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E quem não está, não é mesmo? Motivos não faltam, abundam.
O leitor deve ter visto o vídeo do juiz mineiro entornando uma garrafa de vinho durante um ato judicial on-line e, depois, outro que publicou parecendo que ainda continuava a beber, dizendo-se cansado de tudo e xingando meio mundo com a língua enrolada.
Confesso que minha primeira reação foi de inveja. Sim, inveja. Não pela bebida, por se dizer cansado, por xingar meio mundo, mas pelo f***-se tudo! Compreendo perfeitamente, a sensação de libertação deve ser muito satisfatória.
Porém, contudo, entretanto, todavia, toda sensação passa, mas as consequências ficam. O tal do preço a se pagar, ah, o preço… Aí pode sair caro demais. O custo-benefício raramente vale a pena. E no caso do juiz me refiro menos à possível perda do cargo e mais ao estrago na sua própria vida. O f***-se tudo dele parece se revelar mais uma destruição do que libertação.
Ninguém tem mais a menor paciência para tentar convencer os outros de que seu candidato, sua ideologia, seu partido, são melhores
Veja-se o caso de Nando Reis, aquele bom compositor que infelizmente canta. Dias atrás, em entrevista, revelou que só se ferrou por ficar falando de política em seus shows. Resolveu parar com isso, cansou também. Como Lobão, que também parou com isso já tem uns anos. Cansaram de alienar parte de seu público, colegas de profissão etc. O custo não valeu a pena.
Provavelmente você está pensando agora em Wagner Moura, leitor informado, que também falou em entrevista recente que cansou de se meter em política, cansou de ser odiado. Identifico-me com a vaidade de Wagner. É também por causa da minha que reclamo do meu cansaço. A diferença, talvez, é que tenho consciência dele, tornando-me um pouquinho menos pior.
Mas mesmo quem acha que não está cansado, como o militante mais engajado, seja à esquerda ou à direita, está cansado. Ninguém tem mais a menor paciência para tentar convencer os outros de que seu candidato, sua ideologia, seu partido, são melhores. Se você discordar ou apenas duvidar, só pode ser um idiota, na melhor das hipóteses.
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Talvez seja o que nos une hoje, esse cansaço. E deixemos assim, cansaço apenas, sem definir do quê. Um cansaço que já não distingue lados, que ataca a todos por igual, como uma epidemia. Infelizmente, não tem produzido mais do que desabafos e explosões de fúria. Formas diferentes do mesmo gesto: erguer os braços e dizer “não aguento mais”, cada um à sua maneira.
Sêneca dizia, lá pelos idos do primeiro século, que a ira, mais do que qualquer outra paixão, se nutre de si mesma e cresce pela própria satisfação. O juiz mineiro, ao dar vazão ao seu cansaço da pior forma possível, não extinguiu sua frustração, apenas a trocou de fornalha.
Se podemos tirar algo de bom disso tudo, talvez seja a atitude quase monástica de simplesmente parar de alimentar a fogueira que nos esturrica a paciência. Neste sentido, aplaudo Nando Reis, Wagner Moura, Lobão e quem mais quiser descansar antes que nos tornemos, todos, como o juiz mineiro.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Francisco Escorsim é formado em Direito e Filosofia. Atua como professor e escritor de filosofia e literatura. É coautor de várias obras, entre elas "A Formação do Imaginário", “Mapa da maturidade: do naufrágio ao resgate” e "Arrume seu Quarto: um Guia Para Entender Jordan Peterson". **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




