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Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

“A Odisseia”

Que show da Xuxa é esse, Christopher Nolan?

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O Odisseu do filme de Christopher Nolan é um guerreiro traumatizado. (Foto: Melinda Sue Gordon/Universal Studios)

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Quisemos, eu e minha esposa, assistir com o caçula ao filme do He-Man. Uma temeridade, bem sei, mas nem o mais pessimista dos nostálgicos poderia imaginar que seria um filme tão ruim. Até o Esqueleto deve ter se espantado, ficando na dúvida se não foi ideia dele.

Enfim, não deu nem meia hora e me senti como a Xuxa de hoje usando os figurinos dela nos anos 80. Com a diferença que eu fiquei profundamente constrangido.

No dia seguinte, sentei-me aqui para trabalhar, escrever esta crônica, sem saber ao certo sobre o quê. Lendo notícias, deparo-me com a de Macaulay Culkin, o eterno menino de Esqueceram de Mim, negociando com a Disney para retornar ao papel de Kevin, agora um pai solteiro ausente que fica trancado fora de casa pelo próprio filho.

Desconfio que, antes de fazer sua “Odisseia”, Nolan assistiu ao filme do He-Man e aos ensaios do show que a Xuxa começou a fazer por aí

Por segundos, temi que meu caçula trancasse os pais pra fora de casa também por causa do filme do He-Man. Mas não somos ausentes, apenas tolos nostálgicos. Aliás, por curiosidade, fui pesquisar um pouco da história da nostalgia, a origem da palavra, essas coisas. Descobri que a palavra nem é grega de origem, apesar do verniz.

Foi um médico suíço, Johannes Hofer, quem a inventou em 1688. E não tinha nada a ver com um sentimento bonito de quem lembra da infância, mas uma doença.

Ele tratava soldados mercenários que definhavam longe de casa, incapazes de comer, de dormir, de funcionar. Hofer juntou dois pedaços gregos, nostos (retorno) e algos (dor), e criou um diagnóstico. “Nostalgia” nasceu como enfermidade de gente fora do lugar, fora do espaço. O sujeito sabia exatamente para onde precisava voltar, mas não conseguia.

É como o Ulisses de Christopher Nolan, na sua versão piorada da Odisseia de Homero. No filme, Ulisses é um herói da Guerra de Troia traumatizado, sentindo-se culpado, que nem quer voltar para casa de verdade. Ou seja, Nolan criou não uma história de nostos, de retorno, mas de nostalgia.

Como o filme ainda transforma essa culpa em algo civilizacional, tratando o Cavalo de Troia inventado por Ulisses como se fosse a bomba atômica descoberta por Oppenheimer, a nostalgia aí revela, na verdade, um temor desmedido de Nolan com o presente que vivemos e daí profetizando um futuro sombrio. Desconfio que, antes de fazer sua Odisseia, Nolan assistiu ao filme do He-Man. Também aos ensaios do show que a Xuxa começou a fazer por aí, não duvide.

Talvez seja essa a diferença: a nostalgia de Hofer era de quem estava deslocado no espaço e sabia exatamente para onde voltar. Mas a nostalgia megalômana de Nolan e a nossa, comezinha, é a de quem está deslocado no tempo em que vive. Por isso, corremos para os únicos endereços que ainda têm mapa: Ítaca, Eternia, a casa dos McCallister, a nave da Xuxa. E agora, com sua licença, acabou de estrear o novo filme do Homem-Aranha. Até depois!

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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