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A CPMI das Fake News, que investiga a divulgação de notícias falsas nas redes sociais e assédio virtual, ouve jornalista Allan dos Santos, um dos fundadores do blog Terça Livre.
A CPMI das Fake News, que investiga a divulgação de notícias falsas nas redes sociais e assédio virtual, ouve jornalista Allan dos Santos, um dos fundadores do blog Terça Livre.| Foto: Roque de Sá/Agência Senado

À grande imprensa, tanto brasileira quanto mundial, não faltam motivos de crítica, muito bem fundamentada, por sinal. A grande imprensa perdeu a ética do jornalismo correto, a ética do simplesmente informar, de forma direta e honesta – aos leitores, ouvintes e telespectadores, e mais atualmente internautas –, os fatos importantes e relevantes do mundo.

As propostas de criação de novas mídias, pelo menos no Brasil, não têm sido feitas no sentido de corrigir essa degradação, essa falha de caráter da imprensa moderna. Nos EUA há um órgão de imprensa muito bem-sucedido, que serve inclusive como parâmetro e padrão para quase todos que defendem a criação de novos jornais e portais conservadores no Brasil. Estou falando, é claro, da Fox News. O que os mesmos que defendem a criação de uma Fox News no Brasil (e que até certo tempo atrás sonhavam com isso) parecem não entender ao terem criado suas próprias mídias – e aqui estou falando da chamada “imprensa independente”, composta por portais como Terça Livre e o recentíssimo Brasil Sem Medo – é que a Fox News não é uma mídia alternativa e, embora seja um canal tipicamente conservador, respeita a ética pluralista do jornalismo “das antigas”, aquele que merece ser resgatado, o jornalismo das matérias investigativas, o jornalismo que dá voz a todos os lados, o jornalismo que abre a oportunidade para o debate e aceita o contraditório.

Mesmo em programas como o daquele que a grande imprensa brasileira chama de ultradireitista (uma inverdade, a propósito), Tucker Carlson, convidados têm a palavra e são sempre recebidos sob a premissa de que têm um lado a defender, e quando esse lado tem lógica e coerência em sua exposição, ele é apresentado ao público do programa, ao vivo e sem edição. Embora seu público cativo seja majoritariamente conservador, quando seus convidados são suficientemente inteligentes para apresentar pontos de vista com lógica, são ouvidos e têm voz.

Calar as vozes contrárias a qualquer tipo de entendimento ideológico é uma das piores coisas que se pode fazer com a imprensa

O mesmo não acontece, de modo algum, nas ditas mídias alternativas brasileiras que se declaram conservadoras. Estas são basicamente um instrumento para a condução do que elas mesmas chamam de “guerra cultural”. Não assumiram uma posição na estrutura de mídia brasileira para fazer contraponto a uma imprensa que é, em sua grande maioria, cada vez mais sem caráter, clareza e honestidade. Em vez disso, resolveram ser um mero reflexo; ou seja, se até o fim do governo do PT acusava-se (pelo menos os influenciadores conservadores faziam essa acusação) a grande imprensa de se aliar ao PT e à esquerda para facilitar as agendas desses grupos, o que se faz hoje nessas mídias é exatamente o mesmo, pró-governo Bolsonaro.

E algo que parece ficar muito claro é que nessa conflagração, da qual tanto falam, não existe a possibilidade de se agir com coerência e equilíbrio; a única maneira que os comandantes dessas novas mídias enxergam para lutar a dita guerra cultural é jamais dar espaço ao contraditório, jamais ceder um milímetro sequer a qualquer pessoa que seja de esquerda ou, como se tem visto mais recentemente, a qualquer pessoa cuja opinião divirja do que prega o governo, seus apoiadores e seus políticos.

Isso não poderia ser mais distante do projeto de uma Fox News, por exemplo, que tem em sua grade programas com apresentadores que defendem abertamente o presidente americano, Donald Trump, ao lado de outros que o fazem de forma moderada e outros, ainda, que não gostam dele e que deixam isso muito claro. Nada disso as impede de estar ali falando e discutindo.

Calar as vozes contrárias a qualquer tipo de entendimento ideológico é uma das piores coisas que se pode fazer com a imprensa, e jamais será uma atitude sanatória para o estado atual das coisas. Se esse estado atual consiste na falta de clareza, verdade e honestidade na divulgação de notícias por conta de uma altíssima carga ideológica nos agentes que criam essas notícias – quando deveriam apenas apresentá-las –, o contrário disso não é fazer o mesmo para o novo governo ou para um novo entendimento ou ideologia. O contrário disso é apresentar notícias verdadeiras e honestas, sejam elas a favor ou contra o governo. De preferência, contra, porque o governo já tem a si mesmo para se defender, e não precisa de mídia nenhuma. O governo detém, durante o seu mandato, um poder muito maior que qualquer um de nós pode sonhar como indivíduo ou mesmo como uma empresa. O governo precisa de crítica, oposição, de gente o tempo todo investigando e moderando o que estão fazendo com o dinheiro público.

Um último aspecto a ser considerado: as mídias alternativas brasileiras fazem uso de um modo de se comunicar que é totalmente distinto do que se conhece como jornalismo ético. Ao se utilizarem de palavras de baixo calão, de xingamentos e de apelidos de deboche (coisas que não têm lugar em uma imprensa tradicional, e aqui não me refiro à grande mídia, mas à imprensa tradicional como este jornal que publica a minha opinião e a de vários outros colunistas, hoje), ferem o código de comportamento existente, e esse código é de natureza tão comum quanto aquele utilizado no mundo empresarial, por exemplo, em que grandes negócios não são fechados quando pessoas se comportam de maneira totalmente fora do esperado. Assim, não se negociam fusões de empresas com seus representantes trajados com bermudas e chinelos, pois existe um código de comportamento e conduta. E, ainda que se queira criticar a existência mesma desse código, ele continuará existindo e influenciando a condução dos assuntos relativos a ele. Portanto, assim como o executivo que apareça de bermuda e chinelos será tachado de louco ou de pessoa sem a seriedade que o cargo exige, a imprensa que viva dos xingamentos, da exaltação à violência, dos apelidos pueris e do ódio ao contraditório será vista pelos apreciadores da moderação, equilíbrio e tradição com maus olhos.

Trazendo novamente o exemplo da Fox News à discussão, fica claro que o exemplo de conduta e de tipo de jornalismo da emissora americana não corrobora em nada o que se faz na “imprensa independente de direita brasileira”: ela segue um padrão e um modo de apresentação como órgão de mídia muito mais semelhantes aos das grandes empresas existentes no mundo que aos das mídias independentes, as quais têm estado cada vez mais alinhadas a um discurso beligerante e confrontante, assumindo uma postura de guerra e tratando qualquer pessoa que não lhe presenteie com a total concordância como um traidor merecedor de expurgo. Essa postura tem como base o pensamento binário, o revanchismo e a arrogância, defeitos que não têm faltado à imprensa brasileira e que, pelo andar das coisas, não faltarão por muito tempo.

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