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Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

Ninguém olha para cima

Nossa eleição está mais rasgada que a bandeira na Praça dos Três Poderes

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A bandeira nacional rasgada na Praça dos Três Poderes é uma metáfora perfeita para nossa situação atual. (Foto: Imagem criada utilizando Google Gemini/Gazeta do Povo)

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A Praça dos Três Poderes, em Brasília, está em reforma. É sério. Faz um bom tempo, aliás, desde 2025. Estão restaurando, no momento, as pedras de piso português. Serão restauradas também obras de arte e revitalizados o Museu da Cidade e o Espaço Lúcio Costa.

O acesso aos locais está restrito por causa das obras, não apenas pelas grades em torno do STF entricheirado em seu feudo. Vejo-as de fianco pela tevê, tornaram-se um cenário de fundo nas entradas ao vivo de variados repórteres noticiando o mais-do-mesmo do mundo político.

Infelizmente, por dever de ofício, assisto a essas coisas. Em uma das reportagens, a câmera mostrou, sem querer, a bandeira do Brasil hasteada no meio da praça, a única coisa possível de ser vista da rua. É enorme, com 286 m² de tecido flanando no alto do mastro de 100 metros de altura. Mas, naquela vastidão de Brasília, tudo acaba se apequenando.

Se as eleições fossem uma bandeira nacional, não haveria mais pano para rasgar

Assustei-me, parecia estar rasgada. E está mesmo, conferi em fotos. Aí, meu amigo (e)leitor, é tão simbólico, mas tão simbólico, de significado tão óbvio, que a crônica poderia acabar aqui. Mas não termina porque fiquei a pensar: há quanto tempo está assim, sem ninguém notar? Ninguém olha para o céu em Brasília?

Entendo que estão há meses com o olhar para baixo, paralisados diante das telas, dos celulares, acompanhando o vazamento de conversas, fotos, áudios, vídeos. A República jaz exposta inteira, putrefata, em forma de prints. Mas nem uma olhadinha pra cima, ô turma?

E não deixa de ser irônico que no próximo domingo o país inteiro entrará no único recinto da República em que não se entra com celular – tirando as festas privadas do Vorcaro. Na urna não há áudio, não há print, não há grupo de mensagens, não há intermediário. Só o eleitor e sua escolha, no (suposto) maior sigilo que ainda (supostamente) sabemos guardar.

Havia escrito esta crônica até o parágrafo anterior. Aguardava o debate da Globo, na quinta à noite, para fechar o texto na manhã seguinte e mandar para a publicação no jornal. Mas debate não houve, por censura e intervenção judiciais absurdas. Chegaram a proibir que as câmeras filmassem o púlpito vazio. Nem a ausência pôde ser exibida.

Se as eleições fossem uma bandeira nacional, não haveria mais pano para rasgar. O símbolo nacional, aliás, passa por trocas periódicas. Uma bandeira nova a cada tanto de tempo, o pano se renova, o ritual se cumpre, o Iphan nem precisa ser acionado. A troca dos políticos no poder deveria ser assim também, ritualística, previsível, tediosa até.

Mas as eleições se tornaram mais como trocas de fralda, e a de 2026 tem toda a pinta de ser o último pacote disponível, se é que ainda sobrou algum. A dúvida é perfeitamente legítima diante desse estado de coisas que não é de direito: o resultado da eleição, se for eleito alguém contrário aos donos do regime de força, será respeitado?

O pano rasgado da bandeira tremula com uma dignidade solitária em Brasília. Logo será substituída por outra, talvez do Brasil, mas o rasgo não terá mais remendo. Até as pedras portuguesas do piso sabem disso. Assim como sabem que, se houver reconstrução, ela virá de baixo, por mãos que nunca seguraram um copo de uísque entupido de Macallan, por bocas que nunca fumaram charuto, por vozes que não dão entrevista, mas se fazem ouvir. Às vezes, nas urnas.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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