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Francisco Escorsim

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A hora do Ângelus

  • Francisco EscorsimPor Francisco Escorsim
  • 28/08/2020 15:10
Detalhe de gravura de Gustave Doré para o “Paraíso” da “Divina Comédia”.
Detalhe de gravura de Gustave Doré para o “Paraíso” da “Divina Comédia”.| Foto: Reprodução

Depois de agonizar madrugada adentro, não conseguindo acompanhar a oração contínua que faziam à sua volta, padre João mirou pela janela do quarto a aurora de róseos dedos tocar na torre da igreja, abraçando o sino a anunciar a hora do Ângelus. A reza em torno entrava pelo primeiro dos últimos mistérios quando foi brevemente interrompida por prantos sentidos. Ao seu lado, reparou em alguém vestido como a neve e luzindo como um relâmpago. Ia perguntar quem era, mas o irreconhecido se antecipou: “Não tenhais medo. Tu já aqui não estás mais”.

E viu um grande trono branco e um livro sendo aberto. A tudo revivia como se fosse um filme, com algumas cenas sendo destacadas, como a dele em Pietrelcina em 1944, assistindo à missa de Padre Pio. Estudava mestrado em Roma quando a guerra estourou e por várias vezes as aulas foram suspensas. Em uma dessas, arriscou conhecer o já famoso padre, passando alguns dias na pequena cidade. As missas duravam mais de duas horas e sempre o perfume de rosas preenchia a igreja, com Padre Pio expressando sofrimento intenso o tempo todo, especialmente quando erguia o Corpo de Cristo, deixando à mostra as chagas em suas mãos. Apesar de tantas missas assistidas e celebradas, nunca tinha vivido algo assim. Padre João apenas conseguia dizer: “Meu Senhor e Meu Deus”. Nunca mais foi o mesmo.

Tornou-se um dos padres nos campos de batalha, participando dos batalhões da Força Expedicionária Brasileira. Nas tentativas de tomada de Monte Castelo, quantos mortos. A certa altura, depois de encomendar mais uma alma de soldado, viu-se completamente cercado por tiros, ajoelhando-se atônito em meio ao campo de batalha, certo de que era o fim. Foi quando viu Padre Pio aparecer do nada, sorrindo a apontar para outro soldado sendo carregado por maqueiros, todos rezando o rosário. Súbito sentiu o coração abrasado e os seguiu. Acompanhou o moribundo durante a noite. Escutou sua confissão no leito de morte, ajudando-o a escrever uma carta para sua amada, a mãe do filho que pedira para abortar. Padre João jamais esqueceu disso, era uma de suas principais memórias daquela época.

“Como é distante a esperança da vitória desde esta terra de exílio! Como, por outro lado, está certa e próxima quando vista desde a casa de Deus, sob a proteção da Mãe Santíssima!”

Aquele que estava vestido de neve e luminoso como um relâmpago o interrompeu, mostrando uma pilha de caixas, papéis e outros objetos entulhados em contêineres sendo descarregados em Israel. Isso acontecia naquele instante? Alguém o cutucou no ombro e, virando-se, viu Padre Pio rindo, apontando para a cena, perguntando: “Por que estás aí parado olhando?”. Então, entendeu, rindo de quão estulto e lerdo de coração ainda era. E agora era ele, inspirando a boa vontade de vários para perceberem a carta extraviada, descobrirem o endereço e a encaminharem corretamente. Era ele ao lado de Glória dilacerada pela dor por não poder acompanhar o enterro da mãe, abrasando o coração dela para voltar ao trabalho e lá encontrar, num grande envelope do exército, a carta e o rosário deixados pelo pai que não sabia que havia tido.

Juntou-se aos santos e anjos, que desceram como foram elevados ao Céu, adentrando todas as igrejas fechadas, enchendo de água benta as pias batismais, acendendo as velas e fazendo brilhar o sacrário, todos ajoelhados pelas naves rezando em uníssono o rosário em união com os milhares de fiéis impedidos de ali entrarem e que suportavam o medo imenso da pandemia de 2020 rezando em casa com suas famílias. A cada instante, saíam de cada santo e anjo como que línguas de fogo. Uma delas, de Santa Luzia, conduziu-o à UTI onde padre Anísio estava em coma. Imediatamente uma luz refulgiu do doente. Conversaram como se estivessem nos almoços depois das missas de domingo, momento preferido de padre João para fazer sua direção espiritual sem parecer que assim fazia. Antes de voltar do coma, padre João repetiu ao discípulo o que Padre Pio lhe dissera no campo de batalha de Monte Castelo: “Quando você morrer poderá fazer muito mais, mas ainda não é tua hora”.

“A tua hora...” Dois dias antes da sua, padre João recebera a visita de uma de suas filhas espirituais preferidas, Tereza. Trouxe-lhe um novo rosário para ser abençoado. Quando o tomou nas mãos, o perfume de rosas preencheu o quarto. Então a viu, a mais formosa de todas as mulheres, sorrindo com doçura, rodeada por um coro de bebês não nascidos, alguns tornados crianças, outros crescidos como adultos. E os reconheceu, a cada um deles, os que não conseguiu salvar nestas décadas de trabalho silencioso e doloroso formando e administrando casas da apoio a gestantes e órfãos por todos os cantos por onde passou ou foi “exilado” pelos superiores. Tinha perdido as contas de quantas casas eram, de quantos apoiadores conquistara, de doadores aos funcionários de clínicas e hospitais, passando por médicos, enfermeiras, policiais, psicólogos, assistentes sociais. Chorava como nunca chorou, sentindo cada conta do rosário em suas mãos, feita como lágrima transparente contendo um bebê, transformar-se em pétala de rosa que a formosa Mulher ia recolhendo em seu seio enquanto acarinhava a face de João.

E agora era ele a abraçar espiritualmente Tereza enquanto recolhia os pedaços do bebê destroçado e o via ser refeito em luz e brilhar como um relâmpago, ganhando lugar no coro das crianças não nascidas que fazia parte do grande sinal no Céu: uma Mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. Ela estava grávida, e gritava com as dores do parto, atormentada a ponto de dar à luz. E padre João viu, então, um bebê envolto em panos numa manjedoura e pastores cercados de refulgente luz guiados por um anjo se achegarem, contando o que o anjo lhes dissera. São Simeão se levantou, dizendo: “porque os meus olhos não cessam de ver o Salvador que Tu nos deste”. E do grande trono branco padre João escutou O que estava sentado dizer: “Eis que faço novas todas as coisas”.

O sino ainda dobrava quando os mais íntimos de padre João terminaram de rezar o rosário em torno de seu leito de morte. A agonia havia desaparecido de seu rosto, agora sereno. Ficaram apenas Tereza e padre Anísio para ajudar na preparação do corpo. Na mesinha de cabeceira, o diário do falecido. Anísio o abriu e, na última entrada que encerrava o diário, estava transcrito um trecho de uma das cartas de Padre Pio: “Como é distante a esperança da vitória desde esta terra de exílio! Como, por outro lado, está certa e próxima quando vista desde a casa de Deus, sob a proteção da Mãe Santíssima!” Leu para Tereza, que notou pétalas de rosas surgindo por baixo do corpo do padre. Inúmeras, cada vez mais, preenchendo o quarto com seu perfume. Olhou para padre Anísio, que lhe sorriu, dando uma piscadinha.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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Comentários [ 2 ]

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  • T

    Tiago dos Reis Vieira

    ± 0 minutos

    Não tem como ler esse conto e não cair em prantos, só temos a agradecer por essa linda palavra que nos proporcionaste Francisco. Que Deus seja glorificado através da sua vida.

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    • P

      Paulo Henrique

      ± 3 dias

      Sem palavras!

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