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Obrigado, Marcelo Cirino
| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Quando era piá de tudo, das brincadeiras que mais gostava havia uma com meus jogadores de botão num tapete que tínhamos na sala. O tapete era de tamanho perfeito para simular um campo de futebol e eu encenava partidas épicas, imaginando cantos de torcida, narração, comentários, o pacote completo. Não via muita graça em jogar botão como se joga botão, com uso das palhetas etc. Chato demais, lento demais, tão emocionante quanto um partida de xadrez em campo de bocha.

No meu campinho imaginário a bola corria solta, havia tabelas, triangulações e gols antológicos, quase sempre do casal 20, Washington e Assis, com a camisa athleticana, evidentemente. No tapete sintético da minha infância a dupla jogou no Athletico até 88, pelo menos. Só Carlinhos Sabiá lhes fez concorrência a partir de então, acho que o último ponta de ofício que vi jogar e que se tornou ídolo athleticano com os títulos paranaenses de 88 e 90, que ganhamos com gol contra dos coxas e com Carlinhos, substituído, ficando nos minutos finais como um maestro atrás do gol regendo a torcida.

Que obra de arte foi aquela, Marcelo? Ali em você reencarnaram todos os meus antigos ídolos, devolvendo-me a infância de vez

Aí cresci, parei de brincar, mas nunca de sonhar, e então veio Alex Mineiro e, agora, Marcelo Cirino. O que foi a jogada que você fez no gol do título da Copa do Brasil, Marcelo? Emociona-me só de lembrar. Depois da disparada como típico ponta – ah, que ponta você teria sido nos anos 80… –, protegeu a bola com suas longas pernas contra dois adversários para daí fazer a jogada mágica, parecia que via Assis ali, dando aquela caneta de letra e deixando os dois defensores abestalhados, desistindo da jogada. Aí mais um corte desconcertante num terceiro zagueiro, a assistência precisa à la Alex Mineiro para o gol estrelado de Rony. E, enquanto descrevo, sorrio imaginando quantas vezes não fiz jogada parecida no meu tapete da infância.

Que obra de arte foi aquela, Marcelo? Ali em você reencarnaram todos os meus antigos ídolos, devolvendo-me a infância de vez, que já vinha tomando conta desde antes da partida. Ao sair de casa para assistir ao jogo num churrasco com amigos, entrou no elevador um gaúcho torcedor colorado. Amistosamente nos tratamos, com todos não vendo a hora de chegar ao térreo e ir cada um para o seu destino. Lembrou-me dos Atletibas da meninice, pois meu pai era coxa e minha mãe é athleticana, tendo um irmão seguido meu pai, e eu e o outro fomos para o lado da minha mãe. Pode imaginar como era a guerra fria nos dias de clássico, quando, fosse qual fosse o resultado, o destino era o mesmo para todos.

O momento decisivo foi na semifinal do Brasileirão de 83 contra o Flamengo de Zico. Eu tinha 7 anos e saí do Couto Pereira eternamente athleticano

No churrasco, um amigo que conheceu meu pai e sabia que era coxa de ir a jogos e tal perguntou, justamente por isso, como me tornei athleticano. Respondi que minha mãe, quando jovem, era athleticana de ir ao estádio no seu Fusquinha segurando um bandeirão pela janela do carro. Não precisaria dizer mais nada como resposta, mas digo. Suspeito que o momento decisivo foi na semifinal do Brasileirão de 83 contra o Flamengo de Zico. Perdemos de 3 no Maracanã e veio o jogo da volta, no Couto Pereira com mais de 65 mil pessoas. Eu era uma delas, meu pai me levou. Será para sempre o recorde de público do estádio, tinha gente pendurada até nas torres de iluminação. A atmosfera da paixão rubro-negra era impressionante. Em 20 minutos fizemos dois gols, ambos de Washington. Nunca vi tamanha esperança. No fim, não foi suficiente para ir à final, mas o “quase” não parecia derrota, mas não mesmo.

Foi meu batismo. Eu tinha 7 anos e saí dali eternamente athleticano. Quase a mesma idade do meu caçula hoje, que tem 8. No jogo desta semana assistimos juntos, também com meu primogênito, de 14. Nos minutos finais, rezávamos a oração do Santo Anjo para cada jogador nosso em campo. Expliquei que, se rezássemos para Jesus ou Nossa Senhora, não iria adiantar porque os adversários estariam rezando tanto quanto e seria difícil para eles escolherem quem ajudar. Mas, se pedíssemos aos anjos da guarda dos jogadores, poderia fazer toda a diferença. Mal tínhamos terminado de rezar para o Marcelo e, enquanto falávamos para o do Rony, veio a jogada do gol do título. E foi assim, Marcelo, que você fez aquela obra de arte, com seu anjo da guarda lhe conduzindo como se fosse um dos meus botões no tapete da casa da minha infância.

Bem-vindo ao rol dos ídolos eternos dos athleticanos, Marcelo Cirino. E muito, mas muito obrigado.

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