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Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

Equilíbrio

Aproveite, antes que a histeria eleitoral nos contagie

histeria eleitoral
Em breve, todos tentarão mergulhar você na histeria eleitoral; resista o quanto puder. (Foto: Imagem criada utilizando Google Flow/Gazeta do Povo)

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Enfim, um breve intervalo de possível diálogo. Não precisamos mais odiar (tanto) a CBF, o Ancelotti, os jogadores, a Argentina e ainda não fomos intimados a odiar (tanto) os candidatos da próxima eleição.

Experimentamos uma trégua involuntária, um vácuo sanitário onde o cérebro do brasileiro médio flutua em um raríssimo estado de paz. Ou tédio, a depender do quão viciado você está em odiar. E quem não está? Pois é. 

Por alguns dias, o sujeito que estaciona o carro na vaga errada ou fecha o cruzamento no trânsito é apenas um motorista barbeiro, e não um “Só podia ser petista!” ou “Só podia ser bolsonarista!” Desfrute.

Olhe para o horizonte; perceba como pode ser amplo. Converse sobre o preço do chuchu no mercado ou sobre a frente fria que está chegando. É altamente provável que, em duas semanas, o horizonte seja uma tela e o chuchu e a chuva passem a ter viés ideológico.

Antes que a eleição transforme a sua timeline em um festival de messianismo barato, jingles insuportáveis e promessas de coisas “de graça”, exerça o sagrado direito ao desinteresse temporário

Nossa sanidade tem prazo de validade curto por estas paragens, sabemos bem. A histeria eleitoral vai se instalando nos detalhes mais mundanos do cotidiano. Quando nos damos conta, já estamos lendo a recomendação do dia – picanha ao alho e óleo e doce de abóbora para sobremesa – como prova irrefutável do quão lulista é o restaurante.

Se o leitor não quiser se tornar mais um dos “walking dead” eleitorais, aconselho a constantemente se autodiagnosticar. O vírus da militância de estábulo é altamente contagioso, e os primeiros sintomas são perigosamente sutis. Se não prestarmos atenção agora aos nossos próprios tiques nervosos, quando a propaganda oficial começar estaremos irremediavelmente perdidos no hospício das redes sociais.

Para ajudá-lo a mapear o próprio estado mental antes que o bombardeio comece, proponho um inventário clínico. O primeiro sintoma é algo sempre besta, como a perda da inocência gastronômica apontada acima. O problema é que entre o ridículo do primeiro sintoma e a gravidade do segundo, quase não há respiro.

O segundo estágio é a perda do bom senso doméstico e a falência das relações familiares. Na mesa do almoço de domingo, o teste definitivo: se o seu tio faz piadinha e você gasta dez minutos analisando a simbologia do que ele disse, o diagnóstico é terminal. Você já trocou a convivência pacífica pelo monitoramento ideológico acima de tudo e todos.

Há também o sintoma clássico do analista de elevador. É aquele indivíduo que não consegue mais comentar que “o dia está bonito” sem emendar um “mas com esse governo, quem vai aproveitar?” A pessoa perde a capacidade de viver qualquer coisa sem carimbá-la com um CNPJ partidário: se chove, é a falta de infraestrutura da gestão atual; se faz sol, é o prenúncio do apocalipse econômico que os jornais escondem. Nesse caso, apenas responda “É complicado, né?” e se afaste, lenta, mas inexoravelmente, sem olhar para trás.

Portanto, antes que a eleição transforme a sua timeline em um festival de messianismo barato, jingles insuportáveis e promessas de coisas “de graça”, exerça o sagrado direito ao desinteresse temporário. Pratique o carpe diem do cidadão comum.

Deixe para odiar o próximo quando a lei eleitoral obrigar. Por enquanto, desfrute do privilégio de ser apenas um brasileiro descansando entre dois grandes surtos coletivos

Quando o primeiro conhecido tentar puxar assunto no WhatsApp sobre o plano de governo de um candidato qualquer, aplique a técnica do recuo estratégico. Olhe fixamente para o horizonte, suspire com enfado e mude de assunto teclando sobre a diferença entre detergente neutro e concentrado, ou sobre o método correto de descalcificar a cafeteira. Ninguém, em sã consciência, sustenta um debate sobre isso por mais de dois minutos.

Aproveite este vácuo. Use estes dias para conversar com quem pensa diferente sobre assuntos que não importam absolutamente nada. E se você não consegue pensar em algo, eis mais um sintoma…

Enfim, deixe para odiar o próximo quando a lei eleitoral obrigar. Por enquanto, desfrute do privilégio de ser apenas um brasileiro descansando entre dois grandes surtos coletivos.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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