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Cartaz do filme "Era uma Vez no Oeste"
Cartaz do filme “Era uma Vez no Oeste”| Foto: Divulgação

Esta semana circulou uma imagem do calendário de 2020, contendo janeiro e fevereiro e depois um emaranhado de meses com o nome “Quarentena”, voltando a ter novo mês apenas em dezembro. Eu ri, mas pensando bem, periga 2020 ser precisamente assim. Um ano trágico, sem dúvida, mas que também pode ser épico. Não me refiro ao sentido corrente com que essa palavra tem sido usada, como algo que basta ser grandioso para ser assim considerado. Não, para que algo dito épico seja de fato épico é preciso (bem) mais do que isso.

Os grandes épicos cantam a fundação ou reconstrução de civilizações, narrando grandes feitos heróicos definidores de identidades dos povos, como a Eneida, de Virgílio, para os romanos; Ilíada e Odisseia, de Homero, para os gregos; e Os Lusíadas, de Camões, para os falantes de língua portuguesa. Talvez, para quem ache que depois da pandemia haverá um “novo mundo”, ou ao menos um “novo normal”, a epicidade de 2020 esteja garantida neste sentido “fundador”. O porém para isso é achar que “ficar em casa esperando passar” seria algo heróico. Aí a coisa se torna simplesmente ridícula. Porque não há épico sem heroísmo.

Se nossa ação em 2020 pode ser épica, sem dúvida não será sem absorver o irônico desta situação. E como fazer isso? Aprendendo com um épico, ora. Estamos como os três pistoleiros da icônica cena inicial do soberbo Era Uma Vez no Oeste, de Sergio Leone. Já assistiu, leitor quase heroico? Pois aproveite o fim de semana e (re)assista, não irá se arrepender. Está na Netflix, aliás. Estamos ali naquela cena de abertura de 15 minutos, praticamente sem diálogos, com os três esperando um trem ao som de uma sonoplastia impecável. Tudo que podem fazer é esperar pelo trem, como nós a esperar pela vacina. Ou um remédio “tiro e queda”. Ou a tal da imunização de rebanho. E é isso 2020, essa espera, essa expectativa.

Estes três pistoleiros estão ali somente para esta cena, depois não mais. Mas ela é crucial para estabelecer não apenas o ritmo, também a forma do filme, que é épica. A penúltima realidade épica a ser retratada pela arte (a última está em curso, é a conquista do espaço) foi a fundação das Américas, sendo que a dos EUA em particular, com sua conquista do Oeste, não veio pela poesia, mas pelo cinema, com os famosos filmes de faroeste, como este de Leone, lançado em 1968. Trata-se de um novo mundo sendo criado em torno das linhas férreas. Onde o trem chegava, por onde passava, indivíduos se instalavam criando comunidades e dando forma a um povo, a um país.

A história do filme é uma dessas tantas histórias de indivíduos muitas vezes sem nome ou desconhecidos, como o “Harmônica”, interpretado por Charles Bronson, que pouco fala e muito toca sua gaita de boca como um dos protagonistas; como o de Cheyenne, o anti-herói magistralmente interpretado por Jason Robards; como o de Jill, a prostituta encarnada pela bela e talentosa Claudia Cardinale, impecável no filme. Histórias entrelaçadas de indivíduos que serão esquecidos pela história, mas sem quem outra história maior, esta sim inesquecível, da conquista do deserto e edificação de uma nova civilização, sequer existiria.

Nos filmes de Leone não há grandes heróis e vilões, mas personagens que trazem dentro de si o herói e o vilão, ora agindo como um, ora como outro. Defeituosos como são também os grandes heróis da poesia épica. O que os diferenciam? A presença dos deuses.

Em Homero e Virgílio, quem nos conta as histórias são as Musas, deusas que fazem de seus cantores instrumentos musicais. E é por ser da perspectiva dos deuses que a história é contada que só o ouvinte ou leitor, não os personagens, podem ver o que é invisível, a ação mesma dos deuses agindo em prol ou contra os humanos na consecução de seus destinos. Nada fica subentendido, nada fica ambíguo, tudo está às claras. E se somos capazes de enxergar a ação divina, então temos face a face o sentido e significado de todas as coisas.

Mas onde os deuses em Era Uma Vez no Oeste? Tal como n’Os Lusíadas, as Musas já cessaram e outro valor mais alto se alevantou com a cruz de Cristo. Então, onde o Cristo no filme? Há sua aparente ausência pela distância pecadora dos personagens: um vivendo pela ira, buscando vingança; outro, Cheyenne, sendo um assassino fora-da-lei; e, por fim, Jill, uma prostituta.

A única referência cristã no filme se dá no enterro, logo no começo do filme, de toda uma família, quando o pastor cita o Evangelho: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente.” Enquanto isso, a câmera nos coloca no ponto de vista do caixão, vendo Jill de pé diante de nós, mas de costas para um belíssimo céu azul, enquanto uma belíssima música comunica tudo.

É no silêncio daquela primeira cena dos pistoleiros, no magnífico uso da sonoplastia antecipando as ações, que o invisível vai se tornando percebível: algo está acontecendo, mas o quê? O que estamos a esperar exatamente. Levará o filme todo para entendermos. E com a entrada da estupenda trilha sonora do já saudoso Ênio Morricone, o invísível começa a se tornar “visível”, como na cena do enterro. Cada personagem tem seu tema musical particular e é por ele que o sentido e significado de sua história é revelado.

No de Harmônica, por exemplo, a gaita de boca solitária entrega o lamento de sua profunda desolação que mesmo vingada não encontra solução; é um personagem trágico. Cheyenne, por sua vez, ganhou tema mais leve e simples, um tanto irônico, como sua morte tola. Já Jill recebeu tratamento musical muito superior, começando com uma breve tensão simplificada que pelo que vem depois se torna um mero ranger de porta se abrindo para uma evidente redenção. Belo é pouco para descrever esta música, que não por acaso se tornou o tema do filme todo.

A vida humana, sem Deus, é apenas movimento como o de um trem, indo de estação em estação, até a morte que não é mais do que um ponto final numa frase. A vida humana, com Deus, encontra sua estação em qualquer lugar e em qualquer condição, seja no desértico velho oeste, seja no desconfortável 2020 pandêmico, fazendo desse lugar um lar, se possível, e com outras famílias formar uma comunidade cujo sentido e significado sempre a transcende.

Tanto Harmônica quanto Cheyenne, embora desejem algo assim, anseiem no fundo do coração por esse “lugar”, recusam-no quando têm a oportunidade para tanto. Apenas Jill, embora pareça perder mais uma vez ao final do filme, naquela vida muito difícil, na verdade ganhou o que ainda não pode ver nem saber, porque a vida da ressurreição é, para quem está do ponto de vista do caixão que mira o céu, não mera espera ou expectativa do que pode não ser, mas esperança pela certeza do que é e não pode não ser.

Quem tiver olhos para ver e ouvidos para ouvir, que veja, ouça e faça de 2020 o seu Era uma vez na Peste. Aí sim este ano será épico.

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