Publicidade
Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

Não é só futebol

A trégua

copa do mundo trégua política
Durante a Copa do Mundo, não importa a sua preferência política, no fim todos acabarão torcendo pelo Brasil. (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

Fomos adestrados a nos repudiar com eficiência nos últimos anos. A única exceção ao ódio organizado tem data marcada e dura pouco. É o máximo de trégua que ainda conseguimos. E o nome dela é Copa do Mundo.

Não importa o que você pensa do futebol, se gosta, se considera uma distração perniciosa, se acha que apenas serve para dar um pouco de circo ao povo. Talvez você acredite que, se a seleção conquistar o hexa, isso ajudará o governo atual e, como você é oposição, prefere torcer contra. Ou talvez você acredite que, como a camisa da seleção ficou mais vinculada à direita – e você é de esquerda –, é melhor torcer contra.

Se você é assim, como a esposa de João Saldanha, comunista de quatro costados, no seriado A Saga do Tri, disponível na Netflix, tenha certeza. Tenha certeza de que, se a seleção for avançando de fase, você se pegará torcendo também. Ainda que não conte pra ninguém. Ainda que seja apenas no seu íntimo distante, isolado, esquecido, incomunicável.

A Copa do Mundo reside naquele lugar intocado da alma brasileira em que panfletos políticos são deixados do lado de fora

É de lá que virá um grito estranho de alegria ou frustração quando marcarmos um gol. Como se você tivesse voltado a ser criança. Porque a Copa do Mundo não pede licença à nossa coerência intelectual. Ela reside naquele lugar intocado da alma brasileira em que panfletos políticos são deixados do lado de fora. Mora onde bandeirolas cobrem as ruas, o cheiro de asfalto pintado de verde e amarelo se mistura ao som de cornetas plásticas, rachando o silêncio do ponto facultativo.

O intelectual que escreve teses sobre a alienação do povo através do esporte é o mesmo que, aos quarenta do segundo tempo, sente um nó na garganta se o atacante chuta na trave. O militante que jurou boicotar o torneio se pega xingando o juiz em pensamento. É uma hipocrisia involuntária, inevitável e de-li-ci-o-sa.

Até tentamos transferir essa força gravitacional para outras coisas. Românticos dizem que a nossa música nos une. Mentira. A música nos divide em nichos, algoritmos e tribos incompreensíveis entre gerações. Cientistas políticos sugerem que o orgulho por conquistas institucionais deveria nos aproximar. Bobagem. Ninguém vai para a avenida estourar rojão porque a balança comercial fechou no azul ou porque batemos recordes de exportação de aeronaves.

Temos fome de sermos os maiores do mundo em alguma coisa que não seja trágica. Cansados de liderar estatísticas de violência ou desigualdade, a Copa é o único espelho que nos devolve a imagem de uma realeza. Quando a seleção entra em campo, o Brasil não é um "país em desenvolvimento". É a potência hegemônica. Ainda é; somos.

Precisamos do espetáculo, do drama comungado, do épico vivido, do mitológico restaurado. Só uma Copa do Mundo nos proporciona isso. Que venha o hexa, que venha a trégua. Precisamos dele, precisamos dela. Mais do que nunca, como sempre.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.