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O tribunal do Condado de Kenosha, no Wisconsin, onde Kyle Rittenhouse está sendo julgado.
O tribunal do Condado de Kenosha, no Wisconsin, onde Kyle Rittenhouse está sendo julgado.| Foto: EFE/EPA/Kamil Krzaczynski

Um dos assuntos mais comentados dos últimos dias, aqui nos Estados Unidos, é o julgamento de Kyle Rittenhouse. O jovem, agora com 18 anos, é acusado de matar dois homens e ferir um terceiro.

Pode-se dizer que as ações de Kyle guardam relação com a morte de George Floyd. Em maio de 2020, o negro de 44 anos de idade foi morto por um policial de Minneapolis. O caso acendeu a ira dos movimentos antirraciais, especialmente pelo fato de o policial Derek Chauvin ter mantido o joelho sobre o pescoço de Floyd, que por repetidas vezes disse “eu não consigo respirar”, até o momento de sua morte. Nos dias posteriores à morte de Floyd, protestos ocorreram em diversas cidades norte-americanas, incluindo Atlanta, Portland, Nova York e Chicago.

Jacob Blake tinha vários mandados de prisão contra si e foi sua namorada quem havia chamado a polícia. Para a multidão enfurecida isso não fazia diferença; ele era o novo George Floyd, e como tal deveria ser vingado

Apenas três meses depois, um outro incidente aconteceu na cidade de Kenosha, estado do Wisconsin. No dia 23 de agosto, Jacob Blake, homem negro de 29 anos de idade, foi alvejado e ferido gravemente pelo policial Rusten Sheskey. O caso de Blake, no entanto, foi bem diferente do ocorrido com Floyd. Ele tinha um mandado de prisão emitido por causa de acusações de ataque sexual de terceiro grau, invasão de propriedade e má conduta relacionada a abuso doméstico. Na ocasião, a polícia fora chamada pela namorada de Blake por causa de um “incidente doméstico”. Após discussão e enfrentamento, um dos policiais usou seu taser em Blake, que mesmo assim conseguiu se inclinar para dentro de seu veículo, no intuito de pegar uma faca que repousava no banco do passageiro. Foi quando Sheskey, já com sua arma sacada, o alvejou.

Obviamente, para a multidão enfurecida não existiu diferença. Blake era o novo Floyd, e como tal deveria ser vingado. Por protestos, marchas, destruição de propriedades, incêndios criminosos e embates com a polícia local. Por três noites seguidas, centenas de manifestantes marcharam para o centro da cidade para exigir a prisão do policial Rusten Sheskey. Dezenas optaram pela violência, incendiando veículos nas ruas, saqueando e incendiando comércios, destruindo postes de iluminação e provocando o caos em Kenosha. A Guarda Nacional foi chamada pelo governador do estado para ajudar a conter os protestos.

Na terceira noite, em meio a fortes embates entre manifestantes e policiais no Parque do Centro Cívico, o pior aconteceu. Kyle Rittenhouse, na época com 17 anos de idade, estava no local em posse de um fuzil AR-15. Em certo momento, ele foi perseguido por Joseph Rosembaum e reagiu atirando e atingindo-o fatalmente. Ao ver Rosembaum caído, Rittenhouse se dirigiu a uma área onde diversos veículos policiais se encontravam, incluindo alguns blindados da Guarda Nacional. Nesse trajeto, outros manifestantes o perseguiram, tentando inclusive lhe tomar o fuzil e, de acordo com seu testemunho, ameaçando-o de morte. Dois desses foram alvejados por Rittenhouse: Anthony Huber faleceu no local e Gaige Grosskreutz sofreu ferimentos não fatais. No dia seguinte ao ocorrido, Kyle Rittenhouse foi preso e mantido em um centro de detenção juvenil.

Quase 15 meses depois, aqui estamos em pleno julgamento. Rittenhouse tem sobre si cinco indiciamentos da promotoria: dois homicídios dolosos, tentativa de homicídio, ação imprudente colocando a vida de terceiros em risco, e posse de arma de fogo por menor de idade.

A defesa de Kyle Rittenhouse tem insistido na tese de legítima defesa, baseada inclusive em vídeos aéreos mostrando as perseguições a ele e no testemunho de uma das pessoas alvejadas pelo adolescente

A grande mídia americana tem tratado o réu como um assassino em série. Os homens que o perseguiram foram retratados como vítimas. Durante o julgamento, a defesa tem insistido na tese de legítima defesa, baseada inclusive em vídeos aéreos mostrando as perseguições e no testemunho do próprio Grosskreutz. O trabalho da promotoria tem sido considerado ruim, a ponto de o juiz titular ter mandado o júri sair do recinto para dar uma bronca no promotor.

A definição do julgamento deve ocorrer nos próximos dias. A acusação já terminou seus depoimentos e a defesa chamou Kyle a depor nesta quarta-feira. Não se sabe ainda o que fará nos próximos dias. E, então, haverá o período de deliberação do júri. Estou acompanhando o processo e escreverei mais, provavelmente na semana que vem. Se você se interessou pelo caso, sugiro trafegar pelos portais de notícias americanos e ver a diferença de abordagem entre órgãos de mídia mais à direita e mais à esquerda. Será no mínimo interessante.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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