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Zélia e Luís Martin, pais de Santa Terezinha do Menino Jesus.
Zélia e Luís Martin, pais de Santa Terezinha do Menino Jesus.| Foto: Divulgação

A Sra. Martin, mãe de Santa Teresinha, morreu aos 46 anos, idade que farei logo mais, em abril. Teresinha tinha 4 anos à época, meus filhos farão 11 e 17 neste ano. A morte do pai ou da mãe é algo completamente diferente de outras mortes, não consigo sequer imaginar como seria para os meus meninos se eu me fosse agora.

Quando meu pai morreu, eles tinham 2 e 8. O mais velho já tinha vivido isso com a morte da bisavó paterna, de cujo velório o que mais me lembro é dele sentado num banquinho de praça comendo pipoca doce daqueles pacotes rosados. Quando da morte do avô, segurou o tranco, mas dias depois, com a morte súbita de um porteiro do prédio em que moramos, desabou a chorar.

Fiquei a relembrar isso, meditando nestas palavras de Teresinha sobre a morte da mãe, fato com que abriu o segundo capítulo da história de sua alma: “Não me lembro de ter chorado muito. A ninguém comunicava os sentimentos profundos que me abafavam o coração contentando-me com olhar e ouvir em silêncio.”

O coração abafado…

Com a morte da mãe, naturalmente o pai tomou uma dimensão maior na vida de Teresinha: “nosso pai, já de si tão afetuoso, parecia transbordar agora de um amor maternal”. Boa parte deste segundo capítulo é ela falando dele, seja diretamente, com os passeios e as brincadeiras que participava para agradá-la, seja indiretamente, como presença paternal mesmo quando ausente, como na impressionante visão profética de Teresinha narrada ao fim.

Mas nada supera a visão que Teresinha teve do Sr. Martin durante uma missa: “confesso que olhava mais para o papai do que para o pregador, porque na sua bela fisionomia lia tantas coisas! Quantas vezes os olhos não ficavam rasos de lágrimas, por mais esforços que fazia para as conter! Sobretudo, quando ouvia discursar sobre as verdades eternas, já não parecia homem deste mundo, mas do outro para cujas paragens se sentia logo transportada a sua alma.”

Uma coisa que me chama a atenção nesta releitura do livro agora é o quanto acompanhar o olhar de Teresinha, mais do que as palavras, faz toda a diferença. Em alguns momentos ela nitidamente suspende a narrativa e descreve o que vê, como o pai nesta cena. É um convite para parar e meditar com ela.

Quantas responsabilidades não tinha o Sr. Martin. Quanto sofrimento pela perda da esposa não precisou abafar para poder ser pai e mãe de suas meninas. Certamente não se deixava ver nos momentos de fraqueza, de pranto. Imagine o tamanho da emoção para, naquela missa, não conseguir conter as lágrimas. Que não eram lágrimas de dor, pelo que perdeu nesta vida. Mas de alegria pelo Céu que se fazia presente em palavras eternas.

Sobretudo, quando ouvia discursar sobre as verdades eternas, já não parecia homem deste mundo, mas do outro para cujas paragens se sentia logo transportada a sua alma

“Na sua bela fisionomia lia tantas coisas!”, disse Teresinha sobre o pai. Este capítulo está cheio de descrições em que podemos ler muito mais do que está sendo dito com palavras. O mirante, com seu vasto horizonte, por exemplo, os altarzinhos montados por ela com flores nos vãos dos muros do jardim, o espetáculo de uma tempestade com trovões e raios, o terço benzido, o “T” escrito pelas estrelas no céu, a primeira vez que viu o mar…: “Não terminaria nunca se quisesse narrar em detalhes mil fatos deste gênero presentes ainda hoje em meu espírito”.

Mas o que lemos nessas descrições cheias de beleza delicada? O que estava presente no espírito dela: uma comunhão com as demais criações de Deus. Em uma dessas cenas ela vai além da descrição do que via, mas também revela o seu mundo interior. É quando pescava com o pai:

“Chegados ao rio, pegava às vezes na minha caninha e punha-me também a pescar; mas ordinariamente buscava um lugar afastado e, sentada na relva, entregue a profundos pensamentos, sem ter ainda noção do que fosse meditar, sentia que minha alma se abismava numa verdadeira oração. Ao som de ruídos longínquos e do murmurar do vento, a que vinham juntar-se por vezes algumas notas indecisas da charanga militar da cidade, o meu coração melancolizava-se com uma suavidade indizível e, pintando-me a terra como um lugar de exílio, fazia-me sonhar com o Céu!”

“Sem ter ainda noção do que fosse meditar”... Como é bom ler isso. Porque, não sei você, leitor, mas eu nunca fui ensinado a meditar. Só depois de “velho” fui ter noção dessas coisas. Do pouco que aprendi, sei que para diferenciar meus pensamentos de meditações é preciso acontecer como Santa Teresinha descreveu aí, a alma de repente se abismar, calando por dentro, como que sendo conduzida pelo que vê ou sente.

E quando da meditação se chega à contemplação, aí não se quer mais “voltar” mesmo. Talvez seja por isso ela tenha encerrado o segundo capítulo falando de quando isso lhe aconteceu ao contemplar o mar pela primeira vez: “Pareceu-me então que o meu coração navegava no meio daquele sulco, a modo de barquinho ligeiro de graciosa vela branca, e fiz propósito de não afastá-lo nunca das vistas de Jesus, para que possa velejar tranquila e velozmente para as praias ditosas do Céu.”

Do coração abafado de dor ao coração dilatado pelo amor a Jesus, eis em resumo o navegar para a santidade.

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