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Sou realista, da variedade trágica, que é a menos animada de todas. Trágica no sentido de Agostinho: a cidade dos homens vive da libido dominandi, o desejo de dominar, que a política pode conter e nunca curar. Acredito que o poder se exerce por interesse e que a força decide mais do que a razão gostaria. Por isso prestei atenção quando Lula, abrindo a Assembleia Geral da ONU, disse não desconhecer “as realidades do poder” e garantiu: “Isso não é idealismo. É o mais puro realismo”.
O realismo de Lula durou uma frase. A seguinte foi esta: “A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política”. Bobagem.
A fórmula corrigida é de Clausewitz, está no primeiro capítulo de Da guerra e costuma circular como licença de general. Diz quase o contrário. Clausewitz escreve que a intenção política é o fim e a guerra, o meio. No oitavo livro, apura a ideia numa linha que vale o tratado, cito no original para gastar meu alemão: a guerra hat freilich seine eigene Grammatik, aber nicht seine eigene Logik – tem, de fato, sua própria gramática, mas não sua própria lógica. A lógica continua pertencendo à política. Daí que a guerra possa ser negociada e interrompida. Ela serve a alguém que quer alguma coisa. Quem quer alguma coisa pode ser levado a querer menos.
Sem a política, quem decide qual guerra condenar é a filiação. Lula tem seus amigos, e a gramática do discurso mostra quais
Chamar a guerra de falência da política desfaz esse vínculo. Uma guerra que não serve a fim algum entra para a família do Super El Niño, que aparece mais adiante no mesmo discurso, entre as geleiras do Himalaia. Diante de catástrofes naturais, sobra o lamento. Lula avisou no início qual era o dele: a indignação, “o sentimento que me move hoje”. As perguntas de um realista – quem quer o quê, com que força, a que preço aceitaria parar – ficam sem lugar num discurso demagógico que já expulsou a guerra da política.
A indignação seletiva sai daí. Sem a política, quem decide qual guerra condenar é a filiação. Lula tem seus amigos, e a gramática do discurso mostra quais. Gaza recebe sujeito, verbo e complemento: “genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças”. Justiça seja feita, o Hamas também foi nomeado, com atos chamados de terroristas. Mas nessa frase o lugar de sujeito fica com as vítimas: “Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas”. O autor dos atos chega no fim de uma fila de genitivos, depois do preço, do radicalismo e da intolerância.
A Ucrânia recebe um verbo pronominal: “A guerra entre Rússia e Ucrânia se arrasta há cinco anos”. A guerra se arrasta sozinha. O país que atravessou a fronteira em fevereiro de 2022 cabe numa preposição, lado a lado com o invadido. Putin não aparece. Vem então a certeza de que “não haverá vencedores no campo de batalha”. Um realista lê a frase de outro jeito. Cessar-fogo na linha de contato dá a vitória a quem ficou com o território. Para a paz, o discurso oferece o Grupo de Amigos da Paz, “criado por Brasil e China”. A China é aquela que, 20 dias antes dos tanques, assinou com Moscou uma amizade “sem limites”. A paz foi procurar amigos na mesma casa onde a guerra tinha encontrado os seus.
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Na América Latina a regra continua valendo. Cuba sofre “punição coletiva” por obra de “um embargo econômico e um cerco energético ilegais”; da Nicarágua se diz que “não vai resolver os seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições”. Washington levou a acusação; Manágua, um conselho. A Venezuela mereceu uma frase que serve igualmente à oposição e ao chavismo: o povo venezuelano “merece definir o próprio destino”.
Dirão que a Assembleia Geral é o foro de quem não tem força, que ali cada Estado vale um voto e que falar em justiça é o que sobra aos fracos. É verdade. Tucídides deixou o modelo no diálogo em que os mélios dizem aos atenienses que a justiça está do lado de Melos. Estava. Atenas respondeu que os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem. Os homens de Melos foram mortos; mulheres e crianças, vendidas como escravas. Mas os mélios falavam aos atenienses, com a própria cidade em jogo.
O discurso de Lula falava a quem? Ao mundo, entregou uma lista de queixas sem instrumento para impor nenhuma. O Brasil não tem veto, não tem esquadra, não tem alavanca sobre Moscou, Tel Aviv ou Washington. O único trunfo real, os minerais críticos e as terras raras, apareceu como cláusula de soberania com “contrapartida obrigatória”, mais perto do comício que da mesa de negociação.
O discurso de Lula era política continuada por outros meios: a campanha, com a tribuna da ONU fazendo as vezes de palanque
O outro destinatário ele próprio nomeou. O final foi reservado a “uma mensagem sobre o meu país”: no dia 4 de outubro, 12 dias depois, o eleitor vai “decidir entre democracia e negacionismo”. Lula é candidato à reeleição. Antes disso tinham passado pela tribuna o “operário eleito três vezes presidente”, a escala 6x1, a Lei Antifacção, o Pix e as bets – pauta de horário eleitoral gratuito, com tradução simultânea. Veio ainda o aviso sobre “alguns” que “abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país”. Foi dito numa tribuna estrangeira, para plateia estrangeira, uns 13 minutos depois de o mesmo orador denunciar “a ingerência externa em processos eleitorais”. A ingerência só trocou de sentido: desta vez foi a eleição brasileira que viajou até Nova York.
Lido assim, o discurso fica coerente. Clausewitz sai dele inteiro. Era política continuada por outros meios: a campanha, com a tribuna da ONU fazendo as vezes de palanque. A guerra saiu da política no terceiro minuto; a eleição entrou na diplomacia no vigésimo.
Campanha é do jogo, até na ONU. Tenho a força dos mélios, que é nenhuma. Gasto a que tenho reclamando do rótulo de realismo que alguém pregou numa lamentação. Pelo menos, se isso pode ser considerado alguma virtude, não peço voto a ninguém.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Francisco Razzo é professor e mestre em Filosofia. Autor de “Contra o Aborto” e “A Imaginação Totalitária” (Record), reuniu seus ensaios mais recentes na coletânea “Minha contribuição para tornar o mundo um lugar ainda pior” (Noétika), uma reflexão sobre a banalidade do heroísmo em uma era de incertezas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



