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Nossa bebezinha acordou hoje, às três da manhã, chorando a plenos pulmões. Minha esposa tentou fazer algo rapidamente – ela sabia que meu despertador tocaria dali a meia hora, e tentou me poupar de acordar ainda mais cedo – mas o choro foi tão alto que só não acordou os vizinhos porque as casas não são geminadas. Enfim, aproveitei a meia hora a mais acordado para chegar cedo ao aeroporto e assim ter um pouco mais de tempo para escrever esta coluna. Sim, esta é mais uma coluna escrita em uma sala de embarque, bem antes do sol raiar.

No caminho de casa para o aeroporto, me peguei pensando nas muitas e muitas vezes que acordei de madrugada para trabalhar. Já faz 20 anos, mas ainda me lembro com clareza de quando consegui um estágio na HP junto com meu grande amigo Edson, que rachava comigo o aluguel de uma quitinete na época de faculdade. A HP ficava em Barueri, mas havia um fretado para levar o pessoal da região de Campinas. O fretado nem saía tão cedo assim – passava para nos pegar por volta das 6 da manhã – mas o ponto ficava bem longe de nosso apartamento, o que implicava em acordar antes das cinco. Esse foi apenas o primeiro emprego onde precisei madrugar. Na época de Motorola, quando trabalhava com as centrais de processamento de chamadas da rede celular, varar as noites fazendo atualização do sistema era mais regra que exceção. Perdi a conta de quantas vezes terminei o serviço tão tarde que já era cedo o suficiente para pegar o café da manhã do hotel. Hoje em dia, trabalhando em empresa própria, madrugar continua sendo uma necessidade, já que muitos voos saem antes de o dia nascer.

Parece-me – e digo isso sem nenhum estudo ou fundamento psicológico – que a rotina de acordar muito cedo possui elementos forjadores de caráter. Não estou afirmando que bastaria colocar um criminoso convicto para madrugar todos os dias para que sua índole bandida fosse substituída por uma pureza de alma; longe disso. O que quero dizer é que, na minha percepção, aquela coisa de pular da cama quando todo mundo em casa ainda dorme, trocar de roupa no banheiro para não acordar a esposa, descer nas pontas dos pés, abrir a porta com cuidado e tentar não acordar os cachorros na saída, dirigir com alguns poucos companheiros de estrada e ver o nascer do sol da janela do carro, ônibus ou avião, é uma experiência que gera uma sensação de utilidade, sacrifício e responsabilidade. Na grande maioria das empresas, as posições de honra e liderança não são reservadas aos dorminhocos e preguiçosos.

Infelizmente, até um pequeno ritual de sacrifício como esse tem sido desvalorizado no mundo contemporâneo. Conheço dois casais de pais que trocaram os filhos de escola para que as crianças não precisassem acordar tão cedo (sendo que o cedo, no caso, era tirar os pimpolhos da cama às seis da manhã). Conheço também uma meia dúzia de marmanjos que, mesmo tendo mais de um quarto de século nas costas, continuam vivendo às custas de seus progenitores, jogando videogame madrugada adentro e dormindo até a hora do almoço. Sempre que converso com o primo de um desses inúteis, ele me conta algum absurdo novo. “Flavio, descobri que minha tia pegou um empréstimo no banco para quitar contas da casa, e o belezão acabou de comprar um notebook da Alienware com a mesada.” A tia, já viúva, é como uma segunda mãe para ele. Por isso, não consegue se conformar com os abusos do primo (que, obviamente, só acontecem porque a senhorinha nunca deixou que sua cria assumisse quaisquer responsabilidades).

Um outro aspecto interessante desse fenômeno é que não basta um exemplo de dedicação e trabalho árduo na família para que os filhos se tornem adultos responsáveis e produtivos. É o caso de Marcelo (usarei nomes fictícios aqui, embora me refira a um amigo de longa data e seus familiares). Seu pai costumava sair de casa antes das cinco da manhã e viajar mais de 150 quilômetros para trabalhar e prover sustento a uma família de cinco pessoas. Tanto Marcelo como seu irmão, Felipe, assistiram ao esforço do pai por pelo menos cinco anos, quando finalmente conseguiu um emprego na mesma cidade onde moravam e pode então passar a acordar num horário bem mais civilizado. Seu Carlos jamais deixou de se aplicar com extrema dedicação nos trabalhos que teve, e foi capaz de construir um patrimônio considerável. Apesar de ter idade para se aposentar, continua trabalhando, atualmente em um pequeno negócio próprio. Marcelo seguiu a ética de trabalho do pai e posso atestar que está na lista dos seres humanos que contribuem ativamente para que esse planeta seja um lugar melhor. Felipe, talvez por ser cinco anos mais novo que o irmão e ter vivido em um período onde a família tinha recursos mais abundantes durante sua infância, é aquele sujeito divertido, que faz todo mundo dar risada nas festas de aniversário, mas que ao mesmo tempo suscita nos mais próximos um desejo de esbofeteá-lo aos gritos de “vá trabalhar, vagabundo, e pare de sugar os seus pais”. Felipe não produz nada, não ajuda ninguém e não vive uma vida adulta, apesar de estar chegando aos 40 anos de idade.

Um dos livros que mais gostei de traduzir até hoje foi A Mente Esquerdista. O autor, um psiquiatra renomado, explica como são criados adultos pouco funcionais e dependentes tanto dos pais como do Estado. Ele discorre sobre a época de criação da autoestima e de diversos valores importantes na criança e mostra que algumas falhas nessa etapa podem levar a comportamentos irreversíveis na idade adulta. O livro me impactou bastante, pois minha esposa estava grávida de nosso primeiro filho quando fiz a tradução. Todos os dias, quando tenho que escolher como agir em determinadas situações com Benjamin e Eleanor, penso se estou optando por um caminho que os levará a desenvolver autoestima, responsabilidade e autoconfiança, e ao mesmo tempo busco garantir que eles se sintam amados e protegidos, pois somente assim poderão se tornar adultos de verdade. Quem é pai ou mãe e está lendo este texto, sabe do que estou falando: não é fácil fazer sempre a coisa certa, e muitas vezes um dos cônjuges acha que o outro está sendo duro demais com a molecada.

O funcionário da companhia aérea acaba de chamar meu grupo para embarcar – é minha deixa para encerrar o texto. Uma boa semana a todos, especialmente aos que têm de acordar muito cedo todos os dias. Vocês merecem todo o sucesso em suas empreitadas.

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