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Gravura de Abraham Bosse para a primeira edição do Leviatã, de Thomas Hobbes.
Gravura de Abraham Bosse para a primeira edição do Leviatã, de Thomas Hobbes.| Foto: Wikimedia Commons/Domínio público

Diferentemente do que muito progressista liberal possa acreditar, a salvação dos oprimidos não começou com a Revolução Francesa e suas guilhotinas. A premissa liberal de que a religião – cristã, sobretudo – deveria ser banida da esfera pública e permanecer no submundo da intimidade doméstica (só para as pessoas alienadas que desejam permanecer na mentira), caso o homem queira conquistar sua maioridade civil, não se sustenta diante de um minucioso exame crítico.

As teorias sociais modernas, que nasceram na esteira da afirmação positivista de que a religião cristã não passa de conto de fadas – ou, para ser mais irônico, ópio do povo –, e por isso precisaria ser substituída pela religião mais da humanidade, mais robusta racional e cientificamente, produziu seus mitos, ritos, sacerdotes e deuses sedentos. Para isso, eu recomento muito o livro de John Milbank Teologia e Teoria Social.

Aqui eu gostaria apenas de formular algumas perguntas: o cristianismo oferece uma concepção de mundo capaz de concorrer, racional e criticamente, com as teorias sociais seculares? Ou se trata apenas de uma religião cujo destino consiste em servir como desculpa para comilanças em festas de Natal, casamento arranjado e o batizado daquele sobrinho, filho de um irmão distante? Respostas: sim e não. Sim, porque consegue oferecer uma formulação consistente de mundo; não, porque não se reduz a ritos domésticos.

A premissa liberal de que a religião – cristã, sobretudo – deveria ser banida da esfera pública e permanecer no submundo da intimidade doméstica não se sustenta diante de um minucioso exame crítico

Sem dúvida teorias sociais seculares tendem a transformar a experiência religiosa – insisto, cristã – numa galaria de excêntricas curiosidades. Se a religião é o esteio moral da sociedade, a religião civil da humanidade, cujos atuais sacerdotes são cientistas sociais e YouTubers palmiteiros, oferece a palavra final em termos de redenção secular. Não precisamos do além-túmulo, pois a satisfação última do homem pode ser realizada aqui mesmo – depois da pandemia, claro.

Enfim, estou compartilhando esse desabafo motivado por duas razões que me ocorreram esta semana. A primeira razão é que participei de um podcast, aqui mesmo para a Gazeta do Povo, em que discutíamos novas formas de espiritualidade, a saber: como as pautas identitárias estão se tornando uma forma de religião substituta, como o autocuidado virou uma forma de culto e como o liberalismo estaria divinizando as máquinas. A nostalgia do absoluto – para usar a expressão de George Steiner – não sossega.

A segunda razão é que ouvi, numa entrevista sobre racismo estrutural, Silvio Almeida dizer o seguinte – peço desculpas pela longa citação:

Os brancos têm de entender uma coisa: eles não podem ser o algodão entre os cristais. Ou seja: eles não podem ficar pedindo moderação, eles não podem querer liderar o movimento negro. Eles não podem ficar pedindo calma quando nós estamos sendo assassinados. Porque, como se nós não soubéssemos a hora de ter calma. Porque uma coisa é importante: nós não estaríamos aqui se nós não soubéssemos estrategicamente como agir, se os nossos ancestrais não soubessem. Nós soubemos a hora de manter a calma [...].  Então a gente sabe como fazer, a gente sabe como agir, a gente tem as estratégias. Nós construímos historicamente os meios de sobreviver a isso. Então, se os brancos que querem se aliar, eles têm de entender que a nossa luta é uma luta para transformar as funções do mundo, para que nós deixemos de ser negros e para que eles deixem de ser brancos. Para que nós possamos superar isso em direção à constituição de uma nova humanidade. Como diz Frantz Fanon, “nós temos de sair da grande noite”. E a grande noite é onde habitam os negros e onde habitam os brancos. Sair da grande noite é sair em direção à humanidade.

A gramática usada é messianismo secular no sentido mais forte do termo: um salto de fé pessoal em busca da redenção da humanidade. O filósofo John Gray explicou a lógica dessa “escatologia” em Missa Negra. Aqui, os termos são de um verdadeiro apóstolo da religião civil da humanidade. Contudo, não se busca a salvação pessoal diante do Deus salvador. Não há ato pessoal de contrição. É o contrário: transforma-se a si mesmo em em deus julgador capaz de salvar toda a humanidade a partir do salto de fé na luta racial. Uma luta que reduz as pessoas a brancas e negras, presas na engrenagem da exploração. O simbolismo da luz e trevas serve de amparo retórico para convocar os fiéis para o lado certo da balança da justiça.

O cristianismo não se reduz a ritos domésticos; ele consegue oferecer uma formulação consistente de mundo

Gostaria encerrar com este trecho da carta aos Gálatas, em que São Paulo já teria demonstrado que quem nos tirou da “grande noite” não foi ninguém menos do que Cristo, por iniciativa do próprio Deus Salvador:

Assim a Lei se nos tornou pedagogo encarregado de levar-nos a Cristo, para sermos justificados pela fé. Mas, depois que veio a fé, já não dependemos de pedagogo, porque todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus. Ora, se sois de Cristo, então sois verdadeiramente a descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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