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Flavio Quintela

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Procura-se imprensa

  • PorFlavio Quintela
  • 29/06/2017 19:39
Reprodução Youtube
Reprodução Youtube| Foto:

Imagine a seguinte situação: você comprou um saco de batatas fritas no supermercado, chegou em casa e abriu para aplacar a fome, só que não tinha nenhuma batata dentro. Ou então, você foi até uma concessionária comprar um carro novo e recebeu um sem motor, que não pode levá-lo a lugar nenhum. Ou ainda, chamou um pedreiro para abrir uma janela numa parede e, em vez disso, ele desenhou uma e deu o trabalho por encerrado. Absurdos? Certamente, mas são absurdos que ilustram precisamente o que tem acontecido com a grande imprensa americana, especialmente com a CNN.

Na semana passada, a mais famosa rede de notícias dos EUA publicou uma história sobre Anthony Scaramucci, homem ligado ao presidente Donald Trump. A reportagem o acusava de ter ligações com um fundo de investimentos russo, e tinha como base informações de uma única fonte anônima. A história se provou falsa, e a CNN teve de se retratar, retirando a matéria do ar e pedindo desculpas por não ter atendido seus padrões editoriais mínimos. A seguir, a diretoria da rede impôs novas diretrizes a qualquer artigo relacionado ao assunto “interferência da Rússia nas eleições americanas”, obrigando os editores a pedir aprovação da alta gerência antes de fazer a publicação. Para terminar, três empregados envolvidos no caso pediram demissão – Thomas Frank, Eric Lichtblau e Lex Haris.

Mas, mal sabiam os executivos da rede que sua credibilidade estava prestes a levar um golpe muito mais forte. No dia 27 de junho, o website Project Veritas publicou um vídeo gravado secretamente por um de seus jornalistas. Nele, John Bonifield, produtor sênior da CNN, expõe verdades sujas sobre a empresa. Veja alguns trechos retirados do vídeo:

Repórter: “Por que a CNN fica constantemente nesse negócio de Rússia pra cá, Rússia pra lá?”

Bonifield: “Por que dá audiência. Nossa audiência está incrível ultimamente. Meu chefe, bem, eu não deveria dizer isso… Eu e meu chefe estávamos conversando, e ele disse: ‘Quero que saiba contra o quê estamos lutando aqui.’ Só pra você ter uma ideia, o presidente Trump tirou os EUA do acordo climático e nós cobrimos essa história por um dia e meio. Aí o CEO da CNN (Jeff Zucker) nos disse, em reunião interna: ‘A cobertura dos acordos climáticos foi um bom trabalho de todos, mas chega; é hora de voltarmos à Rússia.’”

Repórter: “Então, tudo se resume à audiência?”

Bonifield: “É um negócio. As pessoas acham que a imprensa tem uma ética… Mas toda essa ética bonitinha que vemos na faculdade de jornalismo, é adorável. Isto aqui é um negócio. Eles têm que fazer o que tem que ser feito para ganhar dinheiro, eu penso. Eu adoro trabalhar com notícias, mas sou muito cínico a respeito disso, assim como a maioria dos meus colegas.”

Repórter: “Honestamente, você acha que essa história toda da Rússia é só besteirol?”

Bonifield: “Pode ser besteirol. É quase que só besteirol nesse momento. Não temos nenhuma prova contundente. Eles dizem que há uma investigação ainda em andamento. Não sei… Se alguma coisa tivesse sido descoberta, nós saberíamos. Do jeito que as coisas vazam, já teria vazado. Se fosse algo realmente concreto, teria vazado. Eu acho que eles não têm nada, mas querem continuar cavando. E acho que o presidente provavelmente está certo quando diz: ‘Vocês estão fazendo uma caça às bruxas comigo. Vocês não têm prova definitiva, não têm provas reais.’”

 

No dia seguinte, a CNN tentou suavizar a divulgação do vídeo dizendo que Bonifield é um produtor ligado à área de saúde, e não de política, tentando desqualificar suas revelações. Mas o pessoal do Project Veritas tinha uma segunda bomba preparada, desta vez com um dos mais conhecidos e famosos apresentadores e comentador de política de rede, Van Jones. Em mais um vídeo gravado secretamente, Van Jones entrega a verdade em um diálogo com o repórter do Veritas:

Repórter: “O que você acha que vai acontecer com essa história da Rússia nesta semana?”

Van Jones: “Esse negócio da Rússia não passa de um grande hambúrguer de vento.”

Repórter: “Sério?”

Van Jones: “Sim.”

 

Desde que Trump iniciou seu mandato, a CNN sozinha já fez mais de 15 mil menções à história da Rússia. Com um público cada vez menor – apenas metade da audiência média da Fox News no mês de maio deste ano –, a rede parece apostar exclusivamente em agradar seus espectadores mais ideologicamente radicais. Algo como, “vamos inventar histórias para manter esses doidos sintonizados em nosso canal”. No Brasil, muita gente acha que a CNN é uma rede poderosíssima e vista por quase todos os americanos. Longe de ser verdade. O canal tem uma audiência média de 1 milhão de espectadores, um número bem pequeno quando comparado a uma rede aberta como a NBC, que chega a ter 12 milhões de pessoas sintonizadas ao mesmo tempo em seus programas.

O público americano confia cada vez menos na grande imprensa. Uma pesquisa recente da Harvard-Harris (feita antes da divulgação dos vídeos do Veritas) mostra que 65% dos eleitores americanos acreditam que há muitas notícias falsas na grande imprensa do país. Quando desmembramos os números, 80% dos eleitores republicanos, 60% dos independentes e 53% dos democratas pensam assim. Ou seja, a batata da CNN e de várias outras organizações de mídia está assando rapidamente; se continuarem fazendo o jornalismo porco e desonesto que têm feito, ela vai carbonizar.

E a história toda da Rússia, como disse Mark Steyn em entrevista recente a Tucker Carlson, é igual àquelas bonequinhas russas: você abre uma e encontra outra; abre e encontra mais outra; até que você abre a última, minúscula, e não encontra nada.

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