez com que só a RioPrevidência investisse R$ 2,6 bilhões, cerca de 25% dos investimentos do fundo, em ativos ligados ao Banco Master.

Vorcaro financiou eventos como o Fórum Jurídico Brasil de Ideias, em Londres; o Fórum Esfera Internacional, em Paris, e o de Roma; os eventos do Grupo Voto, de Karim Miskulin; além de eventos do Lide, ligado a João Doria. A Lide Brazil Conference, de Nova York, ficou famosa porque um dos convidados, o então ministro Luís Roberto Barroso, vociferou contra um brasileiro que perguntava sobre o código-fonte de você-sabe-o-quê, com um grosseiro “Perdeu, mané. Não amola!”.

Outros participantes de todos os eventos foram, claro, ministros do STF. Gilmar Mendes, Barroso e Alexandre de Moraes eram figuras carimbadas. Alexandre de Moraes acompanhou a eleição de Trump em um bunker na mansão de Vorcaro.

Preso, seu advogado, ex-Secretário Nacional de Justiça de Lula, da rica e quatrocentona família Arruda Botelho, formado pela não tão prestigiada Unip, viajou com o ministro Dias Toffoli, que cuidava do próprio caso, para assistir à final da Libertadores.

Toffoli, depois, exigiu que todas as provas do processo lhe fossem remetidas – sendo ele alguém interessado no processo. O STF posteriormente negou conflito de interesse (sendo o STF, também, interessado no processo), mas, mesmo assim, tirou Toffoli da relatoria.

A mesma Unip de onde saiu Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, cujo contrato para defender o Master era de R$ 129 milhões em quatro anos, sem se especificar o serviço. Quando Vorcaro montou uma banca de advogados poderosos para defendê-lo, Viviane não se encontrava entre os nomes.

Novamente preso, descobriu-se que Vorcaro, que já chegou a convidar blogueiros de direita para defendê-lo, pagava R$ 1 milhão por mês para intimidar desafetos. Disse que “tem que moer essa vagabunda”, referindo-se a uma empregada doméstica. Afirmou que tinha de “dar um sacode” e “levantar tudo” de um chef de cozinha. Já sobre Lauro Jardim, jornalista que publicou muito sobre Vorcaro, o ex-banqueiro foi mais explícito: “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”.

O ministro André Mendonça, ao pedir a nova prisão de Vorcaro, criticou o PGR, Paulo Gonet, classificando que a Procuradoria foi omissa ao não ver nada a temer, mesmo com o teor das mensagens interceptadas.

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O mesmo Paulo Gonet, por outro lado, foi extremamente “tolerância zero” no escândalo (para o STF e a PGR) envolvendo Filipe Martins.

Filipe Martins foi preso com base em uma “reportagem” (com o perdão da hipérbole) de Guilherme Amado, que afirmava que o ex-assessor de Bolsonaro havia ido para os EUA e “desaparecido” (como se isso crime fosse). Graças a isso, foi preso… em Ponta Grossa.

A alegação, então, é a de que teria planejado um golpe de Estado no dia 8 de janeiro, mas teria viajado antes, em 30 de dezembro, já presumindo que o suposto golpe não daria em nada e o STF continuaria no poder (sic).

Após ter as provas de que não havia viajado porcaria nenhuma analisadas com imenso atraso pela Polícia Federal, a PF foi taxativa: Filipe Martins teria forjado (sic!) o próprio sumiço nos EUA para que a PF o tivesse prendido “por engano” (eu não estou brincando: isso está em um relatório da PF).

Solto depois de meio ano pelo gigantesco “crime” de não viajar, Filipe Martins foi preso novamente (enquanto Vorcaro seguia livre, leve e solto) porque alguém o acusou de ter feito uma busca no LinkedIn – o que a própria Microsoft já negou.

Paulo Gonet declarou que o que a Microsoft tem a dizer é irrelevante e manteve Filipe Martins preso, enquanto tentava deixar Vorcaro solto.

Uma coisa pode-se aprender facilmente deste breve comparativo: Vorcaro e Martins são temidos pelo STF e outros acólitos da nossa ditadura, mas por razões completamente diferentes.

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