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Franklin Ferreira

Franklin Ferreira

Triunfo do mal

Um Brasil que prende “Débora do Batom” e solta traficante afundou na crise moral

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Um país que prende por 14 anos quem escreve em estátua e dá vários benefícios a bandidos perigosos está carcomida moralmente. (Foto: Imagem criada utilizando Flow/Gazeta do Povo)

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Em uma nação historicamente marcada pelo cristianismo nominal, observamos nos últimos anos uma dolorosa inversão dos valores morais. Casos emblemáticos revelam não apenas falhas isoladas das instituições, mas sintomas de uma enfermidade muito mais profunda. Da perspectiva cristã, esses episódios expõem a realidade espiritual descrita pelo apóstolo Paulo: homens e mulheres que “por meio da sua injustiça, suprimem a verdade” (Rm 1,18).

O problema brasileiro não é, em última análise, econômico, jurídico ou político. Ele é moral e espiritual. As instituições refletem a cultura que as produz, e a cultura manifesta aquilo que habita no coração humano. Quando uma sociedade perde o temor do Senhor, sua capacidade de discernir entre o bem e o mal torna-se progressivamente obscurecida.

Vivendo sob uma inversão moral

Um exemplo que marcou profundamente o país foi o de Débora Rodrigues, conhecida como “Débora do Batom”. Cabeleireira, mãe de família e sem histórico de criminalidade grave, ela participou dos protestos de 8 de janeiro de 2023 e escreveu, com batom, a frase “Perdeu, mané” em uma estátua diante do Supremo Tribunal Federal. No pior dos cenários, tratou-se de um ato de protesto de reduzido impacto material. As marcas poderiam ser removidas com facilidade. Ainda assim, o aparato estatal, acompanhado pela aprovação de parcela significativa da opinião pública e dos formadores de cultura, recaiu sobre ela com rigor extraordinário. A condenação a 14 anos de prisão, a prolongada prisão preventiva e as severas restrições impostas mesmo durante o regime domiciliar tornaram-se símbolo de desproporcionalidade e de uma inquietante inversão de valores.

Em contraste, há casos de crimes muito mais graves que parecem despertar menor indignação pública ou encontrar explicações indulgentes. Não são raras as situações em que traficantes, corruptos, homicidas e agressores retornam rapidamente ao convívio social, enquanto as vítimas e suas famílias permanecem esquecidas, carregando sozinhas as marcas profundas da violência sofrida.

Talvez um dos fenômenos mais inquietantes da vida pública brasileira seja a crescente dificuldade de chamar o mal pelo seu nome

Ao mesmo tempo, narrativas moldadas por pressupostos ideológicos e por um humanismo sentimental frequentemente suavizam a gravidade objetiva do mal, relativizando a responsabilidade pessoal e obscurecendo o senso de justiça. Princípios como a santidade da vida, a integridade da família e a responsabilidade moral passam a ser tratados como vestígios ultrapassados de uma ordem antiga.

O resultado é uma inquietante inversão moral. Aquilo que deveria escandalizar a consciência coletiva – o assassinato de inocentes, a violência contra os vulneráveis, a destruição da família e a corrupção do caráter e das instituições – encontra justificativas, explicações indulgentes ou simples indiferença. Em contrapartida, atos menores de resistência, protesto ou dissidência são capazes de despertar imediata indignação e severa reprovação pública.

Contudo, seria um grave equívoco imaginar que essa desordem moral habita apenas o coração dos outros. A mesma disposição de justificar o pecado, minimizar a culpa e buscar exceções para si mesmo também opera em nós. Os pecados diferem em gravidade e em suas consequências sociais, mas todos revelam a mesma condição humana: homens e mulheres inclinados a amar mais as trevas do que a luz e igualmente necessitados da graça de Deus.

Leituras superficiais da crise moral

Diante desse cenário, surgem explicações simplistas. Alguns atribuem tudo à polarização política. Outros enxergam apenas o conflito entre classes sociais ou interesses ideológicos. Essas interpretações podem conter elementos de verdade, mas permanecem insuficientes. O problema é mais profundo do que qualquer disputa partidária.

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As Escrituras oferecem um diagnóstico mais perturbador e, ao mesmo tempo, mais realista: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto. Quem poderá entendê-lo?” (Jr 17,9). O coração humano procura justificar a si mesmo. Busca exceções para as próprias transgressões. Condena severamente as faltas alheias enquanto relativiza as próprias transgressões. Demoniza aqueles que considera adversários e absolve aqueles com quem se identifica ideologicamente.

Por isso, o problema atravessa toda a sociedade. O brasileiro não é apenas vítima de instituições imperfeitas; ele também ajuda a produzi-las e sustentá-las. As estruturas públicas são construídas por homens e mulheres igualmente marcados pela Queda. A inversão moral que testemunhamos nas ruas, nos meios de comunicação e nos centros de poder é, antes de tudo, o reflexo de uma humanidade e cultura afastada de Deus.

A dificuldade de chamar o mal pelo seu nome

Talvez um dos fenômenos mais inquietantes da vida pública brasileira seja a crescente dificuldade de chamar o mal pelo seu nome. Em vez de lamentar a transgressão, passamos a justificá-la e até mesmo a celebrá-la. A sociedade transforma infratores em símbolos de resistência, políticos condenados em mártires e influenciadores moralmente degradados em modelos de sucesso. Vítimas precisam explicar por que merecem proteção, enquanto ofensores despertam imediata simpatia. A transgressão deixa de causar vergonha e repulsa e passa a ser interpretada como coragem, autenticidade ou simples demonstração de esperteza.

Nossa cultura frequentemente direciona sua compaixão ao ofensor antes da vítima. Explicar o pecado transforma-se, pouco a pouco, em justificá-lo, enquanto a responsabilidade moral e as exigências da justiça são relativizadas. A misericórdia, desvinculada da verdade, converte-se em complacência com o mal. A rebeldia é celebrada, a disciplina ridicularizada e a virtude recebida com suspeita.

O mal deixa de causar horror porque a consciência humana, obscurecida pelo pecado, aprende a conviver com aquilo que deveria lamentar

As Escrituras identificam a raiz desse fenômeno: “Eles não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam” (Rm 1,32). O problema não é apenas a prática do mal, mas a disposição do coração humano de admirar aquilo que Deus condena e desprezar aquilo que Ele chama de bem. As Escrituras descrevem essa inversão com clareza: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem chamam mal; que fazem das trevas luz e da luz fazem trevas” (Is 5,20). Ou seja, os pecados que denunciamos na cultura também encontram ecos em nosso próprio coração. Os cristãos não observam essa crise do alto de uma suposta superioridade moral, mas como pecadores alcançados pela graça.

A fé cristã jamais cultivou ilusões românticas sobre a natureza humana. A Escritura não afirma que todas as pessoas são tão más quanto poderiam ser. Ela ensina, porém, que o pecado afetou todas as dimensões da existência humana: mente, afetos, vontade e relações sociais. Após a Queda em Adão, o homem tornou-se inclinado à autonomia pecaminosa. “Porque a inclinação da carne é inimizade contra Deus” (Rm 8,7).

Quando o temor do Senhor desaparece da vida pública – e ele é “o princípio da sabedoria” (Pv 9,10) –, a ordem moral se deteriora. O pecado distorce o julgamento, obscurece a consciência e enfraquece o amor pela verdade. Essa exaltação da criminalidade revela, em última análise, um problema de adoração. O homem caído prefere sua própria autonomia ao governo de Deus, o sentimentalismo à justiça e a autoafirmação rebelde à santidade.

A crise brasileira, portanto, é profundamente espiritual: o mal deixa de causar horror porque a consciência humana, obscurecida pelo pecado, aprende a conviver com aquilo que deveria lamentar.

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A única esperança

Se o problema é espiritual, nenhuma solução humana será suficiente. Reformas políticas são importantes. A participação responsável na vida pública deve ser encorajada. Cristãos não podem abandonar o compromisso com o bem comum.

Entretanto, nada disso alcança a raiz do problema. Somente o Evangelho do Senhor Jesus possui poder para regenerar homens e mulheres. O Messias veio salvar pecadores: pessoas violentas e pessoas respeitáveis; corruptos e moralistas; transgressores escandalosos e pecadores religiosos. Todos necessitam da mesma graça: “Se confessarmos os nossos pecados, [... Jesus] é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1,9).

A esperança do Brasil não repousa, em última instância, em líderes mais competentes ou instituições mais eficientes. Ela repousa no Rei crucificado e ressurreto, que transforma corações de pedra em corações de carne. Por isso, onde o Evangelho floresce, surgem homens e mulheres que amam a verdade, honram a vida, valorizam a família, respeitam o próximo e desejam a justiça.

O papel da Igreja cristã

Diante desse cenário, a Igreja não pode refugiar-se na indiferença nem se render ao desespero. Cabe-lhe proclamar a Lei que expõe o pecado e o Evangelho que anuncia perdão e nova vida. A Igreja deve orar pelas autoridades (1Tm 2,1-2), formar discípulos íntegros, fortalecer famílias, educar filhos no temor do Senhor (Dt 6,4-9) e resistir à conformação com este século (Rm 12,2).

Enquanto o mal parece triunfar, os cristãos lembram-se de que a história permanece sob a providência divina. Nenhuma injustiça escapará ao tribunal do Senhor

A Igreja deve denunciar a injustiça sem espírito de vingança, defender a verdade sem ódio e rejeitar tanto o cinismo quanto a ingenuidade. A Igreja não deposita sua confiança em projetos políticos redentores nem se retira da responsabilidade pública. Antes, testemunha que Jesus é o único Senhor sobre todas as esferas da vida.

Enquanto o mal parece triunfar, os cristãos lembram-se de que a história permanece sob a providência divina. O Senhor julga as nações, levanta e derruba impérios. Nenhuma injustiça escapará ao seu tribunal. “Por ser justo, o Senhor ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face” (Sl 11,7). Por isso, mesmo em meio à perplexidade, não cedemos ao desespero. Oramos por arrependimento nacional. Trabalhamos pelo bem comum. Permanecemos fiéis em nossa geração.

E aguardamos o dia em que o verdadeiro Juiz se manifestará plenamente. Nesse dia, toda impunidade cessará, todo pecado será castigado, toda lágrima será enxuta e toda inversão moral será definitivamente corrigida. Até lá, a Igreja continua anunciando que somente a graça reinante do único e trino Deus pode conter o mal, restaurar pecadores e glorificar o Rei dos reis.

“Senhor Jesus Cristo,
Caminho, Verdade e Vida,
rosto humano de Deus
e rosto divino do homem,
acendei em nossos corações
o amor ao Pai que está no céu
e a alegria de sermos cristãos.

Vinde ao nosso encontro
e guiai os nossos passos
para seguir-vos e amar-vos
na comunhão da vossa Igreja,
[...] carregando a nossa cruz,
e urgidos por vosso envio.

Dai-nos sempre o fogo
do vosso Santo Espírito,
que ilumine as nossas mentes
e desperte entre nós
o desejo de contemplar-vos,
o amor aos irmãos,
especialmente aos afligidos,
e o ardor por anunciar-vos [...].

Discípulos e missionários vossos,
nós queremos remar mar adentro,
para que os nossos povos
tenham em Vós vida abundante,
e construam com solidariedade
a fraternidade e a paz.
Senhor Jesus, vinde e enviai-nos!”
(Bento XVI, 2007)

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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