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Francisco Razzo

Francisco Razzo

Francisco Razzo é professor de filosofia, autor dos livros "Contra o Aborto" e "A Imaginação Totalitária", ambos pela editora Record. Mestre em Filosofia pela PUC-SP e Graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento-SP.

Filosofia moral

Por que o caso Orelha perturba tanto

Orelha vivia entre pessoas, era visto, alimentado, acariciado. Pertencia ao tecido afetivo do bairro
Orelha vivia entre pessoas, era visto, alimentado, acariciado. Pertencia ao tecido afetivo do bairro (Foto: 110280Andre/Wikimedia Commons)

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O caso do cachorro Orelha provoca indignação que ultrapassa o registro do crime. A violência ali desafia a capacidade ordinária de compreensão moral. Algo naquele gesto escapa às categorias com que habitualmente classificamos a agressão.

Falta disputa, reação, interesse, vantagem. Resta agressão dirigida contra vida absolutamente vulnerável. O choque vem da ausência de motivo reconhecível, de uma crueldade sem narrativa que a enquadre. O ato parece suspenso no vazio, violência pura, sem ancoragem no mundo das razões humanas.

Casos assim mobilizam o que o sociólogo francês Luc Boltanski chamou de economia moral da indignação. Certas formas de sofrimento, quando expostas publicamente, exigem julgamento imediato e convocam o espectador a tomar posição. A hesitação já soa como cumplicidade; o silêncio, como anuência. Ninguém pode ter a menor dúvida do que significa perversidade aqui.

Orelha aparece como figura moral completa: velho, dócil, conhecido, cuidado por todos. Inocência e dependência concentradas num grau que bloqueia qualquer tentativa de relativização, porque contexto algum atenua e ambiguidade alguma suspende o juízo. O velho cão encarna a vítima perfeita, aquela diante da qual toda justificativa se dissolve antes de ser formulada.

Certas formas de sofrimento, quando expostas publicamente, exigem julgamento imediato e convocam o espectador a tomar posição

Essa clareza moral explica a intensidade da reação. A indignação funciona como mecanismo coletivo de defesa simbólica, e ao reagir em uníssono, a sociedade reafirma um limite: há atos que não pertencem ao mundo comum. A repulsa compartilhada reconstrói, ainda que provisoriamente, a fronteira entre o tolerável e o impensável. Não à toa o risco é descarrilar para o linchamento — falo disso em outro artigo.

Quando esse limite é violado de forma tão inconfundível, surge a tentação de empurrar o agressor para fora da normalidade. Fala-se em psicopatia, monstruosidade, desvio radical — linguagem moral, não diagnóstico clínico. O que esses moleques fizeram ameaça a própria ideia de convivência e humanidade. Classificar os autores como "aberração" protege a imagem que a sociedade precisa fazer de si mesma: se os agressores são monstros, o ato permanece exterior à comunidade moral, e a ordem simbólica sobrevive intacta, ainda que saibamos que monstros são feitos da mesma matéria que nós.

A comoção nasce da empatia com a vítima, mas também daquele medo silencioso que acompanha esse tipo de violência. Se isso é possível sem motivo, o que mais pode ser? A pergunta ressoa porque a crueldade gratuita revela uma fissura na gramática moral do nosso cotidiano. O mundo comum pressupõe que a violência responda a alguma lógica — ódio, vingança, cobiça são motivos reconhecíveis. Afinal, quem aqui não está indignado a ponto de confundir justiça com vingança? Prova de que a ausência de motivo no ato de violência desarma o entendimento.

Há também um componente de proximidade que intensifica o pânico moral. Orelha vivia entre pessoas, era visto, alimentado, acariciado, e pertencia ao tecido afetivo do bairro. A violência contra ele atinge todos que participavam desse vínculo; cada morador sente que a agressão o alcançou. A reação pública cumpre função que vai além do desabafo, pois sinaliza quais valores a comunidade considera invioláveis.

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Resta, porém, uma inquietação que a indignação não resolve. O agressor não veio de fora — pertencia ao mesmo mundo em que Orelha circulava. A monstruosidade habitava a vizinhança, e isso perturba mais do que o próprio ato, porque sugere que a crueldade sem causa pode ser possibilidade latente, adormecida na maioria, desperta em alguns.

A filosofia moral tradicional oferece pouco consolo. Aristóteles pensava o vício como hábito mal formado, corrigível pela educação; Kant via no mal radical uma inclinação que a razão deveria subjugar. Ambos pressupunham inteligibilidade. A crueldade gratuita escapa a esses esquemas porque resiste à explicação. O mal aparece como pura negação, recusa do vínculo, desprezo pela ordem do ser. Algo próximo do que a tradição chamou de mal absoluto.

Orelha virou símbolo involuntário, e sua imagem condensa a fragilidade de toda criatura que depende da contenção alheia para sobreviver. A comoção que desperta precisa honrar algo verdadeiro: a intuição de que há vidas cuja integridade deveria estar além de qualquer arbítrio. O desafio é transformar essa intuição em ordem institucional capaz de proteger os que não podem se proteger.

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