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Laurel Hubbard, primeiro atleta transgênero a ser selecionado para os Jogos Olímpicos na história.| Foto: International Weightlifting Federation (IWF)

Umberto Eco disse sobre 1984 que apenas um quarto da obra seria ficção, sendo os demais três quartos uma realidade histórica. História ainda sendo escrita; afinal, embora o totalitarismo stalinista, que inspirou o romance, tenha acabado, seu modelo seguiu vigente em outros lugares, como na China, ao menos na época de Mao, e na Coreia do Norte que segue firme e forte até hoje.

Lendo a autobiografia da jovem norte-coreana Yeonmi Park, por exemplo, que escapou do regime, temos uma noção mais precisa do quanto de realidade está presente nas obras de  Orwell, pois disse ela que, depois de conquistar sua liberdade, nada a marcou mais do que ler A Revolução dos Bichos: “Foi como achar um diamante num monte de areia. Senti como se Orwell soubesse de onde eu era e pelo que tinha passado. A fazenda de animais era na realidade a Coreia do Norte, e no livro ele estava descrevendo a minha vida”. Ela escreveu Para Poder Viver em 2015.

Um totalitarismo nunca se cria “de cima para baixo”, mas “de dentro para fora” das pessoas que, quando despertam, é tarde demais

Pode parecer que um totalitarismo estatal à la Coreia do Norte – que ruirá mais dia, menos dia, tornando-se uma excrescência do passado – seja hoje impossível. Mas o que mais assusta nas obras de Orwell é mais aquilo que torna possível um totalitarismo assim vir a se concretizar. Refiro-me à manipulação da linguagem que leva, pela autocensura do pensamento, ao controle mental necessário para a aceitação do horror totalitário que será visto não como tal, mas como algo correto e até indispensável. Por isso, um totalitarismo nunca se cria “de cima para baixo”, mas “de dentro para fora” das pessoas que, quando despertam, é tarde demais, estando impotentes e só podendo fazer uma coisa: tentar sobreviver.

Como os personagens de 1984. Winston, o protagonista, só queria uma única coisa, manter minimamente sua sanidade mental, cujo diagnóstico não precisava de muito para ser feito, bastava ao menos não duvidar que 2+2=4. Por isso também a terceira e última parte da obra é a bem-sucedida “lavagem cerebral” feita em Winston, com ele passando a aceitar que 2+2=5 ou qualquer outro número que o Grande Irmão dissesse.

Seria possível fazer isso sem o aparato de tortura do “Ministério do Amor”? Fazer uma lavagem cerebral sem uso da força? Aplicando o processo da “novafala” e “crimepensamento”, sim. Quando entendemos os princípios da “novafala” (ou “novilíngua”, a depender da tradução), compreendemos como o uso de contradições internas que causam confusão mental levam, com o tempo, à incapacidade de pensar “por nenhum tipo de raciocínio lógico, visto inexistirem palavras para isso”. E caso alguém escape disso, estará praticando um “crimepensamento” que merecerá punição, como a recebida por Winston.

Quer um exemplo de algo semelhante caminhando nessa direção? Precisamos partir de algo tão evidente quanto 2+2=4, como, por exemplo, o fato natural de que os seres humanos são de dois tipos: uns nascem com pênis e outros, com vagina e útero. Pouco importa o que se possa fazer com esses órgãos posteriormente, seja tirá-los ou reconstruí-los ou o que for, nada desfaz este fato: de uma dessas duas formas todos nascemos.

A manipulação da linguagem leva, pela autocensura do pensamento, ao controle mental necessário para a aceitação do horror totalitário que será visto não como tal, mas como algo correto e até indispensável

Este fato é expressado pela língua por meio de várias formas e palavras, como “homem”, “mulher”, “masculino”, “feminino”, mais os pronomes e por aí vai. Atualmente, porém, muitos pretendem que essas palavras não expressem mais (ou apenas) este fato natural. Alegam que ser homem ou mulher seria uma escolha e que, portanto, a linguagem deveria acompanhar este “fato”, tornando-se, por decorrência, “neutra”.

Não importa se você concorda ou discorda disso, a consequência tem sido uma só: confusão mental que se torna confusão social. Por exemplo, os casos de uso de banheiros femininos por seres humanos que nasceram com pênis ou os casos de seres humanos nascidos com pênis participando de competições esportivas femininas, tendo nítida vantagem de força física, decorrência natural da diferença de crescimento entre o corpo de quem nasce com pênis daqueles que nascem com vagina e útero (a propósito, alguém aí conhece algum caso de ser humano nascido com vagina e útero querendo participar de competições esportivas masculinas?).

Se você já tolhe seu pensamento sobre certos temas por medo de vir a ser acusado de coisas como homofóbico, racista, machista etc., perceba: o controle mental através da linguagem já existe em você

Não há como negar a confusão que isso tem causado. Pior: como não há solução conciliatória possível – pois, se ser homem ou mulher seria uma escolha, não haveria mais como aceitar que isso expressaria um fato natural –, o passo seguinte neste processo só pode ser o de a “disputa de poder” definir o que as palavras podem ou não designar, independentemente da realidade a que se refiram. A consequência será estabelecer, então, o “crimepensamento”, tratando como criminoso quem ousar não aceitar que ser homem ou mulher seria aquilo que restou definido pela “novafala”.

Agora, se você já tolhe seu pensamento sobre essas coisas por medo de vir a ser acusado de coisas como homofóbico, racista, machista etc., perceba: o controle mental através da linguagem já existe em você. Para se libertar disso, mais do que coragem para fazer ou defender o que quer que seja, é preciso antes conseguir dizer para si mesmo o que está vivendo, algo que é justamente o que a boa literatura, como 1984, ajuda-nos a fazer. E, se duvida dessa capacidade da literatura, termino retornando à jovem Yeonmi Park, que viveu na pele um totalitarismo tal como o da ficção, conseguindo entender o que vivia somente depois, ao ler Orwell, concluindo assim: “Reduzir o horror da Coreia do Norte a uma simples alegoria extinguiu seu poder sobre mim. Ajudou a me libertar”.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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