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Faltam poucos dias para o primeiro turno, e esta talvez seja a eleição mais deprimente da nossa história. A fila da urna terá a atmosfera de um velório. E o defunto somos nós também.
As instituições são como as pessoas que as ocupam. São imperfeitas, falíveis, por vezes traidoras, porque somos assim, é da natureza humana. Mas a degradação institucional que estamos vivendo revela ocupantes indignos até do pior que há em nós.
Somos moradores de uma casa que foi corroída e está prestes a ruir por completo. Mas não há para onde ir. Para onde formos, as ruínas nos acompanharão. Não há alternativa a não ser tentar reformar.
A degradação institucional que estamos vivendo revela ocupantes indignos até do pior que há em nós
Votar, este ano, é um ato de fidelidade a nós mesmos: à ideia, cada vez mais desprezada, de que ainda vale a pena disputar o destino da casa em vez de simplesmente assistir ao desabamento pela janela. Esta teimosia sem ilusões é o único gesto possível depois que todas as promessas se cumpriram ao contrário.
Entre a abstenção elegante, que finge estar acima da lama, e o voto cansado, que mergulha nela mesmo sabendo que vai sujar as mãos, prefiro o segundo. É mais honesto porque não finge pureza: reconhece a lama e mesmo assim entra na fila. Sem fé, apenas com a modesta recusa de desistir. Ainda que o voto pareça ser mais um gesto de despedida do que de confiança.
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Quem de fato desistiu não vai à urna, fica em casa, indiferente e autoenganado, crente de estar liberto até do incômodo de desprezar. O voto, mesmo desesperançado, é a prova de que ainda nos importamos minimamente.
Estamos como no famoso poema de Drummond, aquele da festa que acabou, da luz que se apagou, do povo que sumiu na noite e mesmo assim seguimos adiante, mesmo não conseguindo responder à pergunta final do poeta: “José, para onde?”
As grandes tradições, sejam filosóficas ou religiosas, ensinam o mesmo sobre a esperança verdadeira, que ela não é um otimismo. É, no mínimo, a decisão de continuar agindo bem mesmo quando o resultado parece perdido de antemão. É para onde temos de ir, José.
Entre a abstenção elegante, que finge estar acima da lama, e o voto cansado, que mergulha nela mesmo sabendo que vai sujar as mãos, prefiro o segundo
Mas é preciso admitir que se mesmo assim a reforma falhar, haverá demolição. Recomeçar do zero, sem garantia de que o que vier depois seja melhor do que aquilo que ruiu. Ninguém quer isso. Mas, se acontecer a derrocada, será preciso lidar com ela, não fugir dela.
Ainda que este seja um destino possível, é sempre bom lembrar que a primavera também é inexorável. Aliás, a deste ano começou nesta semana, cheia de chuva e fúria. Chegou como sempre chega, sem pedir licença, sem esperar que as instituições se consertassem – ou nós. A natureza não sabe fazer greve de esperança.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Francisco Escorsim é formado em Direito e Filosofia. Atua como professor e escritor de filosofia e literatura. É coautor de várias obras, entre elas "A Formação do Imaginário", “Mapa da maturidade: do naufrágio ao resgate” e "Arrume seu Quarto: um Guia Para Entender Jordan Peterson". **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




