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O vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, fala durante coletiva de imprensa para correspondentes internacionais na Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), no Rio de Janeiro.
O vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, fala durante coletiva de imprensa para correspondentes internacionais na Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), no Rio de Janeiro.| Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Semanas atrás nosso vice-presidente, então presidente em exercício, o general Mourão, esteve em Curitiba dando algumas palestras. Em uma delas teria a oportunidade de conhecê-lo antes do evento, talvez conseguir trocar dois dedos de prosa. Mas não foi possível, embora ele tenha chegado ao local do evento com bastante antecedência. Enquanto aguardávamos, soube que estava jogando sinuca (o evento foi num clube social), o que me fez ser tomado de simpatia por ele. Preferi, sinceramente, que ficasse jogando do que viesse dar atenção aos rapapés sociais de praxe. Acabou que só deu tempo de um breve cumprimento e fomos à palestra.

Não sei se você sabia, leitor sinuqueiro, mas a palavra snooker, de onde tiramos a nossa “sinuca”, era (não sei se ainda é) um termo usado no meio militar inglês do século 19, uma gíria para se referir aos novos recrutas com pouca experiência. Ou seja, aplica-se perfeitamente ao nosso general no atual momento, afinal, é um snooker político. Foi justamente na conta da inexperiência (e por que não dizer, deslumbramento) que depositei sua incontinência verbal desde que foi eleito. Não me refiro ao conteúdos de suas falas e opiniões, mas ao fato de que boa parte delas combinava mais com os opositores do presidente do que com o “conjunto da obra” que o elegeu. E para um militar, ir “contra” o superior hierárquico é uma falha grave, ainda que possa ter razão no que teria a dizer.

Essa era minha maior curiosidade em conhecer o general pessoalmente, aliás. Seu comportamento seria digno do cargo de vice-presidente ou parecendo ser mais do que isso? Pois foi mais vice do que eu imaginava. Em toda sua palestra, a referência ao comando do presidente foi constante, também a defesa de pautas que, pessoalmente, talvez o general discorde, mas que ali defendeu como se suas fossem. Admirável, de verdade. Sinal de que a confusão reinante no governo nos primeiros meses parece ter se encerrado; torço para que sim.

Em toda sua palestra, a referência ao comando do presidente foi constante, também a defesa de pautas que, pessoalmente, talvez o general discorde, mas que ali defendeu como se suas fossem

E pelo que disse em entrevista nesta semana a Pedro Bial, diminuiu as exibições por ordem do presidente, o que é outro bom sinal de que as coisas parecem entrar nos eixos internamente no governo, apesar das sinucas em que volta e meia se colocam, como nos casos dos filhos, tanto do vice como do presidente. Inadmissível e injustificável as promoções do filho do general no Banco do Brasil, assim como a intenção do presidente de nomear Eduardo Bolsonaro como embaixador nos EUA. É contra tudo o que se vendeu antes da eleição, de serem aqueles que viriam para mudar a regra do jogo, não aproveitar-se dela desse jeito. Conseguirão sair dessa sinuca, recuperando o desgaste desnecessário perante o eleitorado que não suporta mais esse tipo de coisa?

A sinuca (como jogada, não o jogo em si), caro leitor nada sinuqueiro, acontece quando você fica numa situação muito difícil, em que tem de usar de muita criatividade e arriscar alto para conseguir atingir a(s) bola(s) certa(s). Não deixa de ser também nossa situação internacional com a forte proximidade com os EUA, por um lado, e a tentativa de não perder a que temos com a China. Na palestra, o general tratou dessa situação referindo-se ao “dilema de Tucídides” para defender que sejamos pragmáticos e saibamos, com realismo, negociar com ambos. Nesse sentido, parece ser inteligente essa espécie de tática das tesouras, com o presidente voltado aos americanos e o vice segurando as pontas com os chineses. Se funcionará, só o tempo dirá, mas não custa lembrar uma das lições tiradas do relato de Tucídides sobre a guerra do Peloponeso, especialmente o trecho sobre a situação da ilha de Melos que tentou se manter neutra entre Esparta e Atenas e acabou sendo dominada por Atenas porque Esparta não veio em seu socorro, como Melos esperava. Do que se retirou a lição: “os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”. Em outras palavras mais, digamos, sinuqueiras: se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.

Não tem como falar de sinuca e não lembrar de Rui Chapéu, nosso maior sinuqueiro, um dos dois responsáveis por, nos anos 80, mudar a imagem do jogo, até então visto como coisa de malandro. O outro foi Luciano do Valle, que levou Rui para seu programa esportivo aos domingos de manhã na TV e transformou a sinuca num sucesso de público, permanecendo no ar por 8 anos seguidos. Rui dizia que todo salão de sinuca por aí deveria ter uma placa agradecendo a Luciano do Valle por ter tornado o jogo aceitável. Pensando aqui: será que um dia os militares dirão algo assim sobre Bolsonaro em razão da sua aceitação na grande imprensa?

Pense comigo. Os militares não gozavam de boa reputação na imprensa por causa da ditadura militar. Mas como agora boa parte dessa mesma imprensa tem algo mais odiável para demonizar, o presidente e a chamada ala “olavista” do governo, passaram a dar tratamento quase VIP aos militares. Acho que foi até uma das razões para o general ter se sentido tão à vontade dando entrevistas e falando pelos cotovelos sobre tudo e mais um pouco. Hoje, porém e ainda bem, está mais comedido e prudente, como a entrevista recente a Pedro Bial demonstra, aliás.

Enfim, voltando àquela palestra. Uma das perguntas mais interessantes foi sobre até onde iria por amor ao país. Mourão respondeu resumindo o juramento militar que todo snooker faz à Bandeira, no ato mais solene e significativo de compromisso com a pátria: “Incorporando-me ao Exército Brasileiro, prometo cumprir rigorosamente as ordens das autoridades a que estiver subordinado, respeitar os superiores hierárquicos, tratar com afeição os irmãos de armas e com bondade os subordinados e dedicar-me inteiramente ao serviço da Pátria, cuja honra, integridade e instituições defenderei com o sacrifício da própria vida”. Na sua resposta resumida: “vou até a morte”.

Assim que se fala. Mas espero que não cheguemos a ficar numa sinuca dessas.

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