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Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

Música e luto

A última canção de Glen Hansard

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O músico irlandês Glen Hansard (em foto de 2019), vencedor do Oscar, que morreu em acidente no dia 29 de julho. (Foto: Alexandra Wey/EFE/EPA)

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Quem olhasse para o canto do pub Wren’s Nest naquela noite de fim de julho não veria um vencedor do Oscar ou uma lenda do folk rock irlandês. Veria apenas um homem de cabelos ficando grisalhos, os dedos calejados pressionando a madeira gasta de um violão, rindo entre goles de stout e canções antigas. Glen Hansard parecia, finalmente, um homem realizado.

Finalmente, porque custou caro. Foram décadas de uma tempestade tipicamente dublinense. Começou em casa, com o pai alcoólatra, as dificuldades financeiras. Aos 13 anos, abandonou a escola para fazer das calçadas da Grafton Street o seu local de trabalho e, tocando seu violão, ganhar o sustento.

Crescer na periferia operária de Ballymun não lhe deu muitas opções além de cantar gritando suas angústias ao vento, dividindo espaço com o barulho dos carros e a indiferença dos pedestres. É também como o mundo o conheceu melhor, na cena inaugural de Once (Apenas uma Vez), cantando Say It To Me Now, uma tentativa angustiada de fazer com que Deus respondesse.

Glen Hansard ajudava quem precisava e como podia. São dezenas os depoimentos de músicos que só conseguiram ter uma carreira graças à sua ajuda

O Oscar (pela música Falling Slowly, do mesmo filme) em 2008 não mudou sua essência, apenas deu ao músico o maior palco do planeta. Glen conquistou a fama, independência financeira, gravou discos, mas nunca deixou de ser o trovador das ruas de Dublin, continuando a frequentar seus pubs e confraternizar com os demais presentes. Como fez no dia 29 de julho, no Wren’s Nest.

Com o sucesso, passou a organizar um evento beneficente anual na véspera de Natal, na mesma Grafton Street, com outros músicos locais, para arrecadar fundos para moradores de rua. Ajudava quem precisava e como podia. São dezenas os depoimentos de músicos que só conseguiram ter uma carreira pela ajuda de Glen.

Depois de se despedir, montou sua moto e foi embora. Horas depois, já noite adentro, cortava a estrada escura de Strawberry Beds, margeando o Rio Liffey. É impossível não imaginá-lo alegre e satisfeito. Menos por tudo que vai acima e muito mais porque tinha quem o esperasse em casa: sua esposa e Christy, seu filho nascido em 2022.

O título de seu último álbum solo de estúdio, All That Was East Is West of Me Now, lançado no ano seguinte ao nascimento do filho, não deixa de ser significativo do que mudava em sua vida se tornando pai: “Tudo que era leste está agora a oeste de mim”. O porto seguro no casamento, a beleza tardia da paternidade, o homem se completava.

Sob o capacete, talvez ecoassem os versos de Short Life, a música tornada premonitória que encerra seu último disco – antes de uma curta e instrumental. Ali, na solitude do asfalto úmido, talvez cantarolasse sobre “ficar sem passos, ficar sem a estrada”. O destino, em um sobressalto cruel, transformou a letra em realidade. A música se desfez em asfalto, ferro retorcido e morte.

O pequeno Christy não foi levado ao funeral do pai, que pode ser assistido no YouTube. Antes de poder entender a morte, terá de perguntar, sem ter resposta suficiente, sobre a ausência. Eddie Vedder, que fará show solo no Brasil em novembro e teria Glen como parceiro de abertura, cantou no funeral. Escolheu Song Of Good Hope, que termina com os versos: “Que a canção de boa esperança / Ande com você, perpassando tudo”. O homem que passou a vida acolhendo os desabrigados da Irlanda fez de sua própria obra um abrigo eterno para o filho.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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