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O dito “evangelho da prosperidade” apresenta-se como uma mensagem de esperança. Promete saúde, riqueza e vitória àqueles que “semeiam”, repetem determinadas fórmulas espirituais ou demonstram fé suficiente. Sua linguagem é cristã e seus pregadores falam constantemente de Deus, fé, milagres e bênçãos. Entretanto, por trás dessa aparência encontra-se um sistema religioso que distorce o caráter de Deus, manipula o sofrimento humano e substitui a graça pela técnica, a cruz pelo desempenho e Cristo pelos desejos do indivíduo.
Por isso, emprego com desconforto termos como “teologia” e “evangelho” para descrever essa mensagem. Em sua estrutura e finalidade, ela se aproxima de outras formas históricas de engano religioso, como o antigo gnosticismo. Falta-lhe verdadeira submissão às Escrituras e coerência doutrinária. Muito menos existe verdadeira “boa notícia” nesse ensino. Chamar esse conjunto de crenças de “evangelho” corre o risco de conceder a uma heresia uma legitimidade que ela não possui.
Os testemunhos de Sean DeMars, em A “Gospel” that Almost Killed Me”; Kate Bowler, em Death, the Prosperity Gospel and Me; e Costi W. Hinn, em Deus, ganância e o evangelho (da prosperidade), permitem observar o fenômeno de ângulos complementares. DeMars mostra o que essa mensagem faz com um convertido vulnerável; Bowler revela sua incapacidade de enfrentar o sofrimento e a morte; Hinn expõe a maquinaria religiosa e financeira que a sustenta. Juntos, revelam um sistema teologicamente falso, pastoralmente destrutivo, psicologicamente abusivo e economicamente explorador.
Das origens pentecostais à radicalização neopentecostal
Para compreender como essa mensagem alcançou tamanha influência, especialmente no Brasil e no Sul Global, é necessário situá-la no desenvolvimento histórico do pentecostalismo.
O movimento pentecostal surgiu no início do século 20 a partir das igrejas metodistas de santidade, que enfatizavam a perfeição cristã e a “segunda bênção”. No Brasil, chegou especialmente com as Assembleias de Deus, em 1911. Entre seus elementos característicos estavam o batismo no Espírito Santo posterior à conversão, os dons miraculosos e uma forma bastante centralizada de liderança.
O dito “evangelho da prosperidade” distorce o caráter de Deus, manipula o sofrimento humano e substitui a graça pela técnica, a cruz pelo desempenho e Cristo pelos desejos do indivíduo
Na década de 1950, surgiu um segundo grupo: os pentecostais de cura divina, representados pela Igreja do Evangelho Quadrangular, Brasil para Cristo, Nova Vida e Deus é Amor. Essas igrejas ampliaram a ênfase sobre curas, exorcismos e rituais de libertação, adotando formas mais emocionais de culto e estilos musicais populares.
A partir da década de 1960, o movimento carismático espalhou-se pelas denominações históricas – batistas, presbiterianos, metodistas e até católicos. Diferentemente dos pentecostais clássicos, esses grupos permaneceram em suas denominações, introduzindo a crença na continuidade dos dons sobrenaturais e no batismo no Espírito Santo. Em muitos casos, essa renovação abriu espaço para uma espiritualidade mais subjetiva, na qual experiências, impressões interiores e supostas revelações passaram a reivindicar autoridade sem critérios bíblicos suficientemente claros. A experiência passou, não raramente, a determinar a interpretação da Escritura, favorecendo também uma autoridade excessiva de líderes carismáticos.
Uma quarta configuração apareceu no fim dos anos 1970 e início dos 1980: o neopentecostalismo. Igrejas como a Universal do Reino de Deus (1977) e a Internacional da Graça de Deus (1980) radicalizaram elementos já presentes na tradição pentecostal. Organizadas em torno dos meios de comunicação de massa, rituais de caráter mágico, exorcismos constantes e uma espiritualidade voltada para o espetáculo, forneceram terreno fértil para a expansão do evangelho da prosperidade.
Nesse contexto, a prosperidade tornou-se central: riqueza passou a indicar fé; sofrimento, incredulidade; e dízimos e ofertas, investimentos dos quais se esperava retorno. Saúde e riqueza tornaram-se direitos do crente, e contribuições financeiras, meios para alcançar bênçãos. O resultado foi uma espiritualidade utilitária, antropocêntrica e comercializada, propícia a abusos espirituais, manipulação emocional e exploração econômica.
Hoje, essas distinções históricas estão cada vez mais borradas. Doutrinas e práticas antes características do neopentecostalismo penetraram amplamente no campo pentecostal e carismático brasileiro. Em muitas Assembleias de Deus, igrejas de cura divina e setores carismáticos de denominações históricas, tornaram-se comuns a fé positiva, a “quebra de maldições”, a prosperidade material como evidência da bênção e a oferta como mecanismo de retorno financeiro. Ao mesmo tempo, uma versão mais soft, terapêutica e próxima da cultura de coaching ganha espaço em igrejas urbanas, churches e até denominações históricas que rejeitam o misticismo neopentecostal mais explícito, mas assimilam sua ênfase no sucesso, na realização pessoal e no bem-estar. Assim, a influência do neopentecostalismo ultrapassou suas fronteiras denominacionais: seja em sua forma mística e espetacular, seja em sua versão mais sofisticada e secularizada, sua lógica antropocêntrica afetou profundamente o cristianismo brasileiro.
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Uma promessa que envenena seus próprios fiéis
Sean DeMars descreve como o evangelho da prosperidade quase o matou – literal e espiritualmente. Recém-convertido e vulnerável, foi capturado por um discípulo desse sistema, que o inundou com versículos bíblicos retirados de seu contexto e o convenceu de que cura, prosperidade e poder eram garantias divinas condicionadas à intensidade de sua fé e à eficácia de suas “declarações”.
A realidade recusou-se a obedecer ao sistema. DeMars não conseguia pagar o aluguel, sua mãe não se converteu e sua enfermidade persistiu. Se a promessa era infalível, porém, qualquer fracasso só poderia ser atribuído ao fiel. Quando sua conta bancária ficou negativa, ouviu que o problema não estava com Deus, mas com ele.
Esse mecanismo de culpa pertence à própria lógica da prosperidade. Se a promessa é absoluta, seu fracasso precisa ser explicado pela insuficiência da fé de quem sofre. À dor da enfermidade, da pobreza ou da perda acrescenta-se, assim, a culpa espiritual: o sofrimento deixa de ser uma realidade da vida em um mundo caído e passa a ser interpretado como evidência de incredulidade.
Para DeMars, a libertação veio pela redescoberta das doutrinas bíblicas da cruz e da soberania divina. A vida cristã deixou de ser uma trajetória obrigatória de triunfo terreno e voltou a ser aquilo que Cristo ensinou: seguir o Crucificado.
Quando a prosperidade encontra a morte
Kate Bowler apresenta uma perspectiva diferente. Estudiosa do fenômeno, ao receber um diagnóstico de câncer avançado viu as categorias da prosperidade serem confrontadas pela realidade da morte.
O movimento recebeu influência das ideias de E. W. Kenyon, que influenciou figuras como Kenneth Hagin, Oral Roberts, Kenneth Copeland, Joyce Meyer e Morris Cerullo. Nesse universo, pensamentos positivos produzem bênçãos, palavras produzem realidade e a mente exerce poder sobre o corpo e as circunstâncias. O sofrimento é reduzido a uma equação moral: quem sofre não acreditou, não “declarou” ou não “visualizou” corretamente.
No “evangelho da prosperidade”, Deus já não é buscado primordialmente por quem ele é, mas pelo que pode proporcionar. O Criador torna-se meio para a obtenção das criaturas
O diagnóstico de Bowler revelou a monstruosidade pastoral dessa lógica. Um sistema assim elimina categorias cristãs indispensáveis como lamentação, fraqueza, sofrimento e esperança na soberania de Deus. Uma fé centrada no Crucificado transforma-se em espiritualidade de autoproteção, negação da morte e obsessão pelo controle.
Se tudo depende de “tomar posse da bênção” e “mover o sobrenatural”, torna-se difícil admitir que vivemos em um mundo caído, que corpos adoecem, que pessoas justas sofrem e que a morte continua sendo um inimigo real. Em vez de sofrer com aquele que sofre, o sistema prefere explicar por que ele está sofrendo. Promete invencibilidade, mas, diante da tragédia, oferece condenação. Uma fé que desmorona diante do sofrimento não é cristianismo.
Por dentro da máquina da prosperidade
Se DeMars mostra os efeitos do sistema sobre o fiel vulnerável e Bowler expõe seu colapso diante do sofrimento, Costi W. Hinn revela sua maquinaria interna. Criado como sobrinho de Benny Hinn, ele descreve um império espiritual sustentado pelas ofertas de pessoas frequentemente pobres e desesperadas. Sua descrição me fez lembrar, em quase todas as páginas, do grande romance de John Updike, Na beleza dos lírios.
Costi descreve mansões, carros luxuosos, viagens internacionais e tratamento de celebridade. Ele próprio viveu em uma mansão de quase mil metros quadrados, enquanto famílias pobres ofertavam sacrificialmente esperando um milagre que frequentemente não chegava. A oferta cristã transforma-se, assim, em transação espiritual, como se dinheiro pudesse assegurar bênçãos ou libertar o fiel de maldições.
Mais grave é a transformação da própria teologia em instrumento de controle. Hinn descreve curas submetidas a roteiros manipuladores; “linguagens espirituais” induzidas por técnicas psicológicas; ambientes litúrgicos construídos para gerar êxtase; culpa transferida ao enfermo quando a cura não ocorre; e o uso das Escrituras para legitimar o enriquecimento dos pregadores.
No verdadeiro evangelho, Deus não existe para realizar os projetos da criatura; a criatura existe para glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre
Confrontado pelas Escrituras – especialmente pelas doutrinas da soberania de Deus e da centralidade da cruz –, Costi abandonou o sistema e passou a denunciá-lo. Seu diagnóstico converge com o de DeMars e Bowler: a mensagem da prosperidade alimenta a ganância de seus líderes consumindo a vulnerabilidade daqueles que deveria pastorear.
A inversão do evangelho
Esses testemunhos revelam que não estamos diante de excessos periféricos que poderiam ser corrigidos preservando-se o restante do sistema. O problema encontra-se em seu centro teológico.
A religião da prosperidade é profundamente antropocêntrica e mecanicista. Sua obsessão com “restituição”, “tomada de territórios”, “quebra de maldições financeiras” e “atos proféticos”, juntamente com a crença de que pensamentos e palavras determinam a realidade, desloca o centro da fé de Deus para o indivíduo.
Em termos agostinianos, trata-se de uma profunda desordem dos amores. Saúde, dinheiro, sucesso e conforto deixam de ser bens criados recebidos com gratidão sob a providência de Deus e passam a ocupar o lugar do próprio Deus como finalidade da religião. Deus já não é buscado primordialmente por quem ele é, mas pelo que pode proporcionar. O Criador torna-se meio para a obtenção das criaturas.
A inversão alcança também a doutrina de Deus. Suas promessas passam a funcionar como contratos: cumpridas determinadas condições pelo fiel, Deus estaria obrigado a produzir o resultado desejado. A criatura pretende estabelecer as condições às quais o Criador deverá responder. A oração deixa de ser submissão confiante à vontade do Pai e transforma-se em técnica; a fé deixa de repousar nas promessas de Deus e converte-se em força capaz de produzir resultados.
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Também não conheço as consequências econômicas dessa outra religião apenas pelos livros. Eu as testemunhei enquanto pastoreava uma igreja batista em uma favela na Zona Sul do Rio de Janeiro. A vulnerabilidade que deveria despertar compaixão pastoral torna-se oportunidade de exploração. Aqueles que deveriam ouvir gratuitamente a boa notícia da graça são ensinados a entregar o pouco que possuem para comprar a esperança de uma bênção.
O resultado é um Cristo sem cruz, graça transformada em mecanismo de troca e fé separada do arrependimento. Não é apenas uma versão desequilibrada do cristianismo. É uma inversão de sua mensagem.
O verdadeiro evangelho contra a religião da prosperidade
O verdadeiro evangelho começa na soberania de Deus e na absoluta dependência do pecador de sua graça. Deus não existe para realizar os projetos da criatura; a criatura existe para glorificar a Deus e desfrutá-lo para sempre. A salvação não é conquista da vontade, recompensa de uma fé suficientemente intensa nem resultado de qualquer técnica espiritual. É graça do princípio ao fim.
Contra o Cristo transformado em instrumento de prosperidade está o Cristo crucificado e ressuscitado. Contra a suposta soberania da mente humana está a soberania de Deus. Contra o mérito e as técnicas espirituais está a graça. Contra a promessa de imunidade à dor está a esperança escatológica. Contra o consumo de bênçãos está o discipulado.
O cristianismo nunca prometeu imunidade ao sofrimento. Deus não promete que seus filhos jamais adoecerão, sofrerão perdas, experimentarão pobreza ou enfrentarão a morte. Ele promete preservá-los em Cristo e conduzir a história para o dia em que a ressurreição triunfará definitivamente sobre o pecado, o sofrimento e a morte.
Outro evangelho – e o anátema apostólico
A mensagem da prosperidade é uma paródia do evangelho. Promete aquilo que Cristo não prometeu e transforma aquilo que ele livremente concede em mercadoria religiosa. Seu erro fundamental não consiste simplesmente em falar demais sobre dinheiro ou milagres. Ela reorganiza a religião cristã em torno do desejo humano: Deus torna-se meio; o homem, fim. A fé transforma-se em técnica; a oração, em instrumento de controle; a oferta, em investimento; a bênção, em mercadoria.
A mensagem da prosperidade é uma paródia do evangelho. Promete aquilo que Cristo não prometeu e transforma aquilo que ele livremente concede em mercadoria religiosa
Aqui está sua oposição radical ao evangelho da graça. A cruz não nos ensina a controlar Deus, mas a confiar em sua graça soberana. Não promete que jamais sofreremos, mas revela o Filho de Deus que sofreu por pecadores. A ressurreição não garante prosperidade nesta era, mas a vitória final de Cristo e a ressurreição de seu povo no último dia.
Por isso, a linguagem da mera crítica já não basta. Se uma mensagem substitui a graça de Cristo por técnicas humanas, a soberania de Deus pelo poder da declaração, a cruz pela prosperidade e o próprio Cristo pelos benefícios que supostamente podemos obter dele, não estamos diante de uma ênfase equivocada ou de uma forma excêntrica de cristianismo. Estamos diante daquilo que Paulo chama de “outro evangelho”, que na verdade não é evangelho algum (Gl 1,6-7).
E, diante de outro evangelho, o apóstolo pronuncia sua mais terrível condenação: “Ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (Gl 1,8). E repete a sentença: “Se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema” (Gl 1,9).
Essa dupla condenação apostólica deve determinar nossa avaliação final. O chamado “evangelho” da prosperidade não precisa ser moderado ou purificado de seus excessos. Precisa ser rejeitado. Seus falsos mestres precisam ser confrontados; suas vítimas, libertadas de sua escravidão; e as igrejas, chamadas de volta à graça soberana de Deus em Cristo.
Onde a cruz é substituída pela prosperidade, onde a graça é convertida em técnica e onde Cristo é transformado em meio para satisfazer a cobiça humana, o evangelho foi abandonado. E sobre aqueles que persistem em anunciar esse “outro evangelho” permanece a solene sentença apostólica: seja anátema.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Franklin Ferreira é bacharel em Teologia, pós-graduado em Bíblia e Teologia, mestre em Teologia e doutor em Divindade. É reitor e professor de Teologia Sistemática e História da Igreja no Seminário Martin Bucer, professor-adjunto no Puritan Reformed Theological Seminary, em Grand Rapids-MI (Estados Unidos), e consultor acadêmico. Autor de vários livros sobre teologia e história do cristianismo. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



