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Há uma contradição no debate público brasileiro. Esquerdistas, que rejeitam a autoridade das Escrituras em questões morais e sociais, recorrem aos ensinamentos de Jesus quando querem condenar as escolhas políticas dos cristãos.
Isso fica evidente quando cristãos decidem boicotar empresas, artistas, espetáculos, serviços ou produtos ligados a causas que contrariam suas convicções. Logo surgem acusações de intolerância, falta de amor e até de desobediência ao Evangelho. A contradição é clara: a própria esquerda também promove boicotes contra seus adversários políticos e ideológicos, como mostram declarações de Fernando Haddad, em 2023, e campanhas do Sleeping Giants, entre 2020 e 2023.
Para condenar os boicotes cristãos, costuma-se invocar o mandamento de amar o próximo, como se amar alguém significasse necessariamente apoiar suas iniciativas ou consumir seus produtos. Mas será que Jesus ensinou isso? Ou estamos diante de uma tentativa de usar as Escrituras para constranger os cristãos e limitar sua liberdade de agir conforme suas convicções?
A resposta é simples: cristãos têm o direito de boicotar empresas, produtos e iniciativas ligados à esquerda, assim como qualquer cidadão pode deixar de apoiar aquilo de que discorda. Podem fazê-lo por razões políticas, morais ou religiosas, sem que isso represente, por si só, uma violação dos ensinamentos de Jesus. Amar o próximo não significa ser obrigado a financiar ou apoiar aquilo que consideramos errado. É essa distinção que precisamos compreender.
Cristãos têm o direito de boicotar empresas, produtos e iniciativas ligados à esquerda, assim como qualquer cidadão pode deixar de apoiar aquilo de que discorda
O amor cristão não exige aprovação moral
Na ética bíblica, amor e verdade são inseparáveis. Paulo escreve: “O amor seja sem hipocrisia. Odeiem o mal e apeguem-se ao bem” (Rm 12,9). E acrescenta que “o amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade” (1Co 13,6). Portanto, amar o próximo não significa aprovar tudo o que ele pensa ou faz. Pelo contrário, o amor cristão exige discernimento para reconhecer o bem, rejeitar o mal e permanecer fiel à verdade.
O próprio Jesus é o maior exemplo disso. Ele acolheu pecadores e demonstrou misericórdia aos desprezados, mas nunca tratou o pecado com indiferença. Confrontou a hipocrisia, denunciou a injustiça e chamou as pessoas ao arrependimento. Em Marcos 10,17-22, lemos que Jesus olhou para o jovem rico e o amou. Mas esse amor não o impediu de confrontar o apego às riquezas que dominava seu coração. Jesus o amou sem aprovar aquilo que precisava ser abandonado.
Assim, não existe contradição entre amar as pessoas e discordar de suas ideias ou escolhas. O amor cristão não exige que abandonemos nossas convicções, mas que permaneçamos fiéis à verdade, inclusive na maneira como tratamos aqueles de quem discordamos.
Amar os inimigos não significa sustentar suas causas
O mandamento de Jesus, “amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês” (Mt 5,44), é uma das exigências mais profundas da ética cristã. O cristão não deve responder ao ódio com ódio, buscar vingança pessoal ou negar a dignidade de seus adversários. Paulo reforça esse ensino em Romanos 12,17-21, ordenando que não retribuamos mal por mal, mas vençamos o mal com o bem.
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Entretanto, é preciso distinguir nossos deveres morais. Alimentar um inimigo faminto é um dever de misericórdia. Proteger alguém de uma agressão injusta é um dever de justiça. Mas nada disso nos obriga a apoiar seus projetos políticos, culturais ou econômicos.
A parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) reforça essa distinção. Jesus ensina que a misericórdia deve superar barreiras étnicas, religiosas e sociais. O samaritano socorre um homem ferido porque reconhece sua necessidade, sem permitir que possíveis diferenças entre eles o impeçam de agir.
Usar essa parábola para condenar boicotes econômicos é confundir o dever de socorrer o próximo com uma suposta obrigação de financiar iniciativas contrárias às nossas convicções. O texto bíblico exige misericórdia para com as pessoas, não apoio às suas ideias ou projetos.
A liberdade de consciência não está à venda
A liberdade de consciência ocupa lugar central na tradição protestante, especialmente na teologia reformada. Em Romanos 14, ao tratar de questões controversas entre cristãos, Paulo ensina que cada um deve estar plenamente convicto em sua própria mente (14,5) e adverte que tudo o que não procede de fé é pecado (14,23). Embora essa passagem não trate diretamente de decisões econômicas ou políticas, ela estabelece um princípio importante: nossas escolhas devem ser feitas com a consciência diante de Deus, e não por pressão de outras pessoas.
Ninguém tem o direito de exigir nosso dinheiro, nossa audiência ou nosso apoio voluntário, muito menos de usar a fé cristã para nos impor essa obrigação
A Confissão de Fé de Westminster, no capítulo 20, declara que Deus é o único Senhor da consciência. A Segunda Confissão de Fé Batista de Londres, de 1689, reafirma esse ensino no capítulo 21. Isso não torna nossas opiniões infalíveis, pois a consciência deve ser orientada e corrigida pelas Escrituras. Mas significa que nenhuma autoridade humana pode impor, em nome de Deus, obrigações que Ele não estabeleceu.
Assim, quando uma empresa promove causas contrárias às convicções de um cristão, ele tem o direito de deixar de comprar seus produtos ou contratar seus serviços. Essa decisão pode ser uma expressão legítima de sua liberdade de consciência. Isso não significa que comprar de uma empresa seja aprovar todas as opiniões de seus proprietários, nem que todos os cristãos sejam obrigados a participar de um boicote. Cada situação exige informação, discernimento e responsabilidade.
O princípio é simples: ninguém tem o direito de exigir nosso dinheiro, nossa audiência ou nosso apoio voluntário, muito menos de usar a fé cristã para nos impor essa obrigação.
Boicotar adversários ideológicos é um direito democrático
Uma democracia verdadeira não protege apenas a liberdade de expressão, mas também a liberdade de associação, de discordância e de escolha econômica. Todo cidadão pode apoiar empresas com as quais se identifica e deixar de consumir produtos daquelas cujas posições rejeita. Isso não é perseguição, mas exercício legítimo da liberdade.
Quando uma empresa assume publicamente uma posição política ou ideológica, deve aceitar que isso pode influenciar as escolhas dos consumidores. Artistas têm o direito de defender causas de esquerda, empresários podem apoiar partidos políticos e produtores culturais podem promover suas ideias. Da mesma forma, os cristãos têm o direito de não comprar seus produtos, contratar seus serviços ou assistir a seus espetáculos.
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A liberdade de expressão não garante audiência, assim como a liberdade de empreender não garante clientes. O boicote pacífico é uma forma legítima de participação democrática, pois permite expressar discordância sem recorrer à coerção do Estado.
Isso não autoriza ameaças, difamação, intimidação ou tentativas ilegais de impedir as atividades de terceiros. Tampouco justifica campanhas baseadas em mentiras ou acusações infundadas. A liberdade de não comprar deve respeitar a liberdade do outro de vender. Por outro lado, acusar cristãos de intolerância simplesmente porque se recusam a financiar voluntariamente iniciativas que contrariam suas convicções é uma forma de pressão moral contra sua liberdade de escolha.
Uma democracia não pode reconhecer o direito de boicotar para uns e condenar seu exercício por outros. A liberdade que vale para a esquerda deve valer igualmente para os cristãos.
Como escapar da armadilha da chantagem moral
A manipulação emocional começa quando uma escolha política legítima é apresentada como sinal de falta de amor cristão. Em vez de discutir as razões do boicote, procura-se colocar o cristão na defensiva: se não comprar determinado produto, não estará amando o próximo; se deixar de assistir a um espetáculo, estará desobedecendo a Jesus. Para escapar dessa armadilha, é preciso rejeitar suas premissas.
Negar ajuda a alguém por desejar seu sofrimento é moralmente errado. Mas recusar apoio econômico a iniciativas contrárias às nossas convicções é outra questão
Primeiro, devemos exigir fidelidade ao ensino bíblico. Nenhuma passagem sobre misericórdia ou amor aos inimigos estabelece uma obrigação de consumir produtos ou financiar iniciativas. Quem afirma o contrário precisa demonstrá-lo pelas Escrituras, em vez de recorrer à culpa religiosa.
Segundo, precisamos distinguir discordância de hostilidade. Negar ajuda a alguém por desejar seu sofrimento é moralmente errado. Mas recusar apoio econômico a iniciativas contrárias às nossas convicções é outra questão. O cristão deve buscar a paz com todos, conforme ensina Romanos 12,18, sem abandonar sua consciência para evitar conflitos. Pode discordar profundamente de alguém e, ainda assim, tratá-lo com respeito, justiça e misericórdia.
Terceiro, devemos agir com discernimento. Antes de aderir a um boicote, é necessário verificar os fatos, examinar nossas motivações e avaliar as consequências. Uma causa justa não autoriza métodos injustos. Nossa oposição deve ser guiada por princípios, não pelo ressentimento.
O cristão não precisa pedir desculpas por suas convicções, mas deve saber defendê-las com clareza e agir com justiça. Acima de tudo, não deve renunciar a seus princípios por medo de críticas, acusações ou tentativas de constrangimento.
Não basta deixar de financiar aquilo que condenamos. É preciso investir naquilo que defendemos
O dever de apoiar aquilo que é bom
Os cristãos não devem apenas resistir às ideias que consideram erradas. Devem também dedicar seus recursos, tempo e influência à construção de uma sociedade melhor, fortalecendo instituições comprometidas com a verdade, a justiça e os valores cristãos. Isso significa contribuir generosamente com igrejas fiéis às Escrituras, oferecer boa educação aos filhos, valorizar professores dedicados ao ensino, prestigiar empresas responsáveis e apoiar escritores, artistas, editoras e organizações que realizam trabalhos relevantes.
Uma sociedade saudável não se constrói apenas pelo combate ao erro, mas também pela promoção do bem. A fidelidade cristã se manifesta na maneira como usamos nosso dinheiro, educamos nossos filhos e participamos da vida pública. Não basta deixar de financiar aquilo que condenamos. É preciso investir naquilo que defendemos.
O amor cristão não pode ser usado como chantagem
As Escrituras não podem ser usadas como instrumento de pressão política para obrigar cristãos a apoiar iniciativas contrárias às suas convicções. Quem pretende transformar uma escolha legítima em pecado precisa fundamentar sua acusação nas Escrituras, não em apelos emocionais ou interpretações distorcidas do amor ao próximo.
O cristão deve agir com justiça, respeitar seus adversários e rejeitar toda forma de perseguição. Mas isso não dá a ninguém o direito de exigir seu dinheiro, sua audiência ou seu apoio em nome de uma suposta superioridade moral. Nossa consciência deve estar sujeita à Palavra de Deus, não às pressões de militantes políticos.
Amar o próximo é mandamento de Cristo. Financiar suas causas políticas, não.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Franklin Ferreira é bacharel em Teologia, pós-graduado em Bíblia e Teologia, mestre em Teologia e doutor em Divindade. É reitor e professor de Teologia Sistemática e História da Igreja no Seminário Martin Bucer, professor-adjunto no Puritan Reformed Theological Seminary, em Grand Rapids-MI (Estados Unidos), e consultor acadêmico. Autor de vários livros sobre teologia e história do cristianismo. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



