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O caso do cachorro Orelha provoca indignação que ultrapassa o registro do crime. A violência ali desafia a capacidade ordinária de compreensão moral. Algo naquele gesto escapa às categorias com que habitualmente classificamos a agressão.
Falta disputa, reação, interesse, vantagem. Resta agressão dirigida contra vida absolutamente vulnerável. O choque vem da ausência de motivo reconhecível, de uma crueldade sem narrativa que a enquadre. O ato parece suspenso no vazio, violência pura, sem ancoragem no mundo das razões humanas.
Casos assim mobilizam o que o sociólogo francês Luc Boltanski chamou de economia moral da indignação. Certas formas de sofrimento, quando expostas publicamente, exigem julgamento imediato e convocam o espectador a tomar posição. A hesitação já soa como cumplicidade; o silêncio, como anuência. Ninguém pode ter a menor dúvida do que significa perversidade aqui.
Orelha aparece como figura moral completa: velho, dócil, conhecido, cuidado por todos. Inocência e dependência concentradas num grau que bloqueia qualquer tentativa de relativização, porque contexto algum atenua e ambiguidade alguma suspende o juízo. O velho cão encarna a vítima perfeita, aquela diante da qual toda justificativa se dissolve antes de ser formulada.
Certas formas de sofrimento, quando expostas publicamente, exigem julgamento imediato e convocam o espectador a tomar posição
Essa clareza moral explica a intensidade da reação. A indignação funciona como mecanismo coletivo de defesa simbólica, e ao reagir em uníssono, a sociedade reafirma um limite: há atos que não pertencem ao mundo comum. A repulsa compartilhada reconstrói, ainda que provisoriamente, a fronteira entre o tolerável e o impensável. Não à toa o risco é descarrilar para o linchamento — falo disso em outro artigo.
Quando esse limite é violado de forma tão inconfundível, surge a tentação de empurrar o agressor para fora da normalidade. Fala-se em psicopatia, monstruosidade, desvio radical — linguagem moral, não diagnóstico clínico. O que esses moleques fizeram ameaça a própria ideia de convivência e humanidade. Classificar os autores como "aberração" protege a imagem que a sociedade precisa fazer de si mesma: se os agressores são monstros, o ato permanece exterior à comunidade moral, e a ordem simbólica sobrevive intacta, ainda que saibamos que monstros são feitos da mesma matéria que nós.
A comoção nasce da empatia com a vítima, mas também daquele medo silencioso que acompanha esse tipo de violência. Se isso é possível sem motivo, o que mais pode ser? A pergunta ressoa porque a crueldade gratuita revela uma fissura na gramática moral do nosso cotidiano. O mundo comum pressupõe que a violência responda a alguma lógica — ódio, vingança, cobiça são motivos reconhecíveis. Afinal, quem aqui não está indignado a ponto de confundir justiça com vingança? Prova de que a ausência de motivo no ato de violência desarma o entendimento.
Há também um componente de proximidade que intensifica o pânico moral. Orelha vivia entre pessoas, era visto, alimentado, acariciado, e pertencia ao tecido afetivo do bairro. A violência contra ele atinge todos que participavam desse vínculo; cada morador sente que a agressão o alcançou. A reação pública cumpre função que vai além do desabafo, pois sinaliza quais valores a comunidade considera invioláveis.
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Resta, porém, uma inquietação que a indignação não resolve. O agressor não veio de fora — pertencia ao mesmo mundo em que Orelha circulava. A monstruosidade habitava a vizinhança, e isso perturba mais do que o próprio ato, porque sugere que a crueldade sem causa pode ser possibilidade latente, adormecida na maioria, desperta em alguns.
A filosofia moral tradicional oferece pouco consolo. Aristóteles pensava o vício como hábito mal formado, corrigível pela educação; Kant via no mal radical uma inclinação que a razão deveria subjugar. Ambos pressupunham inteligibilidade. A crueldade gratuita escapa a esses esquemas porque resiste à explicação. O mal aparece como pura negação, recusa do vínculo, desprezo pela ordem do ser. Algo próximo do que a tradição chamou de mal absoluto.
Orelha virou símbolo involuntário, e sua imagem condensa a fragilidade de toda criatura que depende da contenção alheia para sobreviver. A comoção que desperta precisa honrar algo verdadeiro: a intuição de que há vidas cuja integridade deveria estar além de qualquer arbítrio. O desafio é transformar essa intuição em ordem institucional capaz de proteger os que não podem se proteger.




