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Franklin Ferreira

Franklin Ferreira

Guerra no Oriente Médio

O Purim, o Irã e a crise moral do Ocidente

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Cartazes com fotos do aiatolá Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro, em uma praça de Teerã. (Foto: Abedin Taherkenareh/EFE/EPA)

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Vivemos dias de enorme tensão no cenário internacional. A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, foi confirmada após intensos ataques israelenses a estruturas do regime em Teerã. Declarações do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmam que o plano estratégico iraniano para destruir Israel foi neutralizado e que milhares de alvos militares ligados ao regime serão atacados nos próximos dias.

Ao mesmo tempo, Netanyahu e Donald Trump conclamaram o povo iraniano a aproveitar a oportunidade histórica para se levantar contra um sistema político tirano que, por décadas, governou o Irã com repressão interna, censura religiosa e exportação sistemática de violência religiosa para além de suas fronteiras.

Estamos diante de um daqueles momentos em que a história muda rapidamente. Seja qual for o desfecho político imediato, milhões de civis estão no meio dessa tensão. Homens, mulheres e crianças carregam o peso real das decisões tomadas por governantes e militares.

Purim, Amaleque e a memória do mal

Há um elemento profundamente simbólico nos acontecimentos atuais. No mesmo período em que esses eventos ocorrem, o mundo judaico celebrou o Purim. A importância dessa festa reside na celebração da providência divina. A festa recorda a salvação do povo judeu de um genocídio planejado por Hamã na antiga Pérsia, conforme narrado no Livro de Ester. Trata-se de uma celebração de origem rabínica que enfatiza temas como a coragem, exemplificada por Ester e Mordecai; a preservação da nação judaica; e a alegria comunitária expressa em refeições festivas, doações aos pobres e na leitura pública do Livro de Ester. Purim é um memorial permanente de que Deus intervém na história para preservar seu povo eleito diante do ódio irracional e das ameaças de extermínio.

A conexão aparece na leitura da Torá, realizada nas sinagogas em 27 de fevereiro, no Livro do Deuteronômio: “Lembrem-se do que os amalequitas fizeram no caminho, quando vocês estavam saindo do Egito. Eles saíram ao encontro de vocês no caminho e, quando vocês estavam abatidos e cansados, atacaram na retaguarda todos os desfalecidos que vinham atrás; e não temeram a Deus. Portanto, quando o Senhor, seu Deus, lhes houver dado sossego de todos os seus inimigos ao redor, na terra que o Senhor, seu Deus, lhes dá por herança, para que dela tomem posse, apaguem a memória dos amalequitas da face da terra; não se esqueçam disto.” (25,17-19) Amaleque tornou-se, ao longo da tradição bíblica, o símbolo de forças que procuram destruir Israel atacando os fracos e vulneráveis.

Purim é um memorial permanente de que Deus intervém na história para preservar seu povo eleito diante do ódio irracional e das ameaças de extermínio

Em 2 de março o Livro de Ester foi lido na celebração de Purim. E nessa pequena obra encontramos um trecho impressionante: “No dia em que os inimigos dos judeus esperavam apoderar-se deles, aconteceu o contrário, pois os judeus é que se apoderaram dos que os odiavam. [...] Os judeus se reuniram para atacar aqueles que queriam destruí-los. E ninguém podia resistir-lhes, porque o terror que inspiravam caiu sobre todos aqueles povos” (Ester 9,1-2). O antagonista central dessa narrativa é Hamã, descrito como agagita. Essa designação é teologicamente significativa, pois o conecta à antiga linhagem de Amaleque.

Os textos de Deuteronômio e Ester conectam-se diretamente à festa de Purim ao evocarem, de um lado, a memória do mal perpetrado por Amaleque, ancestral de Hamã, e, de outro, a surpreendente inversão providencial dos acontecimentos, na qual os inimigos dos judeus são derrotados. Essa reversão histórica expressa o livramento extraordinário narrado no Livro de Ester. Como dito, o Purim celebra esse tipo de reversão histórica, quando um plano de destruição é frustrado e o povo judeu ameaçado sobrevive.

Essas leituras bíblicas estabelecem princípios morais fundamentais na tradição judaica: o dever imperativo de lembrar (zachor) o mal perpetrado, para que não seja esquecido (lo tishkach) e, assim, evitado sua repetição; a obrigação de reconhecer e confrontar ameaças existenciais que atacam os fracos e desrespeitam o temor a Deus; e a resistência resoluta contra regimes ou forças que buscam o aniquilamento do povo eleito, culminando no mandamento divino de apagar completamente a memória dos inimigos da face da terra.

Um “Hamã moderno” e o colapso de um regime

É nesse contexto simbólico que se pode interpretar a morte de Ali Khamenei. Durante décadas, o regime iraniano construiu sua identidade política em torno da hostilidade a Israel, aos Estados Unidos e ao Ocidente. Financiou milícias terroristas islâmicas, incentivou guerras por procuração e declarou repetidamente que Israel deveria desaparecer do mapa. Internamente, governou por meio de repressão, controle religioso e perseguição a dissidentes. Por isso, pode-se descrever Khamenei como uma espécie de “Hamã moderno”: o rosto de um sistema ideológico que combinava teocracia autoritária, expansionismo militar e uma retórica constante de destruição contra o povo judeu e o Ocidente.

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A Escritura lembra repetidamente que regimes construídos sobre violência e intimidação não permanecem para sempre. Impérios surgem. Impérios desaparecem. Reinos humanos parecem invencíveis até o momento em que, subitamente, entram em colapso. Se os acontecimentos atuais abrirem caminho para transformações profundas no Irã, poderemos estar testemunhando um ponto de inflexão histórico no Oriente Médio.

A crise moral do Ocidente

Mas a crise atual não se limita ao Oriente Médio. Existe também uma profunda crise cultural dentro do próprio Ocidente.

Nos últimos anos tornou-se comum observar reações hostis a Israel vindas de elites políticas e intelectuais ocidentais. Lideranças como Emmanuel Macron e Keir Starmer frequentemente enfatizam críticas a Israel mesmo diante das ameaças existenciais enfrentadas pelos judeus vindas de regimes totalitários. Líderes como Pedro Sánchez condenam as ações militares contra o regime iraniano e restringem a cooperação militar com os Estados Unidos. Como chegamos a uma situação em que uma guerra contra um regime que financia terrorismo e reprime seu próprio povo gera tanta hostilidade entre aqueles que se consideram representantes do “mundo esclarecido”?

O que fica claro é a influência crescente da ideologia progressista. Essa visão de mundo, fortemente influenciada por categorias neomarxistas, divide a realidade entre “opressores” e “oprimidos”. Nesse esquema moral simplista, a culpa é atribuída automaticamente aos grupos considerados privilegiados, enquanto aqueles classificados como oprimidos recebem uma presunção automática de inocência.

Isso gera uma inversão moral profunda. Estados Unidos e (sobretudo) Israel passam a ser retratados como vilões, enquanto regimes ou movimentos violentos, como a causa “palestina”, são relativizados sob o argumento de que representam populações oprimidas. O resultado é uma cegueira moral e política perigosa.

Não celebramos a morte. Não nos alegramos com a destruição. A guerra, muitas vezes necessária para conter o mal, continua sendo um sinal trágico de um mundo marcado pelo pecado

A reação política no Ocidente

Essa desconexão entre elites e populações também explica o surgimento de reações políticas em várias partes da Europa. Figuras como Nigel Farage, no Reino Unido; Geert Wilders, nos Países Baixos; e Giorgia Meloni, na Itália, representam, em diferentes graus, uma tentativa de recuperar elementos da identidade nacional e da tradição cultural que muitos acreditam estar sendo dissolvidas por políticas progressistas. Mesmo na Alemanha, frequentemente vista como um epicentro do liberalismo europeu, o cenário político mudou com a ascensão do chanceler Friedrich Merz. Nos Estados Unidos, muitos veem a liderança de Donald Trump como uma tentativa de frear o declínio cultural e estratégico do Ocidente.

A crise atual revela algo profundo: civilizações não entram em colapso apenas por pressões externas. Muitas vezes elas se enfraquecem primeiro internamente, tal qual o antigo Império Romano do Ocidente.

A raiz espiritual da crise

O Ocidente nasceu de uma combinação singular de três heranças: a filosofia grega, o direito romano e a cosmovisão judaico-cristã. Especialmente, foi o cristianismo que forneceu a base moral para ideias como dignidade humana, liberdade de consciência, responsabilidade individual e limites ao poder do Estado. Quando essa base espiritual é abandonada, a civilização começa lentamente a perder sua coerência moral.

A cultura progressista não é apenas uma moda intelectual. Ela representa uma tentativa sistemática de reinterpretar a história, dissolver identidades nacionais e reconstruir valores morais básicos a partir de categorias ideológicas. Ao substituir verdade moral por ressentimento histórico, ela enfraquece os próprios fundamentos que tornaram possível a liberdade ocidental.

O futuro do Irã e a esperança cristã

Como cristãos, não podemos tratar tais acontecimentos com leviandade. Não celebramos a morte. Não nos alegramos com a destruição. A guerra, muitas vezes necessária para conter o mal, continua sendo um sinal trágico de um mundo marcado pelo pecado e pelo sofrimento.

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Por isso, a postura do cristão diante da guerra é a oração. Oramos pela proteção de civis inocentes. Oramos pela libertação de povos que vivem sob regimes opressivos. Oramos por sabedoria nas decisões que estão sendo tomadas neste momento. Oramos pela igreja no Irã, que vive sob enorme pressão. E oramos para que o evangelho avance mesmo em tempos de crise.

Ao mesmo tempo, os acontecimentos atuais lembram que Deus continua soberano sobre as nações. A antiga Pérsia, que hoje é o Irã, possui uma história extraordinária e um povo com uma rica herança cultural. Muitos iranianos anseiam por liberdade e vivem sob um sistema político que reprime dissidência, controla a religião e limita severamente a expressão pública da fé cristã.

Se os eventos atuais abrirem espaço para mudanças políticas, isso poderá marcar um ponto de inflexão histórico no Oriente Médio. Portanto, que ansiemos para que o povo iraniano encontre espaço para respirar liberdade; para que ciclos de violência e instabilidade naquela região sejam interrompidos; que portas se abram para reformas políticas. E, sobretudo, para que o evangelho floresça onde por tanto tempo houve medo.

“Guerras e rumores de guerras”

Cristãos sabem que a história não caminha em direção ao triunfo definitivo de ideologias ou impérios. Ela caminha em direção ao reino de Deus e à vitória total do Senhor Jesus. Reinos se levantam. Regimes caem. Ideologias surgem e desaparecem. Mas o Messias Jesus continua reinando.

Como Karl Barth lembrou à congregação que pastoreava na Suíça, em 2 de agosto de 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, a Palavra de Deus continua sendo: “Quando vocês ouvirem falar de guerras e rumores de guerras, não se assustem; é necessário que isso aconteça, mas ainda não é o fim” (Marcos 13,7). Há um propósito nas guerras; elas não pegam Deus de surpresa. E o próprio Jesus afirma: “Não se assustem”.

A última palavra não pertence aos tiranos, nem às ideologias, nem aos impérios. Ela pertence a Deus

Barth reconheceu que o medo em tempos de guerra é compreensível. “Na guerra, os fundamentos mais seguros da nossa existência são abalados e possivelmente destruídos.” Nenhum indivíduo ou instituição está plenamente seguro. Tudo pode ser perdido em um instante, e muitas vezes não há justiça nem racionalidade aparente no que é tirado e no que permanece.

Ainda assim, mesmo em um tempo tão assustador, disse Barth, o verdadeiro cristão possui um fundamento sólido na “presença e no amor do Deus eterno e vivo, que sustenta todas as coisas em sua mão e nos guia por sua vontade justa e santa, e que se aproximou de nós e se revelou em Jesus Cristo. Quem encontra descanso em Deus não se quebrará nem entrará em colapso diante das coisas tristes e terríveis que talvez tenhamos de enfrentar”.

A palavra de Jesus, “não se assustem”, significa que Deus permanece presente com e em favor do seu povo em meio ao caos. Ele nos chama a perseverar com fidelidade e coragem, confiando que haverá um futuro, quaisquer que venham a ser os resultados. Por isso, Barth exortou sua congregação a viver com coragem, cumprindo seus deveres para com a família e a comunidade. Um dia a guerra terminará e a vida precisará continuar. Portanto, os cristãos devem trabalhar com diligência mesmo em meio às dificuldades, olhando para esse dia com esperança e firmeza.

Nos dias turbulentos que vivemos, nossa tarefa permanece clara: discernir os tempos, resistir ao mal, defender a verdade e clamar ao Senhor da história. Porque, no fim, a última palavra não pertence aos tiranos, nem às ideologias, nem aos impérios. Ela pertence a Deus.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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