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Amigos, eu falarei muito da Copa, da Seleção. E muita gente já rosna, com tédio e irritação: “Futebol é o ópio do povo!” ou “Ninguém se importa mais com isso” ou sei lá qual outra expressão de mau sentimento e estado de depressividade na vida.
Mas é preciso redescobrir o Brasil, reencontrar quem somos. E somente nosso escrete conseguiu nos ensinar ambas as coisas. Eu sei, o termo “escrete” é esquisito, porém necessário. Devolve-nos ao passado, a Nelson Rodrigues, que adorava usá-lo.
Uma das minhas crônicas futebolísticas preferidas é “A Piada Imortal”. Publicada em 27 de maio de 1962, às vésperas da Copa do Mundo no Chile, é justo nela que Nelson afirma que a Seleção revelou o Brasil não apenas para o mundo, mas também a nós mesmos.
O que sabemos nós do Brasil? Perguntou ele, passando a lembrar como não éramos nada ufanistas antes da primeira conquista, em 1958. Ao contrário, adorávamos nos desprezar, como “um Narciso às avessas, que cuspisse na própria imagem”.
Não foi nesta crônica que cunhou a expressão “Síndrome de Vira-Lata”, mas é disso que se trata, no fim das contas. E foi assim que o escrete de 1958 foi à Suécia. Desconfiado, duvidando em espírito. Ainda mais depois da trágica derrota de 1950.
Vencemos a Áustria, empatamos com a Inglaterra e íamos para o jogo decisivo da fase de grupos contra a Rússia, que era poderosa na época. O empate traria riscos à classificação para a fase do mata-mata.
Não precisamos mais de piadas para nos dar a sensação de grandeza, porque somos mais do que grandes, somos os maiores
“Eu vou dizer o momento exato em que se inaugurou o verdadeiro Brasil. Foi após o hino nacional brasileiro. Os jogadores ainda estavam perfilados e trêmulos. A Rússia seria uma prova crucial. Mais do que nunca dava em cada jogador o dilema: ‘Ser uma besta ou não ser uma besta?’ E, então, soou, naquele escrete contraído, a voz de Garrincha. Com a sua candura triunfal, dizia o Mané para o Nilton Santos: ‘Aquele bandeirinha tem a cara do seu Carlito!’. Houve, então, o riso incoercível, total. Foi o bastante. O escrete tomou-se de uma nova e feroz potencialidade. E da piada de Garrincha partiu para a vitória.”
Não faço ideia de quem fosse o seu Carlito, mas sei que o nosso Carleto é a cara do seu José Sena, que era garçom e, agora, com a semelhança, anda tentando ganhar uns trocados como sósia do treinador do escrete atual. Mas desconfio que Nelson odiaria isso. Desconfio, não, tenho certeza. Fiquemos com o passado:
“Ali, começava o verdadeiro Brasil. Ninguém sabe, mas foi uma piada que derrotou a grande, colossal, a imbatível Rússia. A mesma piada deu ao brasileiro a sensação da própria grandeza. Com um quase pânico, o homem do Brasil percebeu que era genial.”
Hoje, com um inteiro pânico, o homem do Brasil sabe que a loucura reinante do politicamente correto derrotou a piada, qualquer piada. Garrincha seria cancelado, senão pelas piadas, por chamar todos os seus marcadores de “João”. A irreverência virou ofensa, para-se o jogo, ganha-se cartão amarelo, quando não vermelho.
Mas temos o escrete, que conquistou 1962, depois 1970, deixou de ser escrete para se tornar A Seleção, voltando a vencer em 1994 e 2002. Não precisamos mais de piadas para nos dar a sensação de grandeza, porque somos mais do que grandes, somos os maiores. Isto é um fato. Precisamos apenas realizar mais uma vez aquela feroz potencialidade. Só assim voltaremos a ter Garrinchas. E Nelsons Rodrigues. E deixar de sermos umas bestas que desprezam o melhor em nós.









