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CPAC
Primeiro dia da segunda edição do CPAC Brasil, que ocorreu no Centro de Convenções Ulysses Guimarães.| Foto: Leonardo Desideri/Gazeta do Povo

Quando da realização em 2019 da primeira CPAC brasileira, a famosa Conferência de Ação Política Conservadora, fiz uma análise por aqui sobre o evento, em três partes (I, II e III),  mais especificamente sobre o discurso de Filipe Martins, assessor da Presidência da República, pois foi o único a apresentar sugestões programáticas, não apenas discursos motivacionais ou de análise conjuntural. Era ainda o início dos rachas dentro da “nova” direita que, de lá para cá, só se acentuaram, com o maior deles sendo a saída de Sergio Moro do governo, em 2020.

Por causa da pandemia, a segunda CPAC só foi realizada há uma semana e, tal como a primeira, não mereceu maiores e melhores análises da grande imprensa, que segue na sua cegueira e surdez voluntária. Desta vez, ela foi transmitida ao vivo por canais no YouTube, como o do Terça Livre, que investiu na cobertura, com tradução simultânea dos discursos em inglês. É possível assistir aos dois dias de evento na íntegra (Dia 1, Dia 2). Caso alguém queira ter uma radiografia mais precisa de boa parte da direita hoje, não tem fonte melhor.

As linhas de ação propostas não são programáticas de um futuro, mas defensivas do presente, de luta pela sobrevivência para se poder ao menos vislumbrar algum futuro

Assisti atentando ao que haveria mudado ou se desenvolvido desde a primeira conferência. Foi pouca coisa, no meu entender. De mais do mesmo, os inúmeros discursos com palavras de ordem ou conversas sobre a conjuntura atual. De supostamente programático, apenas o discurso conjunto de Filipe Martins, mais uma vez, e Felipe Pedri. Por que digo “supostamente”? Porque, na realidade, as linhas de ação propostas não são programáticas de um futuro, mas defensivas do presente, de luta pela sobrevivência para se poder ao menos vislumbrar algum futuro.

No discurso de 2019, Martins apresentou quatro pontos: 1. confiar no presidente por ser o símbolo aglutinador dos valores conservadores; 2. unir os novos intermediários (influencers digitais, por exemplo) espalhados em movimentos ou iniciativas individuais em uma instituição sólida sem esperar que isso venha do presidente; 3. defender esses valores no front cultural com a criação de obras artísticas, especialmente narrativas para “contar a história real do que aconteceu”, novos órgãos de mídia etc.; 4. criar uma estratégia de mobilização permanente para atuação nas eleições futuras.

No discurso de agora, a estratégia para eleições (4) não foi sequer citada, tudo sendo centrado na defesa do governo atual e de seus apoiadores perseguidos judicialmente, o que tornou a defesa dos valores no front cultural (3) tão somente focada na “guerra de narrativas”. Não se falou também mais sobre a união em uma instituição sólida (2). Talvez porque o instituto que organizou a CPAC seja esta instituição, mas parece-me mais que, diante da urgência da sobrevivência, isso também ficou para depois. E quanto ao pedido por confiar no presidente (1)? Não foi repetido. Por desnecessário? Ou porque a sobrevivência significa pensar no futuro sem essa confiança?

Dois fatos parecem indicar a segunda hipótese. O primeiro, muito simbólico, quando Filipe chegou à parte de apontar os pontos de como fazer, como reagir. Neste momento, veio o aviso de que o presidente da República havia chegado. Ele imediatamente interrompeu a palestra e se retirou. Mas nada de Jair Bolsonaro entrar. Filipe voltou e apressadamente apresentou vários pontos, mais de dez, sem muito explicar porque não havia tempo tampouco interesse do público, eufórico na expectativa de escutar o headliner do evento, que minutos depois entrou, fazendo um discurso, repetido em grande parte nas manifestações do dia 7 de setembro, em que disse: “Ou falo o que os caras querem ou abrem inquérito contra mim. Estão achando que vão me brochar, estão achando que vou recuar. Sei que estar do lado deles é muito, muito fácil, mas não vou fugir da verdade nem do compromisso que fiz com vocês”.

O movimento conservador brasileiro ainda segue sendo embrionário, com apoio popular menor, mas consistente, apesar de muito desorganizado, pouco programático e frágil para lutar contra seus inimigos

Enquanto escrevia essa coluna houve o segundo fato. Jair Bolsonaro, em razão das reações de seus adversários a esses discursos, publicou uma carta à nação, composta pelo ex-presidente Michel Temer, em que consta no seu item 4: “Por isso quero declarar que minhas palavras, por vezes contundentes, decorreram do calor do momento e dos embates que sempre visaram o bem comum”. Há toda uma razão conjuntural para essa brochada, com chance de se tratar de um grande acordo que daria sobrevida ao governo, algo que na realpolitik não deixa de ser uma vitória considerável, se for isso mesmo. Mas seria algo, não digo nem digno, mas coerente com uma luta para “restaurar as condições morais, intelectuais e gerais para o conservadorismo” que, segundo Filipe Martins, deveriam ser a prioridade no momento?

Enfim, ao que me parece o movimento conservador brasileiro ainda segue sendo embrionário, com apoio popular menor, mas consistente, apesar de muito desorganizado, pouco programático e frágil para lutar contra seus inimigos, sendo mais bolsonarista por instinto de sobrevivência do que confiança no atual símbolo aglutinador de seus valores.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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