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Francisco Razzo

Francisco Razzo

Francisco Razzo é professor de filosofia, autor dos livros "Contra o Aborto" e "A Imaginação Totalitária", ambos pela editora Record. Mestre em Filosofia pela PUC-SP e Graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento-SP.

Feminismo

Título de eleitor não vem com adesão ideológica

Eduarda Campopiano
Eduarda Campopiano foi a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo. (Foto: Miqueias Itiuba)

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Já me perguntaram como pode um professor de Filosofia não ser de esquerda. A pergunta supõe que o diploma veio com ficha de filiação.

Voltei a essa pergunta ao ler, no Intercept Brasil, a análise de Camila Galetti sobre as antifeministas eleitas no domingo. Seis eleitas do PL somaram mais de 6,5 milhões de votos. A mulher mais votada para a Assembleia Legislativa paulista, com quase 2 milhões, se define como antifeminista. A autora resume o incômodo: “a explosão de votos ficou com candidatas que atacam justamente o movimento que abriu a porta para elas entrarem na política”. Li ali uma suspeita da mesma família da pergunta que me fizeram: quem pensa fora do esperado precisa de uma explicação que venha de fora.

Há verdade no incômodo. Melhor dizê-la antes de discordar: sem a luta sufragista não haveria voto feminino; sem voto, não haveria candidata. O texto, além disso, tem cuidados que eu não esperava. Reconhece que elas “têm o direito de discordar do feminismo” e chama de incompleta a leitura de que as eleitoras “estão votando contra si mesmas”.

O argumento central vem em duas frases: “Elas usam a própria presença como prova de que o feminismo é desnecessário. A existência delas, porém, só é possível por causa do que o feminismo conquistou”. Contra quem usa a presença como prova, procede. A genealogia, porém, não decide nada sobre o que elas defendem agora. Usar um direito não obriga a concordar com quem o conquistou: o título de eleitor não traz cláusula de reconhecimento de dívida; a liberdade religiosa, conquistada por crentes perseguidos, serve hoje ao ateu sem que lhe exijam o batismo.

A suspeita de que a mulher de direita pensa pela cabeça de outro já serviu para lhe negar o voto

O incômodo, no fundo, é com a incoerência. Maquiavel abre o capítulo XVIII de O Príncipe admitindo o que todos dizem: “Quanto seja louvável num príncipe manter a palavra e viver com integridade, e não com astúcia, todos entendem”. Depois observa que os príncipes que fizeram grandes coisas tinham feito pouco caso da palavra dada. Na política, a coerência vale pelo que rende: dá ao eleitor alguma previsão sobre o que o político fará amanhã. Cobrada do adversário, costuma servir para desqualificá-lo antes de discutir o que ele defende. O texto do Intercept, justiça seja feita, discute o que elas defendem: feminicídio, aborto, cotas. Nessa parte a discordância é de mérito e não cabe aqui.

Há casos em que a incoerência existe. A eleita que pediu voto apresentando a mulher sobretudo como esposa, mãe e fiel vive uma tensão que é dela. O eleitor, porém, não a puniu. Comprou o que a própria autora chama de “um discurso de ordem, família e proteção”. Maquiavel não estranharia.

Há no texto uma frase que destoa do resto: “Essas candidatas têm rosto de mulher e estrutura de homem: a campanha é financiada pelo partido, o suplente é o irmão, o marido concorre junto”. Repare em quem conjuga os verbos. O partido financia, o irmão é suplente, o marido concorre. À mulher sobra o rosto. O resto da análise lhes dá verbo o tempo todo; nesta frase, quando o incômodo aperta, o reflexo é procurar o homem atrás da mulher. E o dinheiro do partido, no caso delas, sai em parte da reserva para candidaturas femininas, cota que o próprio texto põe na conta do feminismo.

O reflexo tem história. Na França, o Senado barrou o voto feminino durante todo o entreguerras, em boa parte porque os radicais, a esquerda laica da época, temiam que as mulheres votassem como mandasse o padre. O voto só veio em 1944, por ordenança. O precedente não decide o caso de hoje. Lembra apenas que a suspeita de que a mulher de direita pensa pela cabeça de outro já serviu para lhe negar o voto.

A análise termina com uma questão: “Haverá mais mulheres no poder em 2027. A questão é para que vão usá-lo”. A linha anterior sugere a resposta: “Já sabemos em qual lombo o chicote dela quer estralar”. Pode ser. Quem vai responder é o mandato delas; quem vai cobrar é o eleitor. Lutou-se para que as mulheres pudessem escolher. Escolheram.

Em 1774, recém-eleito, Edmund Burke avisou aos eleitores de Bristol que lhes devia o próprio juízo; sacrificá-lo à opinião deles seria traí-los. Juízo próprio é o que a frase do rosto nega às eleitas de domingo. Quem as considera perigosas tem razões para combatê-las. Antes, precisa admitir que elas pensam o que dizem.

Volto à pergunta que me fizeram. Ensino Filosofia sem ficha de filiação. O máximo que posso alegar a meu favor é que os erros, quando houver, são meus. Imagino que as eleitas de domingo possam dizer o mesmo.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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