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Leio os jornais e a sensação é mais de vertigem que de indignação. Nem a física quântica explica o nosso desarranjo institucional, muito menos o clichê de usar a física quântica para explicar o caos político.
O brasileiro hoje vive em um estado de perplexidade crônica. Se ministro do STF assessora o banqueiro, se o procurador-geral da República pede favores a esse mesmo banqueiro, se a própria linha que separa o investigador do investigado parece borrada por festinhas e jantares formais, quem sobrou? Quem nos defende de quem não nos defende?
A paranoia é legítima: se vasculharem o celular de qualquer autoridade em Brasília, parece que o nome do dono do Banco Master saltará da tela com a mesma certeza de que iremos todos morrer um dia. A todo momento aparece um print, um áudio ou um relatório da Polícia Federal conectando qualquer um a Daniel Vorcaro.
Olhar para o nosso cenário político é como ver um tabuleiro de xadrez onde todas as peças parecem ser da mesma cor. E lá se vai mais um clichê que pode até ajudar a vocalizar perplexidade, mas que não sai do mesmo lugar, da mesma impotência.
Depois do áudio do “Bessias”, a população tomou as ruas do país. Mas agora, diante de revelações muito piores, o que vemos?
Quando foi levantado o sigilo do atual relatório da PF confirmando o que todo mundo sabia sobre as relações de Moraes com Vorcaro, e revelando ainda mais do que desconfiávamos de outras relações, como a de Paulo Gonet e do diretor da Polícia Federal, lembrei-me imediatamente de quando outro sigilo caiu no passado, expondo as tramoias dos poderosos.
Refiro-me ao famoso áudio do “Bessias”, em que Dilma avisa a Lula que o assessor levaria um documento para ele assinar e, assim, ser nomeado ministro para escapar da jurisdição do juiz Sergio Moro. Com a revelação, a população tomou as ruas do país. Em Brasília, ocuparam até o telhado do Congresso Nacional.
Mas agora, diante de revelações muito piores, o que vemos? Ninguém tomou as ruas e alguns ministros do STF aparecem em fotos dando gargalhadas. Alguns apostam que no 7 de setembro haverá, enfim, um recado do povo. Talvez, mas, por enquanto, parece que a indignação se tornou desilusão, e a impotência virou um desespero mudo. A lei virou um jogo de compadres onde nós assistimos a tudo, parados de pijama, passando vexame.
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Por ironia, começa a tocar no rádio do carro Acorda Amor, de Chico Buarque, escrita sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide, em 1974. A música é, óbvio, sobre a ditadura, mas serve para qualquer pesadelo que se revela realidade. E, quando esta se torna incontornável, o sujeito canta: “Chame, chame, chame o ladrão!”
É compreensível. Quando o desencanto com a institucionalidade atinge o fundo do poço, o desespero do cidadão comum faz com que o trombadinha da esquina pareça um mal menor, ao menos mais previsível. Sem contar que te rouba sem fingir que está salvando a democracia.
Como sair desse transe sem corromper a própria sanidade? Como não nos tornarmos cínicos incorrigíveis? Não sei, mas tento não confundir expectativa com esperança.
Ter esperança não é achar que a realidade é só um pesadelo momentâneo que uma hora passa. Ter esperança é ter fortaleza, a virtude que nos faz aguentar o tranco da vida
A expectativa é passiva e ingênua. Ela vive da ilusão de que a verdade revelada será suficiente para resolver o problema e a próxima eleição pode consertar o tabuleiro por milagre. A expectativa é o que adoece, porque ela sempre evapora diante do próximo áudio com o banqueiro da vez.
A esperança, por outro lado, não espera que os donos do poder criem juízo, muito menos por heróis salvadores da pátria. Mas tampouco descrê da possibilidade de surgir algum. Ter esperança não é achar que a realidade é só um pesadelo momentâneo que uma hora passa.
Ter esperança é ter fortaleza, a virtude que nos faz aguentar o tranco da vida. Como teria dito Roosevelt: “Quando você chegar ao fim de sua corda, dê um nó e segure-se”. Está na hora de o brasileiro não apenas se segurar no fim dessa corda, mas de começar a escalar através dela.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Francisco Escorsim é formado em Direito e Filosofia. Atua como professor e escritor de filosofia e literatura. É coautor de várias obras, entre elas "A Formação do Imaginário", “Mapa da maturidade: do naufrágio ao resgate” e "Arrume seu Quarto: um Guia Para Entender Jordan Peterson". **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




